Friends – 1ª Temporada

01/01/2004 | Categoria: Críticas

Caixa com quatro DVDs relembra, em embalagem de luxo, início do relacionamento dos seis amigos que conquistou a TV norte-americana

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

A cultura de massa contemporânea trouxe consigo um fenômeno curioso. A maior parte dos produtos que ela gera são feitos para consumo e descarte imediatos, como cheeseburgers. Essa é, hoje, a grande diferença entre o cinema e a televisão, duas mídias cuja linguagem vem convergindo. A primeira aspira à condição de arte, de microscópio da condição humana (muito embora grande parte dos filmes tenha objetivos bem diferentes dessa idéia nobre), enquanto a segunda só pretende entreter, sem maiores pretensões.

Ocorre que, por algum efeito misterioso, alguns produtos feitos para a TV (e que, segundo essa lógica, já deveriam ter sido esquecidos) estão tendo mais do que os quinze minutos de fama preconizados por Andy Warhol e ultrapassando gerações. Esse é o caso da telessérie “Friends”.

A série de TV norte-americana tornou-se, em 2003, a mais bem sucedida da história da mídia nos EUA (perde apenas para “Os Simpsons” em termos de longevidade). Também virou um produto extremamente caro, apesar da pobreza de recursos técnicos que caracteriza a produção desde a primeira temporada, em 1994 – os atores receberam, cada um, US$ 1 milhão por episódio, nos anos de 2002 e 2003.

Isso tudo ocorreu porque a série virou um produto tão cult, tão idolatrado, que transcendeu barreiras culturais. De certa maneira, a série que flagra o cotidiano dos seis amigos inseparáveis em Nova York tornou-se o que muitas obras de arte pretendem, mas não conseguem ser: objetos de reflexão sobre o homem atual. Esse raciocínio poderia render muito pano para as mangas, o que comprovaria a tese de que “Friends” é relevante, mas não é preciso ir tão longe.

O objetivo aqui é falar sobre a primeira temporada da série, lançada no Brasil numa caixa com quatro DVDs. Trata-se de uma época em que o seriado não era, nem de longe, um fenômeno cultural, mas apenas um produto despretensioso, feito para distrair e provocar risadas durante 24 minutos (o tempo médio de duração de um episódio) por semana.

Esse objetivo é plenamente obtido nos 24 episódios que compõem a caixinha. Não por acaso, a primeira temporada é uma das favoritas dos fãs. Eles têm razão. Ainda sem astros de cinema que aparecem para dar as caras e faturas uns trocados em cima da popularidade da série, “Friends” concentrava-se pura e simplesmente no choque de personalidades entre os seis amigos para provar risadas. E fazia isso com objetividade e competência.

O episódio-piloto, por exemplo, é um perfeito exemplo de concisão dramática. Ele obtém diversos gols. Primeiro, consegue delinear claramente as personalidades de cada freqüentador do Central Perk: Monica (Courtney Cox Arquette), a cozinheira organizada, verdadeira ‘mãe’ da turma; Chandler (Matthew Perry), o yuppie gozador; Phoebe (Lisa Kudrow), a massagista neo-hippie; Joey (Matt LeBlanc), o ator mulhrengo e meio burro; Ross (David Schwimmer), o antropólogo bem comportado e inseguro; e Rachel (Jennifer Aniston), a garota fútil que tenta sair debaixo das asas do pai.

Além disso, o piloto ainda dá boas pistas sobre a linha dramática principal da série (as confusões amorosas entre Ross e Rachel) e narra, de quebra, três histórias paralelas – uma paquera mal-sucedida de Monica, o fim do casamento de Ross e a integração de Rachel à trupe. Isso efeito com todos os cacoetes de séries de TV: cenas 100% realizadas em estúdio, entrecortadas com tomadas panorâmicas de Nova York para situar a história geograficamente. “Friends” concentra todo o apelo no carisma dos protagonistas e na qualidade do texto. Por isso acerta tantas vezes.

Nessa temporada, quase todos os episódios são engraçados, mas alguns merecem um destaque especial: o episódio de 20/10/94, em que Ross e Rachel vão lavar roupas juntos numa lavanderia pública; o de 27/10/94, em que Joey faz o papel de dublês da bunda de Al Pacino (e é demitido!); o de 3/11/94, quando Chandler fica preso num caixa eletrônico com uma modelo famosa; o de 23/1/95, em que George Clooney aparece como o médico de outra série famosa, “Plantão Médico”, e dá em cima de Rachel; e o último episódio, de 18/5/95, quando Rachel descobre finalmente o que Ross sente por ela.

Quando à produção do DVD, é apenas correta. A embalagem vem numa caixa bacana, mas que merece cuidado (porque a luva de papelão que a envolve é aberta em cima e em baixo). As legendas em português possuem erros vexatórios (‘tip’ é traduzido como ‘gorjeta’ numa frase em que significa ‘dica’).

Os quatro DVDs possuem poucos extras – alguns comentários em áudio de roteiristas, diretores ou produtores (sem legendas em português), uma trívia, o trailer da segunda temporada e pequenos spots com os atores convidados. O melhor, para os fãs, é que cada episódio ganhou alguns minutos extras, que haviam ficado na sala de edição e por isso estavam inéditos. Mas isso, convenhamos, é algo que só fanáticos pela série vão perceber.

– Friends – 1ª Temporada
Elenco: Courtney Cox Arquette, Matthew Perry, Lisa Kudrow, Matt LeBlanc, David Schwimmer, Jennifer Aniston
Duração: 641 minutos

| Mais


Deixar comentário