Freddy Vs. Jason

20/03/2004 | Categoria: Críticas

Dois ícones do terror nos anos 1980 voltam rejuvenescidos para jovens modernos, com sangue digital, caratê e rock pesado

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★½☆☆☆

Falando sério: você acha sinceramente que um filme como “Freddy Vs. Jason” (EUA, 2003) merece ser criticado? Pessoalmente, acredito que qualquer filme, de “Cidadão Kane” à última trela cometida pela Xuxa, pode ser comentado sob algum aspecto. Portanto, essa tese deveria ser aplicada também ao filme de Ronny Yu, o mais novo cineasta de Honk Kong a aportar em Hollywood. Ocorre que tentar analisar uma obra que pouco merece o rótulo de ‘filme’ não funciona. Falar sobre direção de fotografia, uso do som ou técnicas de atuação, em “Freddy Vs. Jason”, faz qualquer crítico se sentir como um cientista tentando explicar a teoria da relatividade a um grupo de crianças de cinco anos com vontade de ir ao banheiro.

Portanto, é melhor cortar o papo e partir direto para o comentário. “Freddy Vs. Jason” reúne, como todo mundo está cansado de saber, dois ícones do cinema adolescente dos anos 1980. Para mim, que tenho 31 anos, a máscara de hóquei e o facão de Jason lembram videocassetes enormes, com controles remotos que tinham fio, num tempo em que fitas de vídeo pirata lotavam as locadoras. Freddy Krueger e sua camisa rubro-negra tostada vieram um pouquinho depois. Eles reinaram supremos no território do filme de terror da época, e acaram acusados de enterrar o gênero, transformando-o em piada juvenil. Por isso, no meio da década seguinte, experimentaram um curto período de ostracismo.

Hoje, como tudo é cíclico, virou moda elogiar os dois assassinos em série mais kitsch do cinema norte-americano. Por isso, o projeto foi levado em frente com a maior facilidade. “Freddy Vs. Jason” é um filme de baixo orçamento, já que as únicas qualidades exigidas para fazer parte desse tipo de longa são ter cara de morto (para os rapazes) e peitos grandes (para as meninas). Mesmo assim, Ronny Yu teve que apimentar a trama com doses cavalares de estilo pop, o que quer dizer câmeras lentas, closes obscenos no rosto putrefato de Freedy Krueger, coisas do tipo. Nos anos 1980, tudo era saudavelmente tosco, incluindo os efeitos especiais baseados em suco de groselha. Agora, o sangue é digital, a câmera se mexe sem parar (há até uma grua, equipamento caro que permite que a câmera ‘sobrevôe’ os cenários) e – surpresa! – Freddy Krueger até sabe lutar caratê!

Esse tipo de tratamento, dado a dois personagens que embalaram a adolescência de muito marmanjo, pode soar desrespeitoso a alguns. A mim, soou apenas ambicioso demais, fora do tom. Ronny Yu tenta dar ao filme uma sofisticação que lembra perfume paraguaio. Fui ao filme tentando dar algumas risadas, mas cheguei à conclusão de que fiquei velho demais para acompanhar esse tipo de bizarrice – ou talvez tenha sido o gênero que ficou jovem. O filme não fala à minha geração. Para a juventude de hoje, transar na cama dos pais (‘pecado’ que era sempre punido com a morte, nas séries de terror dos anos 80) é a coisa mais normal do mundo. Portanto, para atrair o público, Yu teve que dar um banho de estilo pop (e outro de sangue) na película.

Há uma única ousadia: o narrador do filme é Krueger (e isso, apenas isso, faz o filme merecer duas estrelas). Robert Englund ganha espaço de cara limpa no começo do longa, e o personagem tem o cinismo de sempre. É o único detalhe legal da película: Freddy é o vilão cool do filme, enquanto Jason vira uma espécie de herói retardado. Parece estranho? Bem, a trama explica (ou tenta). Freddy está no inferno, esquecido, quando tem a brilhante idéia de manipular o colega importal, fazendo o assassino do Crystal Lake caminhar até a rua Elm e começar a matar os jovens de lá. Krueger pretende fazer os moradores suspeitarem dele mesmo, fazendo-os sentir medo. Dessa forma, ele ficaria mais forte e poderia voltar a matar jovens em sonhos, como fizera nos filmes anteriores.

Tudo vai bem, até Freddy perceber que Jason não vai deixar vítimas para ele. Aí os protagonistas começam a se pegar. Enquanto isso, os poucos jovens com QI acima de 80 percebem o embate e decidem armar para jogar um assassino contra o outro, usando Jason para impedir os planos malignos de Freddy. O roteiro? Tem mais furos do que uma peneira, mas isso não importa. O objetivo do filme é outro. O negocio é ir a “Freddy Vs. Jason” sem muita expectativa, torcendo para que você não tenha (como eu) ficado nostálgico demais dos anos 80…

– Freddy Vs. Jason (EUA, 2003)
Direção: Ronny Yu
Elenco: Robert Englund, Ken Kirzinger, Monica Keena, Kelly Rowland
Duração: 97 minutos

| Mais
Tags:


Deixar comentário