Fomiguinhaz

23/03/2007 | Categoria: Críticas

Espécie de filme nçao-oficial de Woody Allen, animação da PDI é prato cheio para adultos e fãs do cineasta

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

Consciente ou inconscientemente, quase todos os críticos do mundo seguem atualmente a teoria do autor, inaugurada por Bazin, Truffaut e demais colegas da nouvelle vague francesa, lá pelos idos de 1958. Adotar esta teoria significa considerar o diretor como o artista do filme, o cérebro solitário por trás daquilo que vemos. É curioso como esta noção, tão enraizada nas mentes que nem se reflete mais sobre nela, desaparece misteriosamente quando o filme em questão é uma animação computadorizada. De repente, os nomes dos estúdios (Pixar, PDI, Aardman, Blue Sky) ou de executivos (John Lasseter, Steve Jobs) passam automaticamente a ser associados aos filmes em si.

Esta questão dá a um longa-metragem como “Fomiguinhaz” (Antz, EUA, 1998) um aspecto bem particular. Como alguns devem saber, na época do lançamento original nas salas de cinema a produção da PDI foi sutilmente vendida, pelo estúdio Dreamworks, como se fosse um filme de Woody Allen. De fato, parecia um filme de Woody Allen: o personagem principal era uma formiga operária que freqüentava o analista (como o famoso comediante) e tinha todos os tiques de comportamento que a persona de Allen sempre projetou nos filmes que fez: um sujeito fisicamente frágil, idealista, romântico de carteirinha, levemente neurótico, bastante questionador e tremendamente inseguro.

Daí o filme ter agradado especialmente aos fãs do diretor, bem como ter funcionado melhor para adultos do que para crianças. Estas últimas tiveram, na mesma temporada, outro desenho animado (“Vida de Inseto”, da Pixar) com o mesmo tema, e personagens semelhantes, para se divertir. Um dos grandes méritos de “Fomiguinhaz”, na verdade, foi consolidar uma fórmula que já vinha sendo desenvolvida em produções anteriores, especialmente pela Pixar: temperar uma estrutura de narrativa bem tradicional (aqui, rapaz frágil tem que mostrar coragem para conquistar garota e salvar o grupo social em que vive) com inúmeras referências a filmes adultos, de preferência sucessos pop – “Fomiguinhaz” foi o primeiro de muitos longas a parodiar a famosa dança que John Travolta e Uma Thurman haviam carimbado no inconsciente fílmico de todos em “Pulp Fiction”, quatro anos antes.

Uma das grandes sacadas dos diretores, Eric Darnell e Tim Johnson, foi empregar a mesma estratégia utilizada com Woody Allen para os demais personagens do formigueiro: dar a cada formiga as características projetadas em filmes anteriores pelo ator que lhe empresta a voz. O elenco gigantesco (Sylvester Stallone, Sharon Stone, Dan Akroyd, Gene Hackman, Jennifer Lopez) favorece o grande número de tiradas cômicas que recorrem a este artifício. Para completar, a história é redondinha e a qualidade da animação, muito boa – mesmo com os incríveis avanços do CGI nos anos posteriores, “Fomiguinhaz” ainda parece um filme moderno, e isto é um elogio.

Sim, mas qual a relação de tudo isto com a teoria do autor? Na verdade, é simples: Darnell e Johnson jamais foram devidamente reconhecidos pelo bom trabalho nesta obra. É fato que os dois deram a volta por cima e voltaram a dirigir grandes animações (o primeiro fez depois “Madagascar”, e o segundo comandou “Os Sem-Floresta”, ambos bem inferiores), mas a maldição que caiu sobre “Fomiguinhaz” fez com que, para todos os efeitos, este se tornasse um filme não-oficial de Woody Allen. Pois bem: de um modo ou de outro, esta é uma das animações computadorizadas mais adultas e criativas que saiu dos grandes estúdios na excelente safra da segunda metade dos anos 1990. Não é pouco.

O DVD nacional da Paramount é bem simples. O filme aparece com imagem correta (widescreen anamórfica), áudio bom (Dolby Digital 5.1), e dois featurettes de bastidores, além de comentário em áudio da dupla de diretores.

– Fomiguinhaz (Antz, EUA, 1998)
Direção: Eric Darnell e Tim Johnson
Animação (vozes de Woody Allen, Jennifer Lopez, Sylvester Stallone, Sharon Stone)
Duração: 82 minutos

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