Fúria de Titãs

22/08/2010 | Categoria: Críticas

Mitologia grega para adolescente gasta grana em efeitos digitais e esquece de pôr barbas decentes nos rostos dos atores

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★☆☆☆

Os efeitos especiais computadorizados têm atingido um nível de excelência estonteante. A gente já sabe disso, mas vale repetir: praticamente qualquer idéia que surgir na imaginação de um cineasta criativo pode, atualmente, ser esculpida de forma realista no computador. O lado ruim disso é que os efeitos especiais mais tradicionais – mecânicos, óticos, ou simplesmente maquiagem bem feita – pararam de evoluir par causa disso. Juntos, esses dois fenômenos provocam aberrações como “Fúria de Titãs” (Clash of the Titans, EUA, 2010), um filme de US$ 125 milhões que recria detalhadamente criaturas mitológicas como Medusa, harpias, escorpiões e polvos gigantes, mas decora os rostos de seus atores de carne e osso com barbas mais falsas do que uísque paraguaio.

Os efeitos especiais são o ponto de partida mais eficiente para falar de “Fúria de Titãs”, porque afinal de contas foram a razão principal da existência da história, desde o filme original, que marcou em 1981 a despedida das telas de Ray Harryhausen, mestre dos efeitos especiais analógicos. Já naquele trabalho, a trama mitológica do semi-deus Perseus (Sam Worthington) servia basicamente como veículo para a aparição de monstros e criaturas dos mais variados tipos. A idéia do diretor francês Louis Leterrier foi simplesmente seguir os passos da obra original, atualizando a tecnologia para a criação dos tais seres fantásticos.

Levando tudo isso em consideração, seria de se esperar que o filme funcionasse como um catálogo de efeitos especiais de ponta. Infelizmente, não funciona. Os cenários digitais em paleta de cores douradas parecem saídos de “300” (2006), os escorpiões gigantes no meio do deserto sugerem alguma cena cortada de “Transformers 2” (2009), a aparição da Medusa traz ecos das aventuras juvenis de Harry Potter e a batalha final com o mega-polvo gigante oriundo da mitologia nórdica nada mais é do que uma revisão do terceiro “Piratas do Caribe”. Para piorar, todos os filmes citados neste parágrafo são bem superiores a “Fúria de Titãs”, tanto no nível do enredo quanto na execução dos efeitos especiais propriamente ditos. Isso sem falar das ridículas barbas que enfeitam os rostos de atores de prestígio, como Liam Neeson (Zeus) e Ralph Fiennes (Hades).

Fiquemos com a cena do confronto entre Perseus e a Medusa, ponto crucial na jornada que o semi-deus empreende na tentativa de salvar a cidade de Argos. O conceito por trás da Medusa – que, aqui, não é uma mulher com cobras no lugar dos cabelos, mas sim uma cobra gigantesca com rosto de mulher – é muito interessante, mas a execução desse conceito deixa muito a desejar: os cenários repleto de colunas antigas que parecem destruídas por um terremoto são propositalmente escuros, para esconder a deficiência dos efeitos digitais, e o rosto da Medusa mais parece de um robô do que de uma mulher.

Para dar um verniz respeitável ao filme, Leterrier povoa seus cenários digitais com atores de respeito. O elenco está cheio de nomes consolidados: além dos já citados Neeson e Fiennes, temos o dinamarquês Mads Mikkelsen, Danny Huston e Pete Postlethwaite, sem falar do ator-sensação para as platéias juvenis, Sam Worthington, pegando carona no sucesso de “Avatar”. Todos eles interpretam solenemente, como se estivessem numa tragédia grega, o que parece adequado a um filme baseado fortemente nessa mitologia (apesar de aproveitar elementos de outras mitologias, como a nórdica e a árabe, transformando tudo numa grande salada de mitos), mas a estrutura narrativa de aventura adolescente, somada às barbas falsas e perucas, faz com que o filme inteiro vire uma grande caricatura.

Para piorar, os executivos da Warner decidiram, de última hora, converter o longa-metragem, que foi filmado em 2D, para a tecnologia 3D, o que causa sérios problemas nas cenas de batalhas, duelos e confrontos, em que a edição rápida e repleta de planos fechados dificulta muito a compreensão visual do que ocorre na tela. De qualquer forma, como é evidente, “Fúria de Titãs” foi feito para platéias adolescentes, e tem grande chance de emplacar junto a elas – basta ver os US$ 61 milhões amealhados no final de semana de estréia, nos Estados Unidos. O que, em absoluto, transforma o filme em coisa boa.

O DVD simples tem o selo da Warner e traz o filme com imagem correta (widescreen anamórfica) e áudio em seis canais (Dolby Digital 5.1). Cenas cortadas estão presentes como brinde extra.

– Fúria de Titãs (Clash of the Titans, EUA, 2010)
Direção: Louis Leterrier
Elenco: Sam Worthington, Liam Neeson, Ralph Fiennes, Mads Mikkelsen, Gemma Arterton
Duração: 118 minutos

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