Ghost World – Aprendendo a Viver

03/02/2006 | Categoria: Críticas

Terry Zwigoff aborda a inadaptação social em um fascinante estudo de personagem sobre uma adolescente

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★½

Pense por alguns minutos nos colegas que estudaram na mesma classe que você na escola (ou estudam, se você ainda está nela). Pensou? Então, certamente deve ter lembrado daquele pessoal que senta nas últimas fileiras, se veste de modo desleixado, passa de ano raspando e adora fazer comentários sarcásticos sobre tudo e todos. Toda turma de colégio tem uma galera assim. “Ghost World – Aprendendo a Viver” (EUA, 2001), do bom e subestimado cineasta Terry Zwigoff, é um fascinante e agridoce estudo de personagem sobre uma garota que se comporta exatamente assim.

Este é um filme adorável, capaz de causar paixão instantânea em qualquer um que se identifique com a protagonista. Enid (Thora Birch, de “Beleza Americana”) acaba de terminar os estúdios secundários e está mais perdida do que cego em tiroteio. Entre trabalhar, entrar na universidade ou tentar arrumar um namorado, ela opta por… nenhum dos três. Aliás, não só ela, mas também Rebecca (Scarlett Johansson), espécie de alma gêmea. O cotidiano das duas se resume a fazer planos para sair das casas dos respectivos pais e soltar, uma atrás da outra, tiradas e trotes ácidos sobre quem estiver por perto, conhecido ou não. Rebecca é um pouco mais sociável.

O filme de Terry Zwigoff, que havia dirigido o excelente documentário “Crumb” e faria depois a sátira natalina “Papai Noel às Avessas”, é baseado numa história em quadrinhos escrita por Daniel Clowes, que co-escreveu o roteiro junto com o diretor. Trata-se de um autêntico filme independente norte-americano, com atmosfera despojada e orçamento minúsculo, que se concentra mais nos personagens e menos no estilo. A obra oferece uma visão dura e realista, ainda que divertida, sobre inadaptação social

Embora o desajeitado subtítulo brasileiro sugira que “Ghost World” é uma fábula sobre a transição entre a adolescência e a vida adulta, a jornada de Enid não trata exatamente disso. Se os personagens tivessem a oportunidade de conhecê-la bem, tão bem quanto a nós da platéia, veriam que Enid não tem nada de imatura. Ela é uma garota inteligente, esperta e bem mais madura do que as meninas da idade dela. Porém, é também uma pessoa solitária e irascível demais para manter relacionamentos de qualquer natureza, porque não está disposta a fazer algo fundamental em qualquer relacionamento – ceder.

Esse comportamento, ao longo do tempo, transformou a garota em alguém que o pai (Bob Balaban) e os amigos não compreendem. Ela não é preguiçosa e nem tem medo de trabalhar, como Rebecca imagina. Tampouco é chata, como a maioria das pessoas que convivem com ela pensa, apesar do senso de humor volátil. Lésbica, como alguns acreditam? De jeito nenhum. Enid é apaixonada por Josh (Brad Renfro), rapaz que trabalha numa loja de conveniência, mas sua maneira de demonstrar amor é passar pelo posto onde ele trabalha, todo dia, e deixá-lo enfezado com brincadeiras irritantes. Seu jeito bruto, birrento e desleixado engana todo mundo. Ninguém a entende.

Com a exceção de Rebecca, a única outra alma no mundo com quem Enid simpatiza é Seymour (Steve Buscemi), um colecionador de discos raros de blues que passa os dias num emprego burocrático e gasta as horas livres imaginando o que fazer para conquistar uma mulher, qualquer mulher. Como ela, Seymour é um pária que sofre de completa inadaptação social, com o agravante de que é menos inteligente, e portanto possui ainda menos facilidade para lidar com o problema – e é exatamente essa característica dele que mais atrai a garota. Em um filme normal de Hollywood, dois personagens assim estariam fadados a se apaixonar, apesar da diferença de idade. Não em “Ghost World”, cujo enredo segue por um caminho impossível de antecipar.

Com fotografia que deixa o mundo de Enid com pinta de subúrbio proletário, a cargo do brasileiro Affonso Beato, Terry Zwigoff criou uma pequena pérola. Usando de humor adulto, o diretor aborda a dura realidade das pessoas com dificuldade de adaptação social, de uma maneira que jamais soa arrogante, professoral ou amarga. Sim, há um clima evidente de melancolia que perpassa todo o longa-metragem, mas esse é exatamente o estado de espírito de Enid – alguém que sabe rir dos percalços que enfrenta, mesmo quando algo inesperado piora um instante que parecia não poder piorar. Como se não fosse suficiente, Zwigoff ainda criou um dos figurantes mais interessantes dos últimos tempos, na figura do velhinho que espera diariamente um ônibus vermelho cuja linha foi alterada – o que significa que o ônibus jamais passa. E o final do filme é imprevisível, alegórico e maravilhoso.

“Ghost World”costuma passar na TV a cabo com o título de “Mundo Cão”, e saiu em DVD no ano de 2005, sem muita divulgação, encartado na revista DVD News e com o nome original, acrescido do subtítulo. A edição é simples e não contém extras, mas preserva o aspecto original do filme (widescreen 16:9) e tem som de boa qualidade (Dolby Digital 5.1, em inglês).

– Ghost World – Aprendendo a Viver (EUA, 2001)
Direção: Terry Zwigoff
Elenco: Thora Birch, Scarlett Johansson, Steve Buscemi, Brad Renfro
Duração: 111 minutos

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