Garoto, O

20/04/2005 | Categoria: Críticas

Flme clássico de Charles Chaplin tem edição dupla caprichada em DVD nacional

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★★

Nenhum cineasta do mundo, em nenhum momento da história do cinema, evoca tantas imagens diferentes quanto Charlie Chaplin. À simples menção do nome do ator, diretor, produtor e compositor, a figura do vagabundo Carlitos vem à mente. Mas o que estará fazendo Carlitos nessa imagem mental? Para uns, ele estará com as mãos em uma flor (“Luzes da Cidade”). Para outros, estará sendo engolido por uma engrenagem (“Tempos Modernos”). Uma minoria deverá lembrar do vagabundo vestido como Hitler, com um globo na mão (“O Grande Ditador”). Todas são cenas poderosas, profundamente encravadas no imaginário popular. O que dizer, então, da figura de Chaplin sentado numa escadaria, ao lado de um garotinho adorável de macacão e boné?

Por diversas razões, “O Garoto” (The Kid, EUA, 1921) continua a ser o filme mais popular de Charlie Chaplin. Especialistas na obra do diretor são quase unânimes em afirmar que “O Garoto” não é o melhor filme do diretor. Talvez não seja mesmo, mas é aquele que possui mais apelo junto ao público, fazendo cinéfilos de mundo inteiro chorar e sorrir em doses generosas. Além disso, também é a produção que marca o início da fase mais brilhante, o verdadeiro auge, de um dos criadores mais inesquecíveis da história do cinema. Para finalizar, foi um dos filmes que ajudou a consolidar o formato de filmes da maneira que conhecemos hoje.

É curioso perceber que “O Garoto”, em si, não é um longa-metragem, mas sim aquilo que se convencionou chamar de média-metragem. Tem apenas 50 minutos, e foi montado em seis rolos de película. Em 1921, quando foi produzido, entretanto, essa duração era quase proibitiva. A maior parte dos curtas da época tinha entre dois e três rolos, ou 20 minutos no máximo. Apenas criadores de gabarito, como Chaplin, se aventuravam a ultrapassar essa duração. Dessa maneira, o diretor e ator se aproveitou da fama para gastar o milionário orçamento de U$ 250 mil, e passar mais de um ano dentro dos sets, para filmar apenas 50 minutos. Trata-se, entretanto, de 50 minutos clássicos, inesquecíveis, inebriantes.

O filme já foi tantas vezes visto e revisto que é difícil encontra uma pessoa, um único ser humano, que não o conheça. Na abertura de “O Garoto”, uma mãe em dificuldades enfia um recém-nascido no banco de um automóvel, com um bilhete implorando que o dono do carro o crie. Mas o veículo é roubado, e os ladrões abandonam o bebê numa viela suja. O vagabundo Carlitos o encontra, tenta se livrar dele, mas não consegue. Acaba criando o menino e se afeiçoando a ele.

A ação se move seis anos à frente. Carlitos e o menino, agora uma criança expressiva com rosto de anjo, são pequenos golpistas. O menino quebra vidraças a pedradas, enquanto Carlitos vaga pelas redondezas vendendo peças de vidro. Do outro lado da cidade, a mãe da criança é agora uma atriz rica a famosa, e procura fazer trabalhos voluntários na esperança de reencontrar o menino. Ela não tem idéia de onde ele possa estar.

Um letreiro na abertura do média-metragem avisa que este é um filme de “algumas risadas e talvez uma lágrima”. Chaplin estava mesmo inspirado, e produz algumas cenas que já nascem clássicas, tanto cômicas (a coreografia perfeita do quebra-quebra de vidraças, a luta entre crianças no meio da rua) quanto dramáticas (o primeiro encontro entre mãe e filho, a tentativa de policiais levarem o garoto para um orfanato). As cenas estão inseridas em uma trama lógica que praticamente prescinde de legendas, tamanha é a eficiência da expressão corporal de Chaplin. Carlitos está, aqui, em seus melhores dias.

É verdade que tem um parceiro de cena incomparável. O pequeno Jackie Coogan foi o mais famoso, e possivelmente o mais talentoso, parceiro cômico do inigualável Carlitos. Seus grandes olhos expressivos, o cabelo claro, a roupa folgada, tudo isso contribuiu para criar a imagem de uma criança desamparada e carinhosa. A cena em que um policial tenta levá-lo para longe de Carlitos é de partir o coração.

Entre os cinéfilos mais intelectualizados, ganhou fama com o tempo uma cena pouco lembrada: a brilhante “seqüência do sonho”, em que os vagabundos das redondezas ganham asas e participam de uma espécie de festa celeste. Além de os vôos de Carlitos serem uma versão primitiva de efeitos especiais, em uma época que Hollywood ainda não pensava em fazer isso, esta passagem tem lugar na história por ser a primeira vez em que um sonho ganha espaço dentro da narrativa de um filme. Com ela, Chaplin antecipa Salvador Dali, Luís Buñuel, David Lynch e outros estudiosos do inconsciente humano. Em resumo, um filme clássico, agradável e emocionante.

O DVD duplo, preparado pela firma francesa MK2, possui uma versão restaurada do média-metragem e quase 2h30 de material extra. No disco 1, aparece o filme, em uma cópia de ótima qualidade. Há trechos da imagem com riscos e arranhões, mas são bem raros e quase imperceptíveis. Dá para dizer, sem medo de errar, que “O Garoto” nunca esteve no mercado de vídeo em cópias tão boas. Além disso, há a trilha de áudio original em dois canais, de 1971, e uma remixagem no formato Dolby Digital 5.1, em seis canais.

O disco 2 vem com os extras. Ele começa com uma entrevista do biógrafo David Robinson, encarregado de fornecer o contexto do filme e sua importância para a obra de Chaplin. O extra mais longo é o filme “Meu Garoto” (My Boy), com 54 minutos, em que o menino Jackie Coogan reprisa o papel. O documentário de maior importância, no entanto, se chama “Chaplin Hoje”, tem 26 minutos e enfoca uma sessão de “O Garoto” na casa do cineasta iraniano Abbas Kiarostami. É interessante.

O pacote tem uma galeria com três cenas cortadas (5 minutos) e um documentário sem som que mostra o cotidiano de Charlie Chaplin, durante um dia, no estúdio que ele mesmo construiu, em Los Angeles (15 minutos). Há quase 20 minutos de filmes caseiros de Chaplin e Jackie Coogan, reportagens em vídeo sobre uma turnê do cineasta na Europa, galerias animadas de fotos e pôsteres, além de trailers. Só não é um disco perfeito porque todo esse material poderia ter sido reunido em um documentário gigante, ao invés de estar espalhado – o documentário sem som, por exemplo, é bastante enfadonho, apesar das imagens raríssimas.

– O Garoto (The Kid, EUA, 1921)
Direção: Charles Chaplin
Elenco: Charles Chaplin, Jackie Coogan, Edna Purviance, Carl Miller
Duração: 50 minutos

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