Gladiador

14/09/2005 | Categoria: Críticas

Ridley Scott ressucita grandes épicos de Hollywood em filme que tem bons momentos

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

Estamos em 180 a.C. Maximus (Russell Crowe) é um general de coragem, bravura, lealdade e inteligência. Principal responsável pela extraordinária expansão dos domínios do Império Romano, ele acaba uma vitoriosa campanha contra povos bárbaros germânicos e recebe a incumbência de fazer um governo de transição em Roma para entregar o poder ao Senado. Mas uma traição fará com que sua família seja assassinada e ele, escravizado. Maximus, contudo, tem uma pequena chance de vingança, e é a ela que vai se agarrar, com todas as forças, transformando-a na única razão que possui para viver.

“Gladiador” (Gladiator, EUA, 2000) é um épico histórico que narra uma história clássica de vingança. Não há nada no filme, a rigor, de original. Mesmo assim, a película de Ridley Scott foi recebida por público e crítica, por ocasião do lançamento nos cinemas, como uma inovação que, na realidade, ele jamais representou. Mas “Gladiador” tinha um significado simbólico forte: representava o retorno aos cinemas dos filmes épicos gigantes, de longa duração, dando seqüência a uma linhagem que parecia