Fonte da Vida

10/04/2007 | Categoria: Críticas

Darren Aronosfky parece ter algo importante a dizer sobre a morte, mas se complica pelo caminho

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

Metafísica traduzida em imagens? História épica de um amor que desafia a morte? As duas coisas? Seja qual for a opção escolhida pelo leitor, é certo que em “Fonte da Vida” (The Fountain, EUA, 2006), o cineasta norte-americano Darren Aronosfky parece ter algo importante a dizer sobre o tema, mas se perde pelo caminho. A narrativa conta, através de belas soluções visuais, três histórias interligadas que cobrem um intervalo de quase mil anos. O diretor usa uma colagem de mitologia cristã, lendas indígenas, ficção científica e romance místico para refletir sobre o significado da morte, e seu papel dentro do ciclo da vida. O resultado é ambicioso, mas tremendamente irregular.

Acima de qualquer comentário crítico, há de se louvar a coragem do cineasta, que bateu o pé e brigou com estúdios durante meia década para levar seu romance épico às telas. Olhando o resultado final, fica fácil compreender porque nenhuma produtora concordou em liberar os US$ 75 milhões que o projeto original exigia, e também porque o astro Brad Pitt cancelou a participação no filme em 2002, apenas duas semanas antes das gravações agendadas. “Fonte da Vida”, feito finalmente por US$ 35 milhões após uma série de cortes de custos, não é um filme comum. Grosso modo, nem sequer conta uma história convencional. O objetivo é tentar proporcionar ao espectador uma experiência emocional que vá além das palavras – uma experiência metafísica, uma gama de sensações que a linguagem humana não alcança.

Isto não quer dizer que o enredo seja particularmente difícil de compreender. São três histórias diferentes, mas com um ponto de interligação muito claro: os personagens são os mesmos. O eixo principal da narrativa acontece no presente, quando o neurologista Tom (Hugh Jackman) tenta desesperadamente avançar numa pesquisa científica com chimpanzés. O que ele quer de fato é achar um meio de salvar a vida da esposa Izzi (Rachel Weisz), que sofre com um tumor no cérebro. Enquanto espera a morte chegar, a mulher escreve um livro, transpondo para o século XVI com a mesma situação básica. No romance, o conquistador Tomas (Jackman) sai em busca, nas selvas da Guatemala, da lendária Árvore da Vida, descrita no livro bíblico do Gênese como sendo capaz de dar a imortalidade a quem dela se alimentar. Mas ele só quer mesmo salvar a rainha Isabel (Weisz), da Espanha, da morte certa nas mãos da Inquisição.

A linha narrativa mais misteriosa localiza Tom (de novo Jackman) no futuro. Agora uma espécie de astronauta zen-budista, ele viaja numa nave-bolha rumo a uma galáxia distante, onde uma estrela está prestes a explodir. Tom leva levando consigo uma gigantesca árvore e as memórias da mulher morta (Weisz, claro). O filme estabelece muito claramente uma ligação entre as duas primeiras histórias – a ação no passado não é realidade, e sim uma fantasia do casal no presente – mas deixa no ar, de propósito, a verdadeira natureza dos acontecimentos no futuro. As dúvidas começam aí: o astronauta é mesmo Tom, ou seria um descendente dele? A viagem espacial acontece mesmo ou é sonho de algum personagem? Seriam as três narrativas os desdobramentos de uma única história de amor eterno? E, mais importante, o que Darren Aronofsky está tentando dizer ao espectador com tudo isso?

Graças ao ramo futurista da narrativa, fica bastante óbvio que o clássico “2001 – Uma Odisséia no Espaço”, de Stanley Kubrick, é a referência obrigatória do cineasta. Nos dois longas-metragens, o acontecimento mais esperado pelos personagens é uma explosão estelar – a morte de uma estrela e o nascimento simultâneo de outra. Kubrick foi espetacularmente ambicioso, ao tentar refletir sobre o lugar do homem no universo, com uma trama poética e deliberadamente não-narrativa. Aronofsky não ficou muito atrás na intenção; o problema é que Aronofsky, apesar de talentoso, não é Kubrick.

Está de volta, aqui, uma obsessão evidente do cineasta, que é a busca por padrões na natureza que se encaixem na idéia que nós, os seres humanos, fazemos de Deus. Este conceito era a mola-mestra do thriller “Pi”, sua estréia em 1998, e volta a assombrar a narrativa neste filme delirante e místico. Porém, ao insistir no tema através de uma narrativa não-linear que parece ter sido encharcada de Santo Daime (talvez saído diretamente da casca da árvore misteriosa), Aronofsky deixa claro que não é um cineasta comum.

