Fugindo do Inferno

26/06/2006 | Categoria: Críticas

Mais importante filme de prisão do cinema valoriza o elenco perfeito e tem grandes cenas de aventura

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★½

Não é comum, mas de vez em quando acontece: alguns filmes produzidos despretensiosamente, com o objetivo modesto de entreter, às vezes lançam moda e geram verdadeiros subgêneros. Este é o caso do drama/aventura de guerra “Fugindo do Inferno” (The Great Escape, EUA, 1963), o mais importante filme de prisão do cinema. A produção é um exemplo genuíno de como a duração de um filme não tem relação obrigatória com o fato de ele parecer longo. Afinal, a ação eletrizante e de ritmo consistente garante que as quase três horas de projeção pareçam ter a metade do tempo.

“Fugindo do Inferno” foi dirigido por John Sturges, responsável por vários faroestes importantes do período. Era um cineasta de estilo clássico, direto e simples, não muito chegado a firulas, alguém para quem as questões de estilo – movimentos de câmera, fotografia – jamais deviam aparecer para o público. Sturges pertence a um grupo de cineastas, como Samuel Fuller ou John Ford, para quem o dever de um bom cineasta é contar histórias com sinceridade e emoção, de forma a capturar a imaginação do público. “Fugindo do Inferno” faz isso muito bem.

A produção, baseada em um caso real ocorrido durante a II Guerra Mundial, credenciou o ator Steve McQueen, então já um astro em ascensão, a ocupar um nicho progressivamente deixado vago por John Wayne: o cara machão, cujo talento para atuar parecia obscurecido pela persona magnética, sem frescuras, agressiva. Mas McQueen, na verdade, não é o único dono do longa-metragem. A importância de “Fugindo do Inferno” está no coletivo, já que a obra reuniu um dos maiores, mais talentosos e homogêneos elencos da época, incluindo figuras tão diferentes como o aristocrático Richard Attenborough e o ex-mineiro Charles Bronson, todos em interpretações sensacionais.

Vista superficialmente, a sinopse do filme é tão simples que dá até para duvidar que seja possível construir uma história consistente a partir de tão pouco. “Fugindo do Inferno” focaliza um grupo de duas dúzias de oficiais ingleses e norte-americanos, todos prisioneiros dos alemães durante a II Guerra Mundial. Por causa de inúmeras tentativas de fuga, eles são reunidos em um grupo único e colocados, sob severa vigilância, dentro de um novo campo de concentração. “Juntamos todos os ovos podres numa cesta só”, resume o sarcástico comandante alemão das instalações. Juntos, os detentos decidem montar um plano audacioso para dar fuga a pelo menos 250 militares aliados. O filme acompanha este plano sendo posto em prática.

Como se trata de uma produção de Hollywood, o filme focaliza mais os papéis desempenhados pelos dois únicos prisioneiros oriundos dos EUA: Hilts (McQueen), o sujeito solitário que não dá bola para o grupo e tenta organizar sua própria maneira de escapar, e Hendley (James Garner), o marombado que tem uma habilidade natural para roubar e pretende utilizá-la para favorecer o plano bolado pelo oficial Bartlett (Attenborough). O filme não perde tempo desenvolvendo personagens; vamos conhecendo as características e dramas pessoais de cada um durante a ação, o que garante um ritmo constante e uma aventura eletrizante, que desemboca em um longo e emocionante final.

Vale ressaltar que Steve McQueen teve grande influência na pré-produção. Ele só aceitou participar do filme depois de ter o número de cenas aumentado, e também exigiu que John Sturges desse um jeito de inserir algumas seqüências em que ele pudesse mostrar ao público suas habilidades ao volante de uma motocicleta. O cineasta soube colocar o ego do astro para trabalhar a favor do filme, e transformou o desejo dele em uma cena de ação perfeita (a título de curiosidade, truques de edição também permitiram que McQueen, vestido com a farda do exército alemão, interpretasse um dos motoqueiros alemães que perseguem Hilts).

O resultado final é uma aventura contundente, cheia de emoção, com um final melancólico, mas certamente cheio de honestidade e esperança. O longa-metragem lançou uma verdadeira coqueluche de filmes enfocando fugas de prisão – longas como “Papillon” (1973), “Alcatraz: Fuga Impossível” (1979), “Fuga para a Vitória” (1981) e a animação “A Fuga das Galinhas” (2000) não existiriam sem o drama de guerra de John Sturges.

A Fox lançou o filme no Brasil em dois pacotes diferentes. O primeiro é um disco simples, que contém apenas o filme, com qualidade de imagem boa (widescreen 2.35:1 anamórfico) e som idem (Dolby Digital 5.1). O outro pacote, de luxo, é duplo. O disco extra traz dois documentários: o primeiro, produzido em 2001, tem 50 minutos e foca a história real em que o filme foi baseado; o outro enfoca a realidade por trás do personagem vivido por Steve McQueen (25 minutos). Não há legendas.

– Fugindo do Inferno (The Great Escape, EUA, 1963)
Direção: John Sturges
Elenco: Steve McQueen,. Richard Attenborough, James Garner, Charles Bronson
Duração: 172 minutos

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