Fuga das Galinhas, A

01/10/2003 | Categoria: Críticas

Animação inglesa produzida a partir de bonecos de massa de modelar encanta crianças e adultos

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★½

Na era da computação gráfica, que permitiu a criação de técnicas avançadas e aperfeiçoou os desenhos animados de uma forma nunca imaginada (exemplos mais famosos: “O Rei Leão” e “Toy Story 2”), os filmes de animação à base de bonecos de massa de modelar pareciam peça de museu. Só pareciam. O longa-metragem “A Fuga das Galinhas” (Chicken Run, EUA/Inglaterra, 2000) prova o contrário. Leve, engraçado e bem feito, o primeiro longa do inglês Nick Park e do americano Peter Lord é um dos mais interessantes filmes infantis recentes.

O filme tem um trunfo imbatível, algo que John Lasseter (criador de “Toy Story”) trouxe de volta ao mundo da animação após anos de inércia, em que os baixinhos era tratados como idiotas: não despreza a inteligência das crianças. “A Fuga das Galinhas” tem um roteiro esperto e bem amarrado, várias seqüências engraçadíssimas e personagens bem delineados. Também não é um musical insosso, como os tradicionais desenhos da Disney. Alterna momentos de suspense, comédia e drama, durante os 84 minutos. E nem por isso é um trabalho adulto, embora divirta a todos.

Na verdade, “A Fuga das Galinhas” não foi feito especificamente para o público infantil. Afinal de contas, o diretor, produtor e roteirista Nick Park teve a inspiração para o filme quando assistiu ao clássico “Fugindo do Inferno”, de 1963, em que Steve McQueen interpreta um prisioneiro que tenta a todo custo escapar de uma prisão. Por isso, os fãs de cinema que se aventurarem nos Multiplex vão se deliciar com várias referências a obras do gênero, como “Fuga de Alcatraz” (com Clint Eastwood) e até mesmo “A Lista de Schindler”.

Desde o início, o projeto da dupla parecia fadado ao fracasso. Os criadores dos premiados Wallace e Gromit (cujo primeiro filme foi indicado ao Oscar de Curta-metragem de Animação em 1989) levaram anos para aceitar uma das ofertas que surgiam ao montes dos grandes estúdios, interessados em ter Nick Park dirigindo alguma produção. Park é uma verdadeira lenda, o homem mais premiado da história do cinema na categoria de animação, detentor de três Oscars. Com medo de perder o controle criativo da própria carreira, ele resistiu a essas ofertas durante muito tempo. Mas a idéia de “A Fuga das Galinhas”, que apareceu em 1995, era boa demais para ser desprezada. A parceria com a DreamWorks surgiu logo em seguida.

O estúdio sabia dos riscos, mas deu liberdade ao diretor inglês, pedindo apenas que ele limasse um personagem do roteiro original (um pintinho, Little Nobby, irmão da protagonista Ginger), porque achava que poderia atingir uma platéia mais adulta se tirasse personagens que parecessem excessivamente infantis. Park teve US$ 42 milhões de orçamento e carta branca para organizar as filmagens na Inglaterra. Ele fez muito mais: contratou uma equipe com 300 pessoas e construiu 28 sets, que funcionavam simultaneamente. Para encher esses sets, foram construídas nada menos do que 480 galinhas de massa, plástico e silicone – 300 em tamanho natural e mais 180 miniaturas, usadas em segundo plano para interagir com personagens que estão no centro das ações. Esses números parecem exagerados, mas não são. Como queria trabalhar com bonecos, Nick Park sabia que o trabalho seria hercúleo. E foi.

A velha técnica de stop motion, escolhida para o filme, consiste em fabricar cada um dos frames (espécies de fotos que, unidas, formam a imagem em movimento) separadamente. Isso significava 24 fotogramas para cada segundo de imagem, e cada fotograma exigia manipulação dos bonecos para dar-lhes expressividade e emoção. Nas cenas mais complicadas (como a seqüência em que as galinhas dançam rock‘n‘roll no celeiro), eram mais de 30 personagens interagindo entre si – e cada um deles eles tinha que ser modificado manualmente a cada fotograma. “Se tínhamos os 28 sets trabalhando ao mesmo tempo, durante dez horas seguidas, conseguíamos dez segundos de filme”, conta Nick Park.

Os diretores concentraram-se especialmente nas expressões faciais dos bonecos. Eles sabiam que iriam depender dos olhos e dos bicos das galinhas para mostrar os sentimentos; por isso, criaram antecipadamente 60 tipos de bicos e mais 24 olhos diferentes, que eram combinados entre si para demonstrar os sentimentos e dar fluidez aos movimentos dos bichos. Já os cenários foram todos criados em computador, como havia sido feito em “Toy Story”.

Por causa desse trabalhão, “A Fuga das Galinhas” levou quatro anos para ficar pronto. Mas o resultado compensou. As expressões de susto, medo, tristeza, alegria, esperança e raiva dos bonecos chegam à beira da perfeição. A movimentação dos personagens também é impressionante. E o grosso do trabalho foi feito de forma braçal, sem apelar para excessos tecnológicos. “Usamos computadores apenas para dar retoques e para apagar das imagens alguns cabos de aço que foram usados em cenas mais movimentadas”, confirma o inglês.

Enquanto o trabalho ia sendo tocado, Park iniciou o processo de seleção do elenco de vozes. Ele preferiu atores relativamente desconhecidos – Julia Sawalha e Miranda Richardson ficaram com os papéis principais. Como exceção à regra, o australiano Mel Gibson foi escolhido para fazer o galo Rocky.

O enredo parte de uma premissa bem simples. A introdução hilariante, onde vários planos frustrados de fuga são mostrados entre os créditos iniciais, explica tudo: o casal Tweedy (ele, um idiota dominado pela mulher; ela, uma dona-de-casa autoritária que procura um meio de fazer mais lucro) tem uma granja de galinhas e vende ovos. A cobiça da mulher faz com que o plano passe a ser produzir empadas de galinha.

Os animais, liderados pela esperta Ginger, decidem fugir em conjunto, ajudados pelo galo aventureiro Rocky, um fugitivo do circo que foi parar na prisão. No meio desse enredo, há espaço para seqüências hilariantes (quando as galinhas treinam para aprender a voar), de tirar o fôlego (a aventura de Rocky e Ginger por dentro da máquina de fazer tortas) e até românticas (o flerte dos dois sobre os telhados do galinheiro). No DVD, há bons documentários que explicam todo esse trabalho de bastidores, mas eles não possuem legendas. Por isso, contente-se com o filme.

– A Fuga das Galinhas (Chicker Run, EUA/Inglaterra, 2000)
Direção: Nick Park e Peter Lord
Animação
Duração: 84 minutos

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