Frost/Nixon

14/07/2009 | Categoria: Críticas

Bastidores de entrevista histórica de Richard Nixon viram drama pessoal conduzido com competência por Ron Howard

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

Em 1977, três anos depois de renunciar ao mandato de presidente dos Estados Unidos por causa do escândalo de Watergate, Richard Nixon finalmente concordou em quebrar o silêncio e conceder uma entrevista. O jornalista escolhido pela fazê-la parecia um nome insólito: o britânico David Frost, apresentador de programas de entretenimento, com reputação de mulherengo e fútil. O resultado das quatro longas sessões de perguntas e respostas, porém, terminou sendo bem diferente da lambança que todo mundo esperava. Os bastidores deste episódio histórico estão no cerne de “Frost/Nixon” (EUA, 2008), drama histórico conduzido com competência por Ron Howard.

A reconstituição dos eventos mostrados no filme começou, na verdade, como uma peça teatral de sucesso, escrita pelo dramaturgo Peter Morgan (especialista em ficcionalizar a vida pessoal de líderes poderosos, e autor do elogiado “A Rainha”, dirigido por Stephen Frears). O espetáculo foi encenado em Londres e na Broadway, ganhando prêmios importantes e recebendo muitos comentários positivos. Ron Howard assumiu o leme da produção mantendo o elenco principal da peça – os atores Frank Langella e Michael Sheen, que interpretam Nixon e Frost, respectivamente – e refazendo algumas cenas para injetar mais tensão naquilo que era, em essência, um drama que focalizava um líder político impopular, jogando luz em seus aspectos mais humanos.

Peter Morgan aplicou ao ex-presidente americano, em “Frost/Nixon”, a mesma abordagem usada para humanizar a figura de Elizabeth II em “A Rainha”. Como cinema e teatro são mídias bem diferentes, Ron Howard decidiu realçar um aspecto pouco presente no material original. O espetáculo teatral adotava quase sempre o ponto de vista de Nixon, mantendo David Frost em segundo plano. Para o filme, o diretor ampliou a participação do jornalista inglês e deu aos dois personagens o mesmo tempo de tela. O objetivo era criar um filme com dois protagonistas, mostrando como o episódio histórico afetava diretamente, e de forma decisiva, o futuro profissional dos dois participantes da entrevista.

Para Nixon, a oportunidade oferecia uma série de vantagens. Financeira (o contrato rezava que ele receberia US$ 600 mil em troca de exclusividade), sobretudo, mas também política. Nixon achava que, ao escolher um entrevistador de celebridades que era inexperiente em política, poderia escapar com facilidade das perguntas ardilosas. Se conseguisse dobrar o rival, ele poderia pavimentar o caminho para retornar à política. Frost, por sua vez, era ambicioso. Ele não estava satisfeito em fazer reportagens sobre shows de mágica e conversar com mulheres bonitas em frente às câmeras. Queria ser um jornalista respeitado. Para alcançar tal feito, precisava fazer a Nixon as perguntas certas, na hora certa. Precisava encurralá-lo e extrair dele alguma revelação importante.

Junto com duas produções anteriores, “Frost/Nixon” completa uma trilogia interessante sobre um dos momentos mais embaraçosos da política norte-americana. “Todos os Homens do Presidente” (1976), de Alan J. Pakula, já esquadrinhara o escândalo de Watergate. “Nixon” (1995), de Oliver Stone, mostrara a angústia do ex-presidente durante o longo desenrolar do caso. Já “Frost/Nixon” representa o encerramento moral do episódio, para o público americano, que aguardara durante tanto tempo por declarações francas do político a respeito do que acontecera. O filme faz parte de uma linhagem importante do cinema político dos EUA, ao lado de títulos como “Boa Noite e Boa Sorte”, que ficcionalizam episódios controversos da história do país, sempre enfatizando a importância da liberdade de expressão.

A direção de arte desempenha papel importante para estabelecer a credibilidade do filme, e não apenas na minuciosa reconstituição de época. Note, por exemplo, como a equipe criativa estabelece as personalidades distintas de Frost e de Nixon através dos figurinos de cada um. O presidente sempre veste ternos clássicos, austeros, de cor escura, enquanto o estilo almofadinha/excêntrico do inglês está expresso no penteado à Beatles e nas vistosas camisas e gravatas coloridas (e a piadinha do ex-presidente sobre os sapatos italianos que ele calça, feita em momento crucial das entrevistas, é particularmente relevante nesta questão).

Da mesma forma, a fotografia de Salvatore Totino utiliza um estilo distinto de iluminação para cada personagem. Para Nixon, que é filmado quase sempre em ambientes internos, o fotógrafo usa uma iluminação quase expressionista, em chave baixa, o que deixa os ambientes escuros e pesados. Frost, ao contrário, é filmado com freqüência ao ar livre e/ou durante o dia, com luz ensolarada, clara e forte, que não apenas enfatiza ainda mais as cores vistosas da roupa que ele veste, mas também contribui para realçar o choque de personalidades – Nixon, nas sombras, tem algo a esconder, enquanto Frost, sob o sol, deseja justamente revelá-las.

Há um momento, em particular, onde o contraste fica realmente evidente. Ele ocorre pouco antes das entrevistas acontecerem, e mostra um dos principais assessores de Nixon (um general interpretado por Kevin Bacon) pressionando o jornalista inglês para reduzir ao mínimo as intervenções sobre as irregularidades administrativas do ex-presidente. Preste atenção ao ambiente onde está cada personagem da conversa, travada ao telefone. David Frost fica na varanda do hotel onde está hospedado, com uma ampla paisagem natural e o sol ao fundo; o general, sentado atrás de uma mesa, está fechado em um quarto escuro. O choque entre os dois ambientes em segundo plano chega a ser mais importante do que a conversa travada entre os dois. Luz e trevas. É disto que trata o filme.

Apesar de tudo isso, é a montagem simples e eficiente que realmente faz a diferença em “Frost/Nixon”. Sabendo que não poderiam mostrar todo o desenrolar das entrevistas (que duraram quase 20 horas), os editores Daniel P. Hanley e Mike Hill selecionaram os momentos mais importantes de cada um dos quatro encontros entre os dois personagens, enfatizando a passagem de tempo através da maquiagem dos assessores (eles vão ficando progressivamente mais suados e descabelados). Além disso, os montadores guiam habilmente a percepção do espectador sobre quem está levando vantagem no embate psicológico das entrevistas. Para isso, utilizam os planos de reação focalizando não apenas o personagem que está ouvindo, mas mostrando a reação da equipe de colaboradores de cada um, ao que está sendo dito diante das câmeras. Estes planos de reação injetam tensão, ritmo e clareza narrativa no longa-metragem. É algo simples, mas bem feito.

O DVD nacional leva o selo da Universal, traz o filme com enquadramento correto (widescreen anamórfico) e áudio em seis canais (Dolby Digital 5.1).

– Frost/Nixon (EUA, 2008)
Direção: Ron Howard
Elenco: Frank Langella, Michael Sheen, Sam Rockwell, Kevin Bacon
Duração: 122 minutos

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