Frankenstein (1931)

28/09/2005 | Categoria: Críticas

Longa de James Whale, que capricha no visual expressionista, tem DVD de qualidade

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★½

O sucesso dos filmes de monstros lançados pela Universal na década de 1930 deu partida a um grande número de franquias cinematográficas envolvendo personagens como o Lobisomem e o Conde Drácula. Historiadores e críticos são unânimes em considerar a série sobre Frankenstein, contudo, como a mais bem sucedida em termos artísticos, graças ao diretor de qualidade superior que estava à frente das duas primeiras peças da franquia: James Whale. “Frankenstein” (EUA, 1931) comprova isso, embora seja quase unanimamente considerado inferior à seqüência “A Noiva de Frankenstein” (1935).

Obviamente, o filme é uma produção de estúdio, erguida a toque de caixa e sem tanto espaço para elementos autorais. Mas, como Martin Scorsese já observou, os melhores diretores sempre conseguiam colocar, intencionalmente ou não, suas marcas registradas dentro do esquema massacrante de linha de fábrica que era a norma da Hollywood clássica. James Whale começou a trabalhar na indústria cinematográfica como cenógrafo e era um desenhista de mão cheia. Essas qualidades acabaram refletidas no visual cuidadoso e caprichado dos filmes que dirigiu.

“Frankenstein” mostra uma grande influência visual do expressionismo alemão, movimento que repercutia favoravelmente em Hollywood e que, inclusive, gerava mão-de-obra para os estúdios norte-americanos (não esqueça em, na década de 1930, artistas e intelectuais europeus estavam emigrando em massa para os EUA, devido à ameaça do nazismo). O estilo, caracterizado por imagens de contrastes violentos, muitas sombras e ângulos de câmera incomuns, era um prato cheio para a história trágica do médico que tenta dar vida a um corpo formado por partes de vários cadáveres.

Nas mãos de Whale, a história virou virou uma peça visual sinistra e macabra. Os cenários são cheios de neblina e sombras, com destaque absoluto para o moinho onde o Dr. Henry Frankenstein (Colin Clive) instala um laboratório de pesquisas. Trata-se de uma impressionante locação com pé direito altíssimo. Whale aproveitou a altura do cenário para utilizar abundantemente o plongée/contra-plongée (cenas filmadas de baixo para cima e vice-versa), gerando enquadramentos absolutamente fascinantes e incomuns para a época. A abertura, que acontece em um cemitério cheio de silhuetas sinistras, é outro destaque. O visual de “Frankenstein” repercutiria, décadas depois, nos trabalhos do italiano Mario Bava, a exemplo de “A Máscara de Satã”.

Um ponto interessante que merece ser destacado é o monstro, tornado inesquecível pela interpretação desengonçada de Boris Karloff. A composição do personagem é adequada: Whale não o retrata como um ser sanguinário, mas como um grandalhão que não consegue controlar a própria força e, por isso, acaba se tornando uma ameaça – e a brilhante seqüência em que ele atira uma criança na água, esperando que ela bóie como a flor jogada segundos antes no lago, mostra de modo inteligente a mentalidade infantil da criatura.

Vale lembrar que a maquiagem de Karloff, criada pelo especialista Jack Pierce, não lembra em nada a descrição do monstro feito pela romancista Mary Shelley. A cabeça com topo quadrado e os eletrodos (e não parafusos, como muitos pensam) no pescoço são elementos funcionais para a experiência, que incluía um transplante de cérebro (note o uso da atrasada teoria de Lombroso pelo filme) e o uso de energia elétrica para a reanimação da criatura. Para que o “choque” funcionasse, o corpo do monstro tinha que ter um pólo negativo e um positivo, como uma bateria de carro, certo? Se não fosse Pierce, esse detalhe importante, que confere credibilidade ao resultado final, teria sido esquecido.

Quando se compara “Frankenstein” a outro clássico da Universal surgido no mesmo ano, “Drácula”, fica evidente a diferença estilística entre James Whale e Tod Browning, os dois diretores. Os trabalhos têm pontos em comum, especialmente no visual, mas a obra de Browning parece claramente mais desleixada. Whale, ao contrário, se esmerou em realizar um filme de que se orgulhasse. Ele tinha esperança de ascender ao time dos grandes diretores da companhia, desejo que acabou não se concretizando, especialmente pela condição de homossexual que o transformava em vítima de preconceito. Uma pena.

O filme foi lançado no Brasil dentro da Monsters Collection, da Universal, em uma edição caprichada. A obra conta com imagens no enquadramento original (standard 4×3) e som remasterizado (Dolby Digital 2.0). Há um comentário em áudio do historiador Rudy Behlmer (legendado em português), um documentário (33 minutos, com legendas), um curta-metragem chamado “Boo!”e galeria de fotos. O material é de excelente qualidade.

– Frankenstein (EUA, 1931)
Direção: James Whale
Elenco: Boris Karloff , Colin Clive, Mae Clarke, John Boles
Duração: 71 minutos

| Mais


Deixar comentário