Gabinete do Dr. Caligari, O

04/02/2005 | Categoria: Críticas

Longa-metragem de 1919 encanta pela direção de arte radicalmente sombria e pela trama inteligente

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★½

O cinema ainda não se havia libertado inteiramente da influência do teatro em 1919. Apenas três anos antes, D.W. Griffith havia contribuído para isso, revolucionado o modo de contar uma história em filme ao alternar planos abertos (paisagens) e fechados (closes). A linguagem do cinema estava nascendo. A obra-prima alemã “O Gabinete do Doutor Caligari” (Kabinett des Dr. Caligari, Alemanha, 1919) parecia, à primeira vista, dar um passo atrás nessa revolução. Afinal, dispensava a edição dinâmica e a variação de planos de Griffith.

Era só aparência. Na verdade, por trás dessa involução, estava uma experiência estética profundamente radical, que marcaria o cinema vindouro como poucos filmes conseguiriam. O longa-metragem de Robert Wiene partia de uma moldura teatral, com atores encenando diretamente para uma câmera fixa, afastada da ação, para criar uma direção de arte inédita. A inspiração vinha de um movimento de pintores que crescia na Europa desde o final do século XIX – o expressionismo, cuja obra mais conhecida é “O Grito”, de Edvard Munch. O expressionismo pregava a expressão dos estados de espírito do homem através do uso da estética visual. Traduzindo em miúdos, no cinema, elementos como iluminação e cenários deveriam representar visualmente o estado da alma dos personagens do filme.

Em “O Gabinete do Doutor Caligari”, essa tentativa foi levada às últimas conseqüências. Os cenários são pintados em pano e madeira, e representam uma pequena cidade medieval de linhas estranhas, com telhados tortos e ruas distorcidas pintadas a giz. As paredes curvas, por exemplo, deixavam a platéia boquiaberta, sem saber o que pensar. Os personagens, por sua vez, utilizam maquiagem pesada e roupas sempre escuras, de forma a enfatizar os contrastes violentos. A iluminação cheia de sombras, particularmente, deu início a toda uma vertente do cinema fantástico, influenciando decisivamente os filmes policiais de Hollywood e os longas-metragens de terror B, por exemplo.

Somente por isso, “O Gabinete do Doutor Caligari” já teria um lugar de honra reservado na história do cinema. Mas o filme traz, além dessas inovações, uma trama surpreendente. O doutor Caligari (Werner Kraus) é um hipnotizador que apresenta, num circo montado numa pequena cidade, o soturno sonâmbulo Cesare (Conrad Veidt, em interpretação antológica), homem que supostamente dorme há vários anos. Ao mesmo tempo em que a dupla chega ao vilarejo, começam a acontecer misteriosos assassinatos à noite. Eles se tornam suspeitos, enquanto Cesare se apaixona por uma moça (Lil Dagover).

A atmosfera gerada pela direção de arte empresta ao longa-metragem um clima onírico, de pesadelo. Apesar disso, a narrativa é envolvente e bastante ágil, mesmo levando em consideração as limitações de equipamento e edição, pois a câmera permanece imóvel e sempre à distância, sem jamais efetuar closes nos atores. As tomadas são longas e intercaladas por poucos diálogos, dispostos em letreiros, já que o filme é mudo. Há também um prólogo e um epílogo inteligentes, que modificam inteiramente o significado do filme e mantêm o espectador em constante estado de alerta.

Todos esses acertos acabaram, com o tempo, eclipsados pela cenografia nunca menos do que assombrosa do longa-metragem. Apesar dos inúmeros estudos e investigações de historiadores, jamais foi possível descobrir de quem partiu a idéia de realizar uma direção de arte tão radical, sombria e, ao mesmo tempo, encantadora. Além disso, o renomado estudioso Sigfried Kracauer ainda propôs uma leitura política do filme, em que Cesare, o sonâmbulo, representaria uma alegoria perfeita do povo alemão pós-Primeira Guerra.

Se atualmente “O Gabinete do Dr. Caligari” parece ter sido meio esquecido pelo imaginário popular, é inegável a força de suas imagens e a profunda influência que exerceu em importantes vertentes do cinema. A cópia disponível no Brasil, lançada pela distribuidora Continental, é pobre (não há extras) e tem imagens bastante arranhadas. Levando-se em consideração que os negativos originais jamais foram submetidos a um processo de restauração adequado, ela vale a pena. Ainda mais porque se trata de um filme com tamanho valor histórico.

– O Gabinete do Doutor Caligari (Kabinett des Dr. Caligari, Alemanha, 1919)
Direção: Robert Wiene
Elenco: Werner Kraus, Lil Dagover, Conrad Veidt, Friedrich Feher e H.H. Von Twardowski
Duração: 69 minutos

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