Geração

16/12/2005 | Categoria: Críticas

Estréia de Andrzej Wadja é uma história de amadurecimento em plena Segunda Guerra

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

A primeira tomada de “Geração” (Pokolenie, Polônia, 1954) é um dos mais poderosos momentos de abertura de um filme feito por diretor estreante. A câmera realiza uma virtuosa tomada panorâmica que começa com uma vista geral da cidade de Varsóvia, na Polônia, e termina focalizando um grupo de jovens brincando. Um desses rapazes, Stach (Tadeusz Lomnicki), é o protagonista do belo filme de estréia de Andrzej Wadja, um dos grandes diretores que a pátria arrasada pelas tropas de Hitler nos deu.

“Geração” é a primeira parte da famosa trilogia de Wadja sobre a Segunda Guerra Mundial. Ele se passa em 1942, durante o início de um dos episódios mais sangrentos da guerra, o levante de Varsóvia, quando a população da cidade tentou se rebelar contra a ocupação alemã, causando assassinatos em massa que atingiram muitos milhares de poloneses. Mas não se trata de um filme tradicional de guerra. É muito mais a história da chegada da maturidade para um adolescente, forçado a crescer e virar homem durante às circunstâncias excepcionalmente duras do país europeu.

Para quem não sabe, vale um comentário contextual aqui que pouco tem a ver com o filme: a Polônia foi o país que mais sofreu as conseqüências da grande guerra de Hitler. Vizinho à Alemanha e com a população eslava repleta de judeus cristãos, a Polônia foi o primeiro território a ser ocupado pelos nazistas, e o único local na Europa onde estes construíram os macabros campos de extermínio. O país acabou devastado pelos exércitos alemães, terminando o conflito com o saldo de quatro milhões e meio de mortos. Portanto, não é surpresa que alguns dos filmes mais fortes sobre o conflito internacional tenham emergido lá.

O caso de “Geração” é interessante sobretudo pelo uso virtuoso da técnica cinematográfica, algo incomum para um diretor estreante que filmava com poucos recursos financeiros. Mas isso é explicável pela história de Wadja. O diretor era um egresso da Escola de Artes, onde estudou para ser pintor. Daí o senso apurado para composições cheias de estilo e enquadramentos precisos que o filme exibe de maneira farta. Uma das características mais interessantes de Wadja, especialmente nessa fase inicial da carreira, é o uso abundante de tomadas que exibem duas ações simultâneas, uma acontecendo em primeiro plano e outra ocorrendo ao fundo, à maneira do que Orson Welles instituiu em “Cidadão Kane”.

O enfoque da narrativa não acontece no conflito em si, mas na maneira como a guerra interferiu na vida cotidiana das pessoas em Varsóvia. O personagem principal, Stach, é quase um delinqüente. Sua idéia de ajudar a resistência é romântica e idealizada, quase uma brincadeira inconseqüente. Junto com os amigos, ele sobe nos trens carregados de carvão que alimentam os campos de concentração e atira para longe o combustível. Até que, numa tarde ensolarada, um atirador postado sobre o trem acaba com a festa. Stach fica ferido e acaba tendo que arrumar um emprego de operário para se sustentar.

No trabalho, ele toma contato com membros da resistência aos alemães e acaba convencido a militar no movimento. Aí entra em cena a habilidade de Wadja para alfinetar não apenas os nazistas, mas também a rígida censura comunista que havia na Polônia, na época: Stach não se une à resistência por idealismo político, mas por interesse romântico numa bela jovem que vira distribuir panfletos políticos na escola. Ela se chama Dorota (Urszula Modrzinska), e eles se apaixonam, com toda a dificuldade que isso representa dentro de uma guerra. “Geração” entrelaça, dessa forma, o processo de transformação de um menino em homem, utilizando a guerra como pano de fundo para uma pequena tragédia pessoal sobre a maturidade. Essa é a grande virtude do longa-metragem.

O panorama da comunidade polonesa é montado cuidadosamente por Wadja. O contraponto a Stach é Janus (Tadeusz Janczar), outro operário simpático à resistência, que no entanto teme entrar para o movimento porque não pode correr o risco de ser preso ou perder o emprego, já que sustenta toda a família. Aliás, o pai de Janus representa outra faceta do drama da guerra: anteriormente empregado da madeireira onde todos trabalham, ele é descartado para dar lugar a braços mais jovens e, assim, aumentar a produção. Dessa forma, Wadja dispara ao mesmo tempo na brutalidade nazista, na rigidez comunista e a lógica implacável capitalismo.

O DVD lançado pela Aurora é baseada na excelente edição da Criterion Collection. O filme aparece restaurado, com enquadramento de imagem original (1.33:1, ou tela cheia) e som polonês original (Dolby Digital 1.0). Os extras principais são dois: um documentário sobre a produção (34 minutos) que traz depoimentos de Wadja e do crítico Jerzy Plazewski, além do curta-metragem documental de estréia de Wadja, “As Cerâmicas de Ilza” (10 minutos), além de uma galeria de fotos.

– Geração (Pokolenie, Polônia, 1954)
Direção: Andrzej Wajda
Elenco: Tadeusz Lomnicki, Urszula Modrzinska, Tadeusz Janczar
Duração: 87 minutos

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