Fraternidade É Vermelha, A

23/10/2006 | Categoria: Críticas

Filme caloroso e solidário fecha com chave de ouro a belíssima Trilogia das Cores, de Kieslowski

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★★

O atropelamento de uma cadela é o ponto de partida de um dos mais belos, calorosos e solidários filmes de todos os tempos. Parece banal? Pois o cineasta polonês Krzysztof Kieslowski consegue extrair poesia do cotidiano com uma sensibilidade e uma delicadeza que poucos diretores de cinema, em qualquer tempo ou lugar, conseguem igualar. “A Fraternidade É Vermelha” (Trois Couleurs: Rouge, França/Polônia/Suíça/Grã-Bretanha, 1994) não apenas encerra a famosa Trilogia das Cores com chave de ouro, mas é também o canto do cisne de Kieslowski, que morreria dois anos depois, sem filmar novamente. O mundo perdia um dos últimos gênios do cinema humanista. Ainda bem que o recado dele já estava dado.

Todas as características que marcaram o trabalho de altíssimo nível do cineasta foram refinadas e maximizadas no filme. O tom geral é puro Kieslowski: melancólico, humilde, agridoce, como já havia acontecido com os dez médias-metragens do “Decálogo” e com os dois longas anteriores que, junto com “Fraternidade”, compõem a trilogia. A diferença é que, aqui, Kieslowski aparece mais otimista do que nunca. Valentine (Irène Jacob), a protagonista, é uma das personagens mais positivas de toda a obra do mestre polonês.

Outro ponto típico de Kieslowski que aparece de modo exemplar em “A Fraternidade É Vermelha” é o elemento divino que impregna os filmes dele. Diretor de formação cristã, Kieslowski reprocessa o ensinamento bíblico de um modo muito pessoal e particular, em histórias que jamais tentam catequizar o espectador. Seus filmes são sobre fé, não sobre religião. Ele não é nem um pouco carola. Aliás, a obra de Kieslowski não cita o divino diretamente, apenas o evoca; é sempre possível perceber a atuação de alguma força invisível, um elemento inefável, nas ações e situações mostradas. Podemos chamá-lo de destino ou de acaso, se preferirmos. Não importa. O cinema de Kieslowski prescinde de rótulos, não necessita de palavras. Nós sentimos. É o bastante.

“A Fraternidade É Vermelha” trata do encontro de duas pessoas que não poderiam ser mais diferentes. Uma delas é a já citada Valentine; a outra é um juiz aposentado (Jean-Louis Trintignant) cujo nome, curiosamente, não é mencionado (alguns críticos acham que a ausência do nome é uma indicação de que o magistrado é, na verdade, uma metáfora de Deus). A modelo o encontra depois de atropelar, por acidente, uma cadela com o endereço do juiz escrito na coleira. Valentine a socorre e a leva em casa. O magistrado, porém, não parece nem um pouco interessado no animal, ou na mulher. Ela descobre que ele, um homem solitário, passa os dias monitorando os telefonemas dos vizinhos através de escutas telefônicas clandestinas. Fica enojada. Mesmo assim, uma ligação de amizade tão forte quanto inusitada nasce, inesperadamente, desse encontro fortuito de duas figuras completamente distintas.

De fato, os dois parecem estar em pólos opostos, em termos de comportamento. Valentine é uma pessoa doce, compreensiva, honesta, sempre pronta a ajudar quem estiver próximo, mesmo um desconhecido. Já o juiz é grosso, estúpido, um egoísta que não respeita nem mesmo a privacidade dos outros – um verdadeiro idiota. Por trás das aparências, no entanto, um reconhece no outro uma alma que precisa de apoio. Valentine enfrenta problemas com o namorado ciumento que está na Inglaterra. O juiz tem um episódio obscuro do passado que jamais revelou a alguém e pode estar na raiz do comportamento hediondo que apresenta.

Eles não se encontram mais do que quatro vezes, mas os diálogos entre ambos são fascinantes, cheios de calor humano, paciência e compreensão. Nada parecido com o cinismo cortante de um “Closer – Perto Demais”, por exemplo; o registro que Kieslowski persegue é mais espontâneo, mais hesitante, mais próximo da realidade. E o andamento da história é absolutamente imprevisível, o que torna “Fraternidade” ainda mais empolgante.

