Garota do Adeus, A

24/04/2008 | Categoria: Críticas

Filme de Herbert Ross é espécie de marco zero da comédia de costumes estilo “guerra dos sexos”

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

A indústria cinematográfica registra, aqui e acolá, um fenômeno dos mais curiosos da cultura pop. Ele acontece quando um filme despenca diretamente, sem escalas, da glória absoluta para a completa obscuridade. “A Garota do Adeus” (The Goodbye Girl, EUA, 1977) é um desses casos estranhos. No ano do lançamento original, transformou-se na primeira comédia romântica a ultrapassar a barreira dos US$ 100 milhões nas bilheterias (número altíssimo para a época, aliás), e deu o Oscar de melhor ator a Richard Dreyfuss, transformando-o no mais jovem profissional a empunhar a estatueta dourada. Pouco tempo depois, estava relegado às monótonas sessões de madrugada em emissoras de televisão do segundo escalão.

Não é fácil explicar este fenômeno. Neste filme, em particular, a conta pode ser debitada à fragilidade da atuação da contraparte feminina. Completamente engolida pela vitalidade e energia do parceiro de cena, a atriz Marsha Mason foi severamente criticada pelos críticos da época – o onipresente Roger Ebert percebeu nela, mais do que falta de carisma, uma absoluta falta de habilidade para provocar empatia na platéia. Verdade ou não, o fato é que “A Garota do Adeus” sumiu do horizonte, para o grande público, mas permaneceu vivo na memória de cineastas atentos para comédias românticas, como Nora Ephron (“Sintonia de Amor”). O filme acabou se tornando uma espécie de marco zero de um dos mais rentáveis subgêneros de Hollywood a partir dos anos 1980: a comédia de costumes estilo “guerra dos sexos”, em que os protagonistas terminam inevitavelmente apaixonados.

Trata-se de um típico filme dos anos 1970, cujo enredo é delineado pelos dois personagens principais. Eles são dois batalhadores, tentando sobreviver à competição selvagem no mercado de trabalho da maior selva de pedra do planeta, Nova York. Paula (Mason) é uma balzaquiana e ex-dançarina da Broadway, metida em apuros para sustentar a filha Lucy (Quinn Cummings), depois que o namorado escapole para outro país, deixando-a sozinha e sem dinheiro. O canalha ainda lhe fez o desfavor de alugar o apartamento onde ela vive para o ator Elliot (Dreyfuss), que chega à cidade para tentar a sorte nos palcos da Broadway. Depois de uma briga feia, eles entram em acordo e topam dividir o apartamento.

O filme apresenta influências óbvias das chamadas screwball comedies dos anos 1930 (“Jejum de Amor”), com diálogos rápidos e engraçados, mas atualiza o gênero para os anos 1970. Os personagens principais, afinal, não são playboys que bebericam martinis, mas proletários batalhando para viver com dignidade. Ambos já passaram da idade ideal para terem carreiras de sucesso nas respectivas profissões, e sabem disso. Não lhes resta mais nada além de lutar por um lugar ao sol. O roteiro casual não tem muita originalidade, mas o texto de Neil Simon (marido de Marsha Mason) é esperto e pontilhado de tiradas espirituosas, que combinam à perfeição com o estilo físico e despojado de interpretação de Richard Dreyfuss. As cenas em que ele interpreta uma versão gay do shakespeareano Richard III (“Sou a Betty Boop de Stratford-on-Avon”) são hilariantes.

“A Garota do Adeus” se tornou verdadeiro paradigma para comédias românticas posteriores. Muitas de suas cenas famosas foram recriadas em grandes sucessos de cinema, como a ríspida e bem-humorada discussão entre Paula e Elliot no meio da rua, diante de atônitos transeuntes, que inspirou a famosa seqüência do orgasmo de Meg Ryan na lanchonete, em “Harry e Sally” (1989). Outro elemento narrativo que virou clichê foi o personagem de Lucy, a adorável e inteligentíssima filha da atriz, que o roteiro usa como elo de empatia entre os dois “inimigos”. A direção discreta de Herbert Ross acerta ao criar uma ambientação correta e despojada, com trabalho de câmera simples e eficiente, que não chama a atenção para si. A estratégia garante que os holofotes estejam sempre nos atores, e isto valoriza o ponto forte da produção, que são os diálogos. Para relaxar, um programão.

O DVD da Warner nunca foi lançado no Brasil. O disco é simples e contém apenas o filme, sem extras, com qualidade OK de imagem (widescreen 1.85:1 anamórfica ou Pan & Scan, à escolha do cliente) e áudio (Dolby Digital 2.0).

– A Garota do Adeus (The Goodbye Girl, EUA, 1977)
Direção: Herbert Ross
Elenco: Richard Dreyfuss, Marsha Mason, Quinn Cummings, Paul Benedict
Duração: 111 minutos

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