Violência Gratuita

17/12/2008 | Categoria: Críticas

Um filme anti-Hollywood feito dentro de Hollywood: diretor suíco Michael Haneke recria longa original, plano por plano, sem mudar um milímetro sequer

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

O público norte-americano, que responde por mais de 50% do faturamento mundial obtido em salas de projeção, é naturalmente avesso a legendas. Pesquisas recentes mostram que somente dois em cada dez freqüentadores de cinema nos EUA se aventura no Multiplex mais próximo para conferir uma produção falada em língua que não seja o inglês. Por causa deste mau hábito, os produtores da América do Norte desenvolveram a estratégia pouco recomendável de comprar os direitos de adaptação dos melhores filmes produzidos na Europa e na Ásia. Ao invés de lançar estas produções nos EUA, os grandes estúdios refilmam as mesmas histórias com elenco local. Vem daí, por exemplo, a invasão de remakes de obras de horror japonês que assola Hollywood desde o início da primeira década do novo século.

“Violência Gratuita” (Funny Games U.S., EUA/Áustria, 2007) nasceu da mesma origem. O longa-metragem original, escrito e dirigido pelo austríaco Michael Haneke, é falado em alemão. Por ocasião do lançamento original, em 1997, provocou enorme polêmica no circuito europeu de festivais, por causa da crítica aberta e ferina ao realismo presente nas representações ficcionais da violência. A refilmagem norte-americana se destaca do fenômeno como uma gota de sangue num balde de algodão. O próprio Michael Haneke aceitou sentar na cadeira do diretor, e fez isso por um desafio incomum: recriar o filme original plano por plano, de forma literal, sem mudar um milímetro sequer. Diálogos, enquadramentos, cenários, figurinos, mise-en-scéne (posição dos elementos dentro das tomadas) e enredo são repetidos nos mínimos detalhes. Todas as tomadas, até mesmo as mais polêmicas, têm a mesma duração que tinham na montagem de 1997.

Numa primeira avaliação, sequer faz sentido escrever uma nova crítica para um filme que copia tão literalmente a produção original – caso queira uma análise pontual e contextualizada da história, caro leitor, basta clicar no primeiro link para a resenha do filme de 1997, na seção “Conteúdos Relacionados”, à direita. Na prática, porém, há alguns detalhes a acrescentar. E o primeiro deles diz respeito à própria carreira de Michael Haneke. O austríaco, que é formado em Psicologia, tem se mostrado um dos mais iconoclastas e experimentais cineastas de seu tempo. Tudo que ele filma é polêmico e provoca debate, algo sempre salutar. E com a versão norte-americana de “Violência Gratuita” não é diferente. Afinal de contas, não há outro país no mundo em que a reflexão sobre o tema principal do longa-metragem – se a violência encenada reproduz com exatidão a violência real, porque nos divertimos com ela? – seja tão fundamental quanto nos EUA.

Haneke não é um cineasta óbvio. O principal motivo para a existência deste remake, por sinal, não é atingir um público mais amplo, como querem alguns. “Violência Gratuita” existe porque todo o subtexto da obra critica fortemente o conceito da violência como entretenimento, defendido virtualmente por todo e qualquer blockbuster produzido nos Estados Unidos. Como a cultura pop contemporânea é globalizada, esta discussão faz sentido na Áustria, no Brasil e em qualquer outro lugar, mas a origem da idéia de “violência engraçada” está nos EUA. O fato de Haneke não ter retirado absolutamente nada do roteiro original – a metalinguagem, a assustadora tomada de 10 minutos em que podemos apenas ouvir certos atos de violência, e sobretudo a inacreditável brincadeira com a platéia, perto do final – demonstra que ele não queria fazer bilheteria. Queria apenas levar seu filme a uma platéia que não o veria de outra forma.

Isso posto, é importante observar que “Violência Gratuita” não atingiu um público mainstream. Os atores que interpretam os quatro personagens principais são conhecidos, mas nem tanto assim. Eles foram escalados de forma correta, seguindo suas respectivas personas cinematográficas: Naomi Watts (“Cidade dos Sonhos”) e Tim Roth (“Cães de Aluguel”) interpretam o casal rico que é seqüestrado por uma dupla de jovens delinqüentes que parece ter saído de outro filme – talvez “Laranja Mecânica”, de Stanley Kubrick. Ela grita e chora, ele grita e resmunga. Ambos estão à vontade, nos seus respectivos ambientes naturais. Michael Pitt (“Os Últimos Dias”), sempre às voltas com personagens bonitinhos e perturbados, faz o líder dos vilões. Todos são rostos conhecidos, mas têm fama de gostar de produções independentes, desafiadoras. Não têm potencial para levar multidões aos cinemas.

Na prática, o filme não conseguiu penetrar o grande circuito de exibição, permanecendo em exibição nas salas de arte das capitais do país. Haneke teve a chance de debatê-los nas universidades, e a experiência parece ter sido um tanto instigante. Um leitor do IMDB relata, na página do filme, que militantes feministas compareceram a um debate com o austríaco, na Universidade de Harvard, para protestar contra a exploração gratuita da sexualidade feminina em produções violentas – ou seja, não entenderam nada. Em entrevistas, Haneke afirma ter concordado com o remake porque sempre considerou a história como genuinamente americana. Sob este ponto de vista, ele tem toda razão. Aliás, só pela virtude de conseguir fazer um filme anti-Hollwood dentro de Hollywood, com atores deste quilate e técnicos como Darius Khondji (diretor de fotografia iraniano que fez “Seven” e “Meia-Noite em Paris”, um craque no ramo), já mereceria parabéns. Haneke é uma mosca na sopa do establishment cultural. E isso é sempre bom.

O DVD simples, da Califórnia Filmes, preserva o enquadramento original (widescreen anamórfico) e tem áudio em seis canais (Dolby Digital 5.1). Não há extras.

– Violência Gratuita (Funny Games U.S., EUA/Áustria, 2007)
Direção: Michael Haneke
Elenco: Naomi Watts, Tim Roth, Michael Pitt, Brady Corbet
Duração: 111 minutos

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