Gângster, O

12/09/2008 | Categoria: Críticas

Épico de Ridley Scott apelidado de “O Poderoso Chefão Negro” reforça a importância dada ao tema “família” no cinema dos EUA

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

A trajetória de Frank Lucas representa perfeitamente o sonho americano. O garoto humilde, que trabalhou durante anos como motorista de um popular líder comunitário do bairro negro do Harlem (Nova York), enxergou uma oportunidade original de negócio e fez fortuna. Ficou rico, mas não esqueceu dos amigos e da família. Comprou um casarão para a mãe, deu empregos para irmãos, primos e amigos do peito. Casou com uma bela mulher e constituiu uma família sólida. Era fiel, discreto e trabalhador. Ainda arrumava tempo para levar a mãe à missa todos os domingos. Só não era perfeito porque o negócio de Frank Lucas consistia em contrabandear toneladas de heroína para os EUA, enchendo as ruas da costa leste com uma droga barata e altamente letal. Lucas existiu de verdade e é o personagem central de “O Gângster” (American Gangster, EUA, 2007), elogiado épico criminal de Ridley Scott.

A produção do longa-metragem data do ano 2000, quando o oscarizado roteirista Steve Zaillian (“A Lista de Schindler”) leu um artigo sobre o traficante na revista New Yorker. Sete anos e três diretores depois – Antoine Fucqua (“Dia de Treinamento”) e Terry George (“Hotel Rwanda”) trabalharam no projeto – o resultado final estreou com sucesso de crítica e público. O resultado final justifica com sobras o apelido informal que o projeto recebeu nos bastidores da indústria cinematográfica (“The Black Godfather”, algo como “O Poderoso Chefão Negro”). Trata-se, afinal, de uma saga sobre mafiosos milionários de grande prestígio, com enredo que cobre vários anos e dedica grande importância à noção de família. Além disso, Scott trabalhou nos aspectos cinematográficos para reforçar a semelhança.

Basta observar, por exemplo, a excelente fotografia de Harris Savides, que privilegia tomadas escuras e usa de forma abundante o recurso do contraluz. Há uma razão narrativa para esta opção, já que a utilização deste tipo de iluminação, em que a fonte principal de luz fica na frente da câmera e por trás dos atores, mergulha os personagens dentro na escuridão (aliás, grande parte das locações tem paredes de vidros ou janelas amplas, de modo a facilitar o uso deste recurso). As sombras escondem os rostos, reforçam o caráter misterioso dos personagens, ajudam-nos a se misturar ao ambiente e a passar despercebidos – e esta é justamente a postura empresarial de Frank Lucas, que faz questão de manter um perfil impecável de discrição. Ele não usa jóias nem roupas berrantes, não freqüenta festas e não esbanja dinheiro em público. É por isso que a polícia demora tanto tempo em identificá-lo como um barão das drogas.

Por outro lado, é óbvio que a fotografia em chave escura remete diretamente à estética de “O Poderoso Chefão”, cuja fotografia de Gordon Willis tornou-se antológica justamente pelo uso dramático do contraluz. As locações reais, situadas em bairros da periferia de Nova York, também são parecidas e reforçam ainda mais a semelhança. Aliás, a reconstituição de época – a maior parte da ação se passa na virada entre as décadas de 1960 e 70 – é meticulosa e detalhista, até mesmo na boa trilha sonora de Mark Streitenfeld, que prioriza fraseados de jazz com bastante percussão, bem na linha dos thrillers policiais daquela época. As menções a diversos personagens reais complementam o trabalho impecável da equipe dirigida por Ridley Scott. Há até um trecho curioso em que os nomes dos detetives Eddie Egan e Sonny Grosso (os tiras que inspiraram o filme “Operação França”, que versa justamente sobre tráfico de drogas em NY) são mencionados por traficantes ligados a Frank Lucas.

“O Gângster” se afasta de sua obra de referência, contudo, por ter dois personagens principais com igual tempo em cena. Afinal, em paralelo à trajetória de ascenção e queda de Frank Lucas, acompanhamos também o detetive Richie Roberts (Russell Crowe). Ele é um sujeito tão honesto que até mesmo os demais policiais o desprezam, desde que encontrou um carro abastecido com US$ 1 milhão e preferiu entregar o dinheiro às autoridades do que dividi-lo com os colegas. No ostracismo, ele acaba chefiando uma equipe de investigação para a Promotoria de Nova York, e este trabalho o acaba colocando na rota de Lucas.

A montagem de Pietro Scalia, fiel colaborador de Scott, desenvolve em paralelo as histórias dos dois personagens, cruzando-as somente na segunda metade da projeção. Sem pressa, o ritmo favorece a construção dos personagens, mas a necessidade de dar a ambos o mesmo destaque acaba se mostrando prejudicial, já que o filme gasta vários minutos com uma desnecessária subtrama sobre o fracasso do casamento do policial. O enredo secundário não acrescenta nada ao filme, a não ser talvez a informação de que Richie Roberts não é um modelo de homem – a excessiva dedicação ao trabalho e a obsessão por sexo são os problemas com que tem que lidar. Há aqui um problema: ambos os personagens são meticulosamente construídos como homens parecidos: inteligência acima do normal, verve afiada, tenacidade, firmeza moral, dedicação ao trabalho e, claro, um defeito – é preciso que algo os torne humanos, certo?

Residente justamente neste ponto o maior problema do filme. Apesar das quase três horas de duração, e do ritmo relativamente lento para o padrão dos thrillers do século XXI, “O Gângster” não exibe a complexidade moral, a riqueza, as nuances e sutilezas que dão envergadura dramática e exuberância a grandes épicos do crime, como “Scarface” (1983) e o já citado “O Poderoso Chefão”. Se os dois personagens principais são talhados de forma meticulosa (e ainda assim rasa), o mesmo não pode ser dito dos coadjuvantes. Não há rigorosamente nenhum personagem secundário que tenha densidade dramática. São todos superficiais. Obedecem às necessidades narrativas do roteiro, mas não possuem vida própria ou tridimensionalidade. Esta característica coloca “O Gângster” na galeria dos filmes policiais que são bons, mas não fantásticos.

O DVD simples, da Universal, traz como extra apenas um comentário em áudio com Scott e o roteirista Steve Zaillian. O filme aparece com boa qualidade de imagem (widescreen anamórfica) e áudio (Dolby Digital 5.1). A edição dupla traz a versão do diretor, ampliada e mais violenta, como bônus, além de um longo documentário de bastidores.

– O Gângster (American Gangster, EUA, 2007)
Direção: Ridley Scott
Elenco: Denzel Washington, Russell Crowe, Chiwetel Ejiofor, Josh Broling
Duração: 157 minutos

| Mais


Deixar comentário