Ele não está interessado em contar histórias simples. Dá até para fazer um paralelo interessante: Max Cohen (protagonista de “Pi”, homem com a obsessão fixa de descobrir uma chave matemática capaz de lhe dar acesso direto a Deus) como alter ego definitivo de Aronofsky. Sim, o que o cineasta deseja está no terreno normalmente trilhado pelos filósofos: investigar aquilo que está além da Física, além das palavras, além de qualquer experiência humana possível. Ele quer a metafísica. Quer dar uma espiada nos mistérios do universo.

Bem, mas “Fonte da Vida” é apenas uma peça de entretenimento, e como tal não pode mais do que incentivar este tipo de pensamento. O filme não apresenta respostas, apenas uma reflexão – um tanto confusa, às vezes imatura e superficial – sobre um tema ambicioso. Embora repleto de imagens solenes e deslumbrantes, impregnadas por um tema que insiste em fugir de vista a cada nova cena, o longa-metragem não está muito distante de coisas como o desenho animado “O Rei Leão” (1994), que teorizava para crianças sobre a aceitação da morte como parte do ciclo da vida. Em última análise, nada há de novo na mensagem de “Fonte da Vida”, a não ser a embalagem cuidadosamente estilizada.

Em termos cinematográficos, o ritmo é lento e contemplativo, algo que enfatiza as maiores qualidades do trabalho, que são a fotografia de Matthew Libatique (“O Plano Perfeito”) e a excelente atuação de Hugh Jackman. É importante observar que a parte visual, especialmente na vertente futurística da narrativa, dribla muito bem os problemas de orçamento (perceba como Aronofsky evita as tomadas panorâmicas, normalmente inseridas no início de cada nova cena, para ajudar o espectador a conhecer o ambiente e a posição dos personagens dentro dele), com criatividade.

Para evocar a idéia de tristeza e ao mesmo tempo sublinhar certos conceitos defendidos pela narrativa, Libatique concebeu imagens de tonalidade amarelo-alaranjada. A textura dá ao filme uma atmosfera de crepúsculo, algo que não apenas reforça subliminarmente a idéia de morte (o pôr-do-sol representando, claro, o fim do dia), mas também contribui decisivamente na tese defendida por Aronofsky de renascimento (pois o dia voltará na manhã seguinte). A fotografia também ajuda a narrativa em outro aspecto, incluindo inúmeras tomadas que mostram formas circulares, algumas óbvias (a nave-bolha, a aliança de casamento) e outras nem tanto (a excelente tomada do alto que enfatiza o formato cilíndrico do vestido da rainha Isabel).

É uma pena que, talvez por não confiar na percepção da platéia, o diretor dá um jeito de enfatizar desnecessariamente o significado de tantos círculos, criando todo um diálogo entre Tom e Izzi sobre isto, ligando o tema à idéia de morte como novo começo. O papo entre marido e mulher poderia ter sido tranqüilamente eliminado, até porque a bela e silenciosa seqüência em que o conquistador Tomas encontra finalmente a árvore gigantesca, talvez o melhor momento do filme, tematiza a idéa toda apenas com imagens, sem precisar de palavras.

Por outro lado, Aronofsky realiza uma edição inteligente, controlando com suavidade as transições entre as três diferentes épocas. A montagem, aliás, abusa de fusões criativas, como a cena em que o mosteiro espanhol do século XVI onde a ação em determinada cena se desenrola é mostrado de perto e, quando a câmera se afasta, percebemos que a construção é na verdade um quadro que adorna a parede de Tom e Izzi, no presente. Notícia melhor ainda é que aqui Aronofsky deixa de lado a mania por planos curtos que se sucedem em grande velocidade, algo que dava um tom nervoso tanto a “Pi” quanto a “Réquiem para um Sonho”, seus trabalhos anteriores. O ritmo deste filme é mais orgânico. Sinal de maturidade, talvez.

Só que maturidade é justamente o ingrediente que parece faltar na mistura final organizada pelo diretor. Um tema difícil e intangível como a morte poderia ser mais bem trabalhado por alguém que estive mais perto dele. Alguém, talvez, mais vivido – fica difícil imaginar que um cineasta jovem, com apenas dois trabalhos no currículo, tenha algo de relevante a dizer sobre a morte. No fim, a impressão que fica é de que há, sim, algum tipo de conteúdo importante por trás da aparência mística de “Fonte da Vida”, mas Aronofsky não foi capaz de abrir um caminho ao público até a revelação pretendida. Na prática, isto significa que quando Tom, o protagonista, tem a esperada epifania no final, o público não consegue alcançar o que o personagem descobriu.

O DVD da Fox, simples, não tem extras. Imagem (wide anamórfica) e áudio (Dolby Digital 5.1) estão bons.

– Fonte da Vida (The Fountain, EUA, 2006)
Direção: Darren Aronofsky
Elenco: Hugh Jackman, Rachel Weisz, Ellen Burstyn, Mark Margolis
Duração: 96 minutos

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