Há também mistério no filme. Uma trama paralela apresenta Auguste (Jean-Pierre Lorit), um estudante de Direito que se preparar para fazer um concurso de juiz. Ele está sempre no caminho de Valentine, embora os dois não se conheçam. Mais curioso ainda é que a vida de Auguste parece reviver, ponto a ponto, a história pessoal do juiz. Mas quem é ele? Algum parente? Qual a relação possível entre as duas histórias?

A dica, aqui, é ter paciência e esperar o desenrolar do brilhante roteiro (escrito por Kieslowski, em parceria com o velho parceiro Krzysztof Piesiewicz), que as liga de modo alegórico e absolutamente sedutor, deixando a platéia com um sorriso mudo no rosto e sugerindo que a existência (“você só precisa ser”, diz um dos personagens da trilogia) talvez não seja uma experiência tão solitária assim, já que algumas histórias vivem se repetindo. Kieslowski parece dizer que alguma força cósmica conecta as pessoas, e nem sempre o acaso é aleatório.

Uma interpretação possível para a inclusão da história de Auguste em “Fraternidade” está associada a um outro personagem misterioso, que aparece nos três filmes da trilogia: a velhinha que tenta colocar uma garrafa vazia em um depósito de lixo (no primeiro filme, ela não consegue e a protagonista não a vê; no segundo, o personagem principal a vê, mas apenas sorri e dá de ombros; neste terceiro, Valentine finalmente a ajuda – e a velhinha consegue cumprir seu objetivo). Em Kieslowski, no entanto, é muito comum que o elemento importante de uma cena esteja inteligentemente escondido atrás de intenções menos nobres. O que chama a atenção na história da velha, na verdade, é que nos dois primeiros filmes ela aparece em Paris, enquanto no terceiro está em Genebra. Como?

Kieslowski jamais explicou o paradoxo; preferiu deixar a interpretação para cada leitor/espectador. Pode-se intuir, portanto, que a presença simultânea da velhinha em duas cidades diferentes signifique que, para o diretor, o barreira do espaço não é importante. Nesse sentido, a semelhança entre as histórias pessoais do juiz e do estudante de Direito talvez signifique que o conceito de tempo também não tem importância em “A Fraternidade É Vermelha”. Ao romper as fronteiras de tempo e espaço, Kieslowski opera uma pequena mágica, e agrega à Trilogia das Cores um caráter metafísico incontestável. Tudo isso sem apelar para jogos intelectuais, utilizando apenas uma fluidez e uma simplicidade narrativa contagiantes. Não são muitos os diretores capazes disso.

Um outro elemento sempre presente nos filmes do autor ganha ares de um quase-protagonista na parte vermelha da trilogia: as coincidências. É verdade que Kieslowski já fizera uso farto desse elemento no lírico “A Dupla Vida de Véronique”; em “Fraternidade” a coincidência tem participação menor, mas absolutamente fundamental. Construído surpreendentemente em cima desse detalhe, aliás, o final espetacular do filme põe toda a trilogia em uma nova perspectiva, mais abrangente e otimista. Não se surpreenda se estiver morrendo de vontade de assistir a todos os três filmes de novo, quando os créditos de “A Fraternidade É Vermelha” começarem a rolar na tela. O acontecimento que fecha o filme quase nos obriga a isso. É o xeque-mate, o lance derradeiro de gênio de Kieslowski.

A Versátil lançou o DVD no Brasil duas vezes, em edições bem diferentes. A primeira, em 1999, traz o filme em tela cheia (4:3, com laterais cortadas), som regular (Dolby Digital 2.0) e uma curta entrevista de quatro minutos feita com o diretor polonês. O filme foi relançado em 2006 com formato de imagem correto (wide 1.85:1 anamórfico), som remasterizado (Dolby Digital 2.0) e uma batelada de material extra, incluindo uma análise crítica da professora carioca Andréa França (que escreveu um livro sobre Kieslowski), cenas revisadas pelo próprio diretor, making of com cenas de bastidores e entrevistas. Todos os extras somam mais de uma hora e têm legendas em português. O longa também está disponível em uma caixa intitulada “Trilogia das Cores”, que engloba os dois outros filmes da série.

– A Fraternidade É Vermelha (Trois Couleurs: Rouge, França/Polônia/Suíça/Grã-Bretanha, 1994)
Direção: Krzysztof Kieslowski
Elenco: Irène Jacob, Jean-Louis Trintignant, Frédérique Feder, Jean-Pierre Lorit
Duração: 99 minutos

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