Forrest Gump

10/11/2004 | Categoria: Críticas

Declaração de fé na humanidade tem belo roteiro e direção tão discreta quanto eficiente

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

A maioria dos grandes filmes, os filmes eternos, tem algo de pessimista. É difícil teorizar sobre o motivo dessa constatação. De dramas pesados como “Cidadão Kane” a comédias como “A Vida de Brian”, a maioria das produções cinematográficas que deixaram uma marca na história espiam a condição humana de um ponto de vista mais negativo do que positivo. Talvez isso seja um legado do século XX, mas não importa. Os filmes bons que celebram a arte de estar vivo são raros. Um deles é “Forrest Gump – O Contador de Histórias” (Forrest Gump, EUA, 1994), uma das mais célebres produções de Robert “De Volta Para o Futuro” Zemeckis.

“Forrest Gump” foi uma enorme surpresa do ano de 1994. O filme tornou-se uma verdadeira coqueluche nos EUA. Depois, alastrou-se pelo resto do mundo. De certo modo, foi o filme certo na hora certa. Ele apareceu em um momento de recessão econômica global e, pior ainda, quando o assunto “efeito estufa” lançava sombras no futuro da humanidade. De cetra forma, é possível afirmar que “Forrest Gump” é a contraparte conservadora – o outro lado da moeda – de produções como “Pulp Fiction”, que escondem a esperança no ser humano sob uma muralha de cinismo.

Forrest Gump (Tom Hanks, em interpretação que ganhou o Oscar merecidamente) é um protagonista pouco comum. Ele é o centro gravitacional do filme; todas as cenas giram em torno da reação dele aos acontecimentos à sua volta. Gump tem QI de 75 – ou seja, é tecnicamente retardado – e filtra o mundo com olhos de criança. Para Gump, o mundo é de uma simplicidade desconcertante. Ele não vê a complexidade do que significa ser humano. Sua alma é pura, e ele basicamente age de acordo com os impulsos físicos e emocionais mais básicos. O homem é pura emoção. Sua pureza é contagiante e provoca um choque tão grande na platéia que é impossível deixar de admirá-lo.

O truque de Robert Zemeckis é mostrar o mundo feio e sujo em que habitam os amigos, colegas e parentes de Forrest Gump do ponto de vista dele. Sempre que há tristeza, dor e agonia, lá está Gump. Dessa forma, o espectador está sempre colocado no mesmo ponto de vista dos personagens que contracenam com Gump. Eles são uma galeria interessante. Há Jenny (Robin Wright Penn), amiga de infância e paixão platônica do herói, que sempre faz a coisa errada e se afunda cada vez mais em problemas. Há o tenente Dan (Gary Sinise), oficial do Exército que vive sob o peso de ter uma família de heróis de guerra. Há a mãe superprotetora (Sally Field). São personagens adoráveis.

Zemeckis soube filmar o ótimo roteiro de Eric Roth com uma leveza insuspeita, transformando um minucioso estudo da história norte-americana recente (entre as décadas de 1950 e 1980) em uma história leve, agradável e engraçada. O grande trunfo de Robert Zemeckis foi a possibilidade de uso de uma tecnologia então inédita, que permitiu inserir digitalmente a imagem de Tom Hanks dentro de filmes antigos, de forma que Forrest Gump aparece contracenando com personalidades reais, como John Kennedy e John Lennon, e tomando parte de eventos históricos reais.

Algumas gags inspiradas nessa técnica são incomparáveis. Em uma delas, o pequeno Gump, que usa muletas para caminhar devido a um defeito nas pernas, começa a dançar de forma estranha e acaba influenciando um jovem violonista do Mississipi a balançar seus quadris – e a se tornar alguém chamado Elvis Presley. Em outro momento engraçado, uma entrevista de Forrest Gump na TV sobre uma visita à China inspira John Lennon a compor o hino “Imagine”.

É um excelente exemplo de como a tecnologia digital pode ser utilizada a favor do filme, uma mera ferramenta do ato de contar uma história de forma visual, sem conspurcar a verdadeira peça de excelência de um filme, que é o roteiro. Filmes, afinal de conta, não deixam de ser, fundamentalmente, boas histórias. E isso, inegavelmente, “Forrest Gump” é. Uma história de fé no ser humano, o correspondente masculino do belo filme francês O Fabuloso Destino de Amelie Poulain”. E um grande exemplo de direção cinematográfica discreta e eficiente.

A Paramount demorou alguns anos para preparar a edição especial de “Forrest Gump” em DVD. O pacote foi distribuído em dois discos e é bastante farto. O disco 1 contém o filme, em cópia restaurada novinha em folha e trilha de áudio Dolby Digital 5.1. Há uma trilha em português, para quem prefere ver o filme assim, de boa qualidade. Completam o disco dois comentários em áudio, um com o diretor Robert Zemeckis (acompanhado por produtor e designer de produção) e outro com a produtora Wendy Finerman.

O disco 2 tem como prato principal um documentário de 30 minutos, realizado em 1994, sobre os bastidores da produção. A produção é dissecada em mais cinco mini-documentários, dedicados a temas distintos – o mais interessante é o dedicado a mostrar como foram produzidos os efeitos especiais, incluindo a belíssima cena de abertura, em que uma pena branca flutua por vários quarteirões antes de cair aos pés de Forrest Gump, que aguarda um ônibus na praça de uma pequena cidade do interior. As cenas históricas em que Gump foi inserido e contracena com personagens famosos também são dissecadas, e há até cenas inéditas do gênero (numa delas, Gump joga pingue-pongue com George Bush, o pai). Uma galeria de fotos e dois trailers completam o disco.

– Forrest Gump – O Contador de Histórias (Forrest Gump, EUA, 1994)
Direção: Robert Zemeckis
Elenco: Tom Hanks, Gary Sinise, Robin Wright Penn, Sally Field
Duração: 142 minutos

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