Fuga de Nova York

29/05/2008 | Categoria: Críticas

Mais famoso título de John Carpenter, aventura distópica aposta em fiapo de trama e acerta na ambientação

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

Embora não seja o melhor, “Fuga de Nova York” (Escape from New York, EUA, 1981) certamente carrega o título de mais conhecido filme dirigido por John Carpenter. Na ocasião do lançamento original, o longa-metragem alcançou a maior bilheteria de uma produção com a assinatura do diretor. Além disso, logrou ganhar prestígio cult nos anos posteriores, gerando até mesmo uma seqüência boba (“Fuga de Los Angeles”, de 1996). É um dos filmes de cabeceira de bons diretores de ação, como Quentin Tarantino (que escalou o ator Kurt Russell em “À Prova de Morte” como homenagem) e James Cameron. Este último chegou até mesmo a trabalhar na produção, integrando o time responsável pelos inéditos efeitos digitais.

Esses efeitos, que surgem em uma seqüência-chave no início do segundo ato, estão entre os principais méritos de “Fuga de Nova York”. A obra conta, como a maior parte dos trabalhos de John Carpenter, com um fiapo de trama ambientada num cenário futurista e sombrio, em que a guerra fria entre EUA e URSS recrudesceu, ao mesmo tempo em que os índices de criminalidade subiram à estratosfera no mundo ocidental. Dentro deste panorama, em 1997, a ilha de Manhattan foi transformada numa prisão federal. Quem entra no local, um amontoado de prédios semi-abandonados, cheios de lixo e gangues de desordeiros, e cercada por um muro de concreto de 12 metros, não pode sair nunca mais.

Pois acontece de o avião presidencial dos EUA cair dentro da ilha, e com o presidente (Donald Pleasance) dentro. Desesperado, o diretor da penitenciária (Lee Van Cleef) chantageia o mercenário Snake Plissken (Russell), obrigando-o a voar para dentro de Manhattan em um planador. Ele tem 24 horas para retirar o político de lá em segurança. “Fuga de Nova York” é um filme de ação, no mais restrito sentido do termo. Aqui, a ambientação distópica e sombria – obtida graças aos cenários espetaculares de Joe Alves, que flagram uma metrópole agonizante – é o elemento mais importante, acertadamente valorizado pela fotografia pesada e quase expressionista. A seqüência do vôo de entrada de Plissken na ilha, obtida com a ajuda de computação gráfica primitiva, é sensacional. A personalidade debochada do protagonista completa o espetáculo cinematográfico.

Graças ao senso de humor cínico de Kurt Russell, o mercenário se tornaria fonte inesgotável de inspiração para roteiristas de longas de ação. “Fuga de Nova York” só não atinge a perfeição porque nenhum dos encarcerados com quem o marginal convertido em salvador contracena tem um décimo do carisma dele próprio. O taxista (Ernest Borgnine) é apenas engraçadinho, o misto de filósofo com contrabandista (Harry Dean Stanton) parece mais um bêbado inofensivo, e o líder dos vilões da cidade (o cantor Isaac Hayes) não consegue passar a sensação de perigo e demência necessárias para dar credibilidade à ação dramática. Por outro lado, o clímax vibrante, a piadinha infame no final e a presença do ídolo dos faroestes italianos, Lee Van Cleef, num papel pequeno e saboroso, dão um molho extra à aventura B. Para curtir sem maiores exigências.

O DVD brasileiro, da Universal, é simples e bem fraco. A qualidade do filme em si, tanto em imagem (widescreen 2.35:1 anamórfica) quanto em som (Dolby Digital 5.1), não é ruim, mas o disco não contém nenhum extra. Nos EUA, a MGM lançou uma versão dupla, com dois comentários em áudio, documentário e uma longa cena introdutória (Snake Plissken roubando um banco), de 10 minutos, cortada pelo cineasta.

– Fuga de Nova York (Escape from New York, EUA, 1981)
Direção: John Carpenter
Elenco: Kurt Russell, Lee Van Cleef, Ernest Borgnine, Donald Pleasance
Duração: 94 minutos

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