Giallo – Reféns do Medo

14/10/2009 | Categoria: Críticas

Filme mais parece uma refilmagem medrosa de um trabalho de Dario Argento nos anos 1970 do que um legítimo exemplar do diretor italiano

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★☆☆☆

Embora já estejam consolidadas como um subgênero legítimo do thriller de suspense desde o princípio da década de 1930, as histórias envolvendo ações sangrentas de assassinos em série de identidade desconhecida se tornaram verdadeiramente populares cerca de quatro décadas mais tarde, a partir do começo dos anos 1970. Essa popularidade veio a reboque de um ciclo do cinema popular italiano cujo principal autor foi Dario Argento. O cineasta, muito cultuado em círculos cinéfilos mais formalistas, andou amargando certa obscuridade a partir de meados dos anos 1990. “Giallo – Reféns do Medo” (Giallo, Itália, 2009) representa uma tentativa, desde o sugestivo título, de resgatar a fama e o respeito desse círculo de cinéfilos.

O que tem o título a ver com o ciclo que celebrizou Argento como diretor estiloso? É que esse ciclo era conhecido justamente como “giallo” (palavra que significa “amarelo” em italiano). Este subgênero, nascido mais para o final dos anos 1960, substituiu o spaghetti western no imaginário do público de baixa renda europeu. Os filmes do ciclo consistiam em transposições para o cinema das aventuras policiais em que detetives precisam identificar e prender serial killers. Essas aventuras eram publicas em livros de formato popular, vendidos em bancas de revista, e formatados dentro de capas-padrão na cor amarela.

Nas telonas, os giallos ganharam características específicas, graças ao trabalho de Dario Argento em thriller sugestivos como “O Pássaro das Plumas de Cristal” (1970) e “Prelúdio Para Matar” (1975): os matadores sempre utilizavam luvas de couro negro, tinham identidades desconhecidas, e praticavam crimes com requintes cada vez maiores de violência gráfica. As tramas boladas por Argento incluíam sempre um estrangeiro dentro da Itália – normalmente um norte-americano, a fim de trazer nomes internacionais para o elenco – obrigado pelas circunstâncias a perseguir o criminoso. As cores saturadas e o uso abundante de câmera subjetiva eram outras características do ciclo.

Fãs de Argento que esperarem encontrar um legítimo giallo – expectativa criada pelo título original – deverão ficar decepcionados. Infelizmente, este que é um dos diretores mais conhecidos e respeitados a militar no subgênero fílmico que envolve a atuação de serial killers fez um longa-metragem medroso, que mimetiza de maneira pouco inspirada filmes mais recentes do estilo (em particular os ótimos “Seven – Os Sete Pecados Capitais” e “O Silêncio dos Inocentes”) e deixa de lado justamenta as características exóticas que davam aos seus próprios filmes um sabor original. A paleta explosiva de cores, a iluminação quase expressionista, a câmera que buscava ângulos inusitados, tudo isso inexiste em “Giallo – Reféns do Medo”, que ainda por cima traz personagens desinteressantes e uma trama burocrática.

O enredo é centrado na busca desesperada empreendida por uma americana (Emanuelle Seigner) pela irmã mais nova (Elsa Pataki), seqüestrada por um misterioso assassino que retalha mulheres bonitas em Roma. Mas o personagem principal é, na verdade, um detetive italiano (Adrian Brody) que tem o hábito de trabalhar sozinho. Os dois seguem pistas bizarras espalhadas pela capital italiana, em cenas descaradamente roubadas dos dois exemplares mais famosos do subgênero. Preste atenção, por exemplo, na “ressurreição” de uma vítima supostamente morta do criminoso, que abre os olhos e murmura algumas palavras ao ter o rosto iluminado por uma lanterna – a cena é absolutamente idêntica a outra existente no filme de 1995 de David Fincher.

Além disso, como em “O Silêncio dos Inocentes” (1991), a vítima seqüestrada é mantida viva pelo assassino, cuja identidade é mantida em segredo apenas durante o primeiro ato, sendo revelada logo em seguida. O roteiro – o primeiro da carreira de Argento que ele não escreveu – deixa passar uma série de furos bobos. Como explicar, por exemplo, o fato de que o detetive interpretado por Brody, italianíssimo, não fala em italiano sequer com os colegas de farda, que entre si se comunicam na língua européia? E o que dizer da seqüência que mostra o detetive indo apanhar uma lista ilegal com um bibliotecário – uma lista cuja importância narrativa é zero, já que não aparece em nenhuma cena posterior – a não que o momento está lá apenas para copiar um trecho idêntico de “Seven”?

Para piorar a situação, “Giallo” padece de um problema que nunca havia aparecido na obra pregressa de Argento, que é o medo da transgressão, da ousadia, do excesso. A fotografia é limpinha demais, correta, e até mesmo as seqüências de ultra-violência praticamente desapareceram do corte final do longa-metragem, sem falar que o ótimo elenco internacional parece curiosamente inexpressivo, o que apenas confirma um dos piores defeitos do cineasta, que é a direção de atores deficiente. No fim das contas, “Giallo – Reféns do Medo” mais parece uma refilmagem medrosa de um trabalho de Dario Argento nos anos 1970 do que um legítimo exemplar do diretor italiano.

O DVD brasileiro traz o selo da California Filmes. O disco é simples e tem apenas o filme, com enquadramento correto (widescreen anamórfico) e som em seis canais (Dolby Digital 5.1).

– Giallo – Reféns do Medo (Giallo, Itália, 2009)
Direção: Dario Argento
Elenco: Adrian Brody, Emanuelle Seigner, Elsa Pataki, Robert Miano
Duração: 92 minutos

| Mais


Assine os feeds dos comentários deste texto


10 comentários
Comente! »