Galinho Chicken Little, O

27/02/2006 | Categoria: Críticas

Primeira animação da Disney em três dimensões tem história fraca e técnica irregular

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★☆☆☆

No campo da animação, 2005 foi um ano diferente dos anteriores, dominados pela disputa acirrada entre os estúdios Pixar (“Procurando Nemo”), Blue Sky (“Robôs”) e PDI (“Shrek”). Nenhum deles preparou um grande filme para a temporada de verão norte-americana, o que abriu caminho para que a Disney flexionasse os próprios músculos, ao invés de apenas distribuir os lançamentos da Pixar. “O Galinho Chicken Little” (Chicken Little, EUA, 2005), primeira produção da empresa em três dimensões, é uma tentativa esforçada de mostrar ao mundo que a veterana casa de animação ainda pode permanecer na dianteira do setor. Infelizmente, o filme não se sai muito bem na tarefa.

A rigor, uma boa animação se apóia em duas faces. A primeira, e mais importante, é a história. Nesse tipo de aventura, que inevitavelmente segue fórmulas pré-estabelecidas, o mais importante é trabalhar bem os personagens e situações, encaixando músicas (que as crianças adoram) e gags que façam referências a filmes famosos (para atrair os adultos) no tempo certo. A segunda face é a qualidade do trabalho técnico, da animação em si. “O Galinho Chicken Little” não é ruim nesse segundo quesito, tem canções e referências adultas em profusão, mas a mistura dos ingredientes perde o ponto e desanda. Em uma palavra: faltou fluidez, a capacidade de criam um produto fluido, uma história sólida, que segure o interesse da platéia.

O enredo é uma curiosa mistura de filmes de colegiais (muito populares nos EUA) com ficção científica sobre invasões alienígenas. Chicken Little corresponde a um garoto da turma dos nerds da escola, aquele grupo que é alvo da fúria dos valentões mais populares. Ele é pequeno, feioso (embora fofinho, algo fundamental para as crianças), usa um par de óculos verdes enormes e tem problemas de relacionamento com o pai; em resumo, é um CDF solitário. Seus companheiros são um porco (arquétipo: o garoto gordo de quem todo mundo zoa), uma pata (a menina feiosa) e um peixe que anda com a cabeça num escafandro. Esse último é uma verdadeira instituição da comédia animada norte-americana, haja visto o sucesso de personagens mudos e hilariantes como Kenny (“South Park”) e Scat (o esquilo de “A Era do Gelo”).

O prólogo do filme narra o dia mais terrível da vida do galinho. Atingido na cabeça por uma noz que cai de uma árvore, ele confunde as bolas e causa pânico na cidade ao anunciar que o céu está caindo (?). Quando a confusão se desfaz, o rapazola ganha fama de maluco. Um ano mais tarde, quando é atingido na cabeça por um estranho circuito eletrônico caído diretamente do céu, o galinho não tem mais moral para avisar a cidade que uma ameaça se aproxima. Afinal, nem o próprio pai, um ex-campeão de beisebol que é viúvo e não consegue conversar com o filho, acredita nele. Os únicos a quem pode recorrer são os membros da turminha de rejeitados no colégio.

Para começar, o roteiro é fraco. Não existe absolutamente nada de novo na história, que consiste num velho clichê de Hollywood: criança descobre uma ameaça que toda a cidade desconhece, mas ninguém acredita nela. Esse filme já foi visto dezenas de vezes (de “Os Goonies” a “Bala de Prata”). A obrigatória lição de moral que a Disney sempre dá um jeito de incluir em suas produções também é batida. Trata-se da necessidade de que as pessoas encarem seus problemas de frente e trabalhem para resolvê-los, sem esperar que as soluções apareçam magicamente, do nada. O tema perde força, porém, porque existe uma lição secundária, essa direcionada aos pais: é preciso dialogar sempre para manter a confiança dos pequenos em alta. Dessa forma, uma lição ocupa o espaço da outra, e nenhuma das duas é desenvolvida satisfatoriamente.

Na tentativa de compensar a falta de originalidade da história, os roteiristas Steve Bencich e Ron Friedman incluíram uma grande quantidade de gags e referências a filmes adultos, desde “Os Embalos de Sábado à Noite” (em uma cena musical) até os recentes “Sinais” (há uma seqüência numa plantação de milho) e “Guerra dos Mundos” (o design dos alienígenas). Algumas delas funcionam, como as referencias sutis a “E.T.” na parte final da trama, mas outras soam deslocadas e sem graça, como a cena em que o peixe escafandrista simula o clímax de “King Kong” no Empire State. Decepcionante mesmo é perceber que, talvez na tentativa de garantir que todo mundo reconheça as piadas, a maior parte das citações faz referência a filmes recentes, muitos deles de qualidade duvidosa. A estratégia de homenagear os clássicos, ao que parece, é coisa do passado.

No campo da técnica, é preciso lembrar que “O Galinho Chicken Little” é a primeira produção em animação computadorizada em 3D da companhia. O fato não serve de desculpa, contudo, para que a qualidade geral seja tão claramente inferior aos concorrentes. Uma seqüência que deixa as limitações da animação bastante evidentes é aquela em que o galinho aciona o alarme contra incêndios do colégio. A interação dos personagens com a água simplesmente não funciona. Outros detalhes mais sutis que depõem contra o longa-metragem podem passar despercebidos, como o fato de que os cenários de fundo são quase sempre estáticos, ao contrário da maravilhosa riqueza de detalhes vívidos de um filme como “Os Incríveis”, por exemplo.

De qualquer forma, todos esses problemas não impediram “O Galinho Chicken Little” de faturar alto nas bilheterias norte-americanas. A lendária máquina de marketing da empresa do Mickey prova, mais uma vez, ter fabulosa eficiência no processo de divulgar seus produtos com impecável senso de oportunismo. Resta esperar que, ao assumir a concorrência direta com pesos-pesados como a antiga parceira Pixar, a Disney passe a se preocupar mais com a qualidade dos filmes e menos com o resultado financeiro. Se isso acontecer, o cinema de animação só tem a ganhar.

O DVD é da Buena Vista. O filme comparece com imagem (16:9, anamórfica) e som (Dolby Digital 5.1) de qualidade impecável, acrescido de documentários e cenas cortadas.

– O Galinho Chicken Little (Chicken Little, EUA, 2005)
Direção: Mark Dindal
Animação
Duração: 82 minutos

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