Gardênia Azul, A

29/05/2006 | Categoria: Críticas

Thriller de Fritz Lang tem soluções visuais interessantes e explora tema da culpa

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

A maior parte dos filmes de Fritz Lang versa sobre a culpa. Via de regra, quase todos os protagonistas do cineasta alemão são pessoas torturadas por um sentimento esmagador de culpa. Esta característica é fator importante em “A Gardênia Azul” (The Blue Gardenia, EUA, 1953), um dos mais obscuros e tardios noir dirigidos por ele em Hollywood. Trata-se de uma produção que tem outras marcas registradas do diretor, como o sofisticado tratamento visual da película, mas que também entrega uma série de concessões comerciais, como um número musical com Nat King Cole, algo incomum na obra de Fritz Lang.

Essas concessões irritaram tanto o diretor que ele renegou o resultado final, praticamente deixando de mencionar o filme no decorrer da carreira. Bobagem: “A Gardênia Azul”, a despeito de alguns momentos melosos e de um final tão convencional que chega a ser atípico para Lang, é um thriller eficiente que confirma, mais uma vez, a habilidade incomparável do diretor alemão para traduzir o estado de espírito de seus personagens a partir da fotografia, em especial através do uso da iluminação e dos cenários.

Um dos maiores destaques do filme é a excepcional abertura, com uma longa seqüência meticulosamente montada, em que todos os personagens que terão algum destaque na narrativa são apresentados, um após o outro, de maneira fluida e perfeitamente natural. A câmera de Lang acompanha uma visita do jornalista Casey Mayo (Richard Conte) a uma companhia telefônica, mas logo deixa o repórter para saltar de personagem em personagem, mostrando um pouco do cotidiano de todos deles, como o sedutor artista Harry Prebble (Raymond Burr) e um trio de jovens mulheres telefonistas que divide um apartamento.

Caso o espectador não saiba muito sobre a trama, vai experimentar a refrescante sensação de descobrir, aos poucos, que será a vítima e quem será o assassino em um crime cometido após noitada cheia de álcool na boate que leva o nome do título do filme. Durante o resto da trama, Lang vai se dedicar a filmar a confusão mental do personagem principal, que é o suposto criminoso, lutando para lembrar dos acontecimentos da noite, nublados pelo excesso de álcool. Dessa forma, o suspeito reluta entre se entregar à polícia com a consciência limpa ou mentir e tentar escapar, só que com o coração apertado pela certeza de ter feito a coisa errada. Um típico enredo de Fritz Lang.

A narrativa é claramente dividida em duas partes que se alternam, uma feminina e outra masculina. Lang Lang conseguiu deixar evidente a distinção através de soluções visuais inteligentes e sofisticadas. A trama feminina tenta resgatar o clima de cumplicidade amistosa visto numa conversa entre amigas; os cenários são bem detalhados e a iluminação, limpa e clara. Já a narrativa masculina, centrada principalmente no personagem do jornalista, evoca o típico clima noir, com pouca luz, muitas sombras e cenários com pé direito enorme, amplificando a sensação de insegurança, de pesadelo.

O tratamento visual tem seu ponto alto na extraordinária seqüência em que uma das telefonistas se encontra com Casey Mayo, na redação do jornal, após o expediente. Com o lugar às escuras, o tenso encontro é iluminado apenas por um letreiro de néon que pisca em intervalos regulares, e cuja luz penetra pela janela da redação. A cena influenciaria Alfred Hitchcock em uma das mais lembradas seqüências da obra-prima “Um Corpo que Cai” (1958). A atmosfera conseguida por Fritz Lang é pesada, quase irrespirável, com uma tensão quase sólida.

No geral, “A Gardênia Azul” tem tudo para agradar aos admiradores do cineasta alemão, mesmo levando em consideração que o filme possui algumas cenas enxertadas por pura exigência da Warner, estúdio financiador da obra. É o caso da seqüência musical que mostra o cantor e pianista Nat King Cole executando a canção-título, em uma clara tentativa de produzir um hit destinado às paradas musicais da época. Por sorte, esse tipo de intromissão a narrativa é rara e não atrapalha as virtudes do filme.

O DVD da Aurora é simples e não contém material extra. O lançamento é baseado no disco lançado pela Image Entertainment, com uma ótima cópia do filme, que mantém o enquadramento original (1.31:1, tela cheia) e tem som limpo e claro (Dolby Digital 2.0).

– A Gardênia Azul (The Blue Gardênia, EUA, 1953)
Direção: Fritz Lang
Elenco: Anne Baxter, Richard Conte, Ann Sothern, Raymond Burr
Duração: 89 minutos

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