Frenesi

28/06/2006 | Categoria: Críticas

Thriller de Hitchcock explora tema predileto do diretor de maneira mais orgânica e espontânea

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

Na época da produção de “Frenesi” (Frenzy, EUA, 1972), Alfred Hitchcock desfrutava de uma fama contraditória. Mesmo após cinco décadas de serviços prestados à arte cinematográfica, o diretor de “Psicose” estava apenas começando a ser reverenciado como um mestre da linguagem audiovisual (só no meio dos anos 1960 ele passou a ser considerado um cineasta importante). Por outro lado, sua decadência física era evidente, e ele não tinha mais fôlego para embarcar em projetos caros. Os estúdios Universal, mesmo orgulhosos de Hitchcock, temiam que ele não conseguisse cumprir o apertado cronograma de um longa-metragem logisticamente complexo. Por isso, o convenceram a escolher um roteiro simples e filmar em Londres, em casa, algo que ele não fazia há 30 anos.

Hitchcock aceitou a idéia com alegria e encarou “Frenesi” como uma espécie de recomeço, alterando até mesmo a abordagem tirânica que sempre o guiou durante os filmes. Desta vez, o mestre do suspense não seguiu estritamente os storyboards, uma tradição que seguia há décadas. Aceitou que os atores reescrevessem diálogos e fizessem sugestões sobre o posicionamento da câmera em certas cenas, e até mesmo topou filmar em externas, algo que sempre odiou – Hitchcock preferia trabalhar no ambiente controlado do estúdio, onde as condições meteorológicas e de iluminação não podem interferir. “Frenesi” se beneficiou dessa abordagem mais orgânica e é um filme bem espontâneo, algo incomum para um produto da grife Hitchcock.

Por outro lado, trata-se de um thriller tradicional, que envereda mais uma vez por um terreno extremamente familiar ao cineasta, repetindo o tema predileto dele: o homem inocente acusado por um crime que não cometeu. Hitchcock se baseou em fatos reais para criar a figura do “Assassino da Gravata”, um serial killer em ação nas ruas de Londres. Devido a circunstâncias que não vale a pena mencionar, o ex-piloto da Força Aérea inglesa Richard Ian Blaney (Jon Finch) se torna suspeito de ser este matador, e precisa dar um jeito de fugir da polícia, ao mesmo tempo em que tenta investigar para descobrir o verdadeiro culpado.

Como de praxe, Hitchcock não demora mais do que 20 minutos para revelar ao público a verdadeira identidade do criminoso. Desta forma, evitava transformar o filme num jogo de pistas falsas, procurando criar suspense ao transformar a platéia em espectadores privilegiados dos fatos. Cada membro da audiência sabe mais do que todos os personagens. Como sempre, partindo desta premissa e trabalhando com uma edição clássica e ao mesmo tempo rigorosa, Hitchcock construiu algumas cenas repletas de simplicidade e, ao mesmo, revelando grande criatividade.

O diretor revela sua experiência ao decidir, em momentos-chave, não mostrar certos acontecimentos ao público, obrigando-o a intuir o que ocorre e, assim, aumentando a carga de tensão. Observe, por exemplo, a longa tomada sem cortes em que a secretária da agência de matrimônios volta do almoço. A platéia sabe que um crime foi cometido lá dentro; ela não. A mulher entra no prédio e, surpreendentemente, a câmera não a acompanha. O resultado disto é puro suspense: sabemos que ela vai descobrir um cadáver, mas não temos como saber o momento exato em que isso vai ocorrer. Ficamos tensos, até o momento em que ouvimos um grito de horror. Sabendo o que ocorreu, finalmente relaxamos. Tensão e relaxamente, a síntese do bom suspense. Simples e engenhoso.

Um detalhe singular está na alta voltagem erótica do longa-metragem, bem superior à que vemos normalmente nos filmes de Hitchcock. O mestre do suspense já nos acostumara a filmar mortes com boa dose de violência gráfica, o que novamente ocorre aqui, mas sua atitude em relação ao sexo sempre foi conservadora. Em “Frenesi”, Hitchcock mostra pela primeira pêlos pubianos femininos (com discrição), e vai além: trata-se da única obra do cineasta inglês que filma um estupro, relativamente longo e incômodo para os padrões da época. O senso de humor mórbido e inteligente é uma marca registrada de Hitchcock, mantida intacta.

“Frenesi” foi recebido com certa frieza por crítica e público, na época do lançamento, e é possível que o caráter do protagonista, um tanto mal-humorado e até mesmo desagradável, tenha tido alguma influência nisso, já que é difícil para o público se identificar com alguém tão irascível quanto Richard Blaney. Também não dá para esquecer que estamos diante de um longa-metragem do homem que nos deu “Psicose”, “Um Corpo que Cai”, “Janela Indiscreta” e tantas obras-primas. É natural que, quando vemos os filmes apenas bons que ele fez, a gente termine com uma pontinha de decepção. O que não conspurca, de jeito nenhum, a boa qualidade de “Frenesi”.

O excelente DVD lançado pela Universal no Brasil é um disco simples, mas caprichado. O filme tem ótima qualidade de imagem (widescreen 1.85:1 anamórfico) e som (Dolby Digital 2.0). O principal extra é um documentário, dirigido por Laurent Bozereau, que traz entrevistas com vários membros do elenco e da equipe de produção, lembrando detalhes das filmagens (44 minutos, com legendas em português).

– Frenesi (Frenzy, EUA, 1972)
Direção: Alfred Hitchcock
Elenco: Jon Finch, Alec McCowen, Barry Foster, Billie Whitelaw
Duração: 116 minutos

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