Fomos Heróis

23/09/2003 | Categoria: Críticas

Guerra do Vietnã é revisitada em filme cru e violento, que não acrescenta nada à filmografia sobre o conflito

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★☆☆☆

Atentados terroristas à parte, a guerra do Vietnã permanece como a maior das feridas morais do povo norte-americano no século XX. É incrível, mas o trauma deixado pela sangrenta guerra de trincheiras no país asiático parece maior até mesmo do que as milhares de perdas humanas da II Guerra Mundial. Talvez essa situação seja decorrente da derrota humilhante para um país subdesenvolvido, não das mortes em si, mas essa é a única conclusão a que se pode chegar depois de assistir a “Fomos Heróis” (We Were Soldiers, EUA, 2002).

O filme, escrito e dirigido por Randall Wallace (ex-seminarista, faixa preta de caratê e roteirista do épico “Coração Valente”) e estrelado pelo australiano Mel Gibson, é mais uma película a retornar ao inevitável filão. “Fomos Heróis” reconta a batalha de Ia Drang, o primeiro confronto de grande porte entre as forças dos EUA e do Vietnã do Norte. Ou melhor, mergulha nas quase 40 horas em que um grupo de 400 soldados de elite dos Estados Unidos ficaram cercados por uma tropa de 2 mil vietnamitas, numa colina adjacente a um descampado considerado estratégico para pousos de helicópteros militares.

A situação básica gerada no enredo – pequeno grupo de soldados dos EUA está cercado por milhares de inimigos – já aproxima “Fomos Heróis” do mais bem sucedido e paparicado filme de guerra da temporada de 2001, “Falcão Negro em Perigo”, de Ridley Scott. Mas isso é só o começo. Os dois filmes são, na verdade, irmãos gêmeos. Ambos dão pouco espaço à ação psicológica, preferindo mostrar a carnificina de forma crua e impactante. A dupla também chega à mesmíssima conclusão: quando a guerra está sendo travada, não se luta exatamente por um país ou por uma bandeira, mas por si próprio. Ocorre que “Fomos Heróis”, a despeito do título bobo, é mais filme do que o épico de Ridley Scott.

Bom, se é melhor, também não chega a ser um grande filme. Na realidade, tudo o que havia para ser dito sobre os horrores do Vietnã já foi dito. Obras como “Nascido para Matar” (Stanley Kubrick), “Apocalypse Now” (Francis Ford Coppola) e “Platoon” (Oliver Stone) exploraram magnificamente as ambigüidades, a complexidade e a violência de conflitos como os bombardeios inumanos que ocorreram na Ásia. E esses clássicos nem precisaram apelar para imagens tão chocantes, tão explícitas, que parecem saídas de alguma exibição dos telejornais do estilo “Cidade Alerta”.

Aliás, é preciso apontar uma tendência dos filmes contemporâneos que tentam denunciar a condição sub-humana da guerra. Depois que Steven Spielberg inaugurou a ultra-violência cinematográfica na abertura de “O Resgate do Soldado Ryan”, em 1998, todo mundo resolveu fazer igual — ou pior. Se o espectador tem estômago fraco, portanto, é melhor ficar longe de “Fomos Heróis”. A violência, nesse caso, beira o grotesco. Embora não tenha a montagem alucinada da obra de Ridley Scott e use o som de forma brilhante, quase pondo o espectador no meio da batalha, a película exagera na crueza de algumas seqüências. Em determinada cena, o sangue literalmente pinga na câmera.

O tradicional ufanismo propagado nesse tipo de filme, claro, também dá as caras, embora esteja bem disfarçado. O verdadeiro subtexto do trabalho parece ser mesmo uma crítica à política externa norte-americana. Fomos Heróis condena políticos e burocratas dos EUA. Acusa-os de arrogância e cegueira estratégica, quando os mostra mandando ao front uma tropa inexperiente, que desconhece a geografia complicada do território. O objetivo do filme parece ser esse: mostrar que a sucessão de equívocos que viriam a provocar a derrota norte-americana já podiam ser percebidos desde o começo do conflito. Como nem tudo é perfeito, os soldados dos EUA são sempre descritos como bons rapazes, fiéis às esposas, sempre dispostos ao sacrifício pelo colega mais próximo. Tanta bondade chega a ser nauseante, mas é exatamente isso que o espectador norte-americano gosta de ouvir: nosso povo continua a ser o melhor, nossos oldados eram todos heróis e só perderam a guerra por causa da burrice dos políticos. A simplificação de causas e conseqüências, afinal, é a regra que impera em Hollywood.

Por outro lado, a câmera de Wallace também não comete o pecado de Ridley Scott. O experiente diretor de Blade Runner fotografou o povo da Somália, no neurótico “Falcão Negro em Perigo”, como um bando de ignorantes esfomeados e/ou corruptos, a típica boiada pronta para levar bala. Já os vietnamitas de Wallace lutam uma guerra ética (isso existe?), brigam apenas pela sobrevivência e – surpresa! – também têm esposas esperando em casa. De qualquer forma, o pouco tempo de tela grande dado aos asiáticos já depõe contra a imparcialidade do trabalho. O ufanismo indesejável reside nesse detalhe, o desequilíbrio do roteiro, que praticamente só vem a focalizar os vietnamitas quando eles estão no front. A maior nota patriótica do filme, porém, veio do Brasil mesmo, na tradução idiota do título (“Fomos Soldados” virou “Fomos Heróis”, um exemplo de como uma palavra mal empregada por gerar um grande absurdo, já que o título traduzido faz o desfavor de julgar o filme antes que o espectador o veja).

Isso posto, resta dizer que a interpretação de Mel Gibson parece um tanto deslocada, sem sal. O elenco de coadjuvantes também carece de brilho. Madeleine Stowe (irreconhecível, com os lábios turbinados, parecendo ter sido picada por alguma abelha antes das filmagens) está fraca, e a dupla Greg Kinnear/Chris Stein ainda precisa tomar muito leite para ganhar pose de militar. No final, fica a sensação de que “Fomos Heróis” é um trabalho no máximo razoável, cujo discurso não acrescenta absolutamente nada ao que já sabemos sobre o Vietnã. Faltou carisma e energia – algo que existe no estúpido “Falcão Negro em Perigo”, por mais absurdos que ele cometa – para desenterrar o filme da vala comum. Sem trocadilhos.

O DVD nacional do filme é ruim; nem apela para documentários de bastidores e nem sequer utiliza uma trilha sonora de alta qualidade, algo que filmes de guerra sempre proporcionam. Nesse caso, o filme vem limpo, sem extras, e inclusive com imagens em fullscreen (ou seja, com cortes laterais feitos para preencher a imagem das TVs comuns por inteiro).

– Fomos Heróis (We Were Soldiers, EUA, 2002
Direção: Randall Wallace
Elenco: Mel Gibson, Madeleine Stowe, Barry Pepper, Greg Kinnear
Duração: 138 minutos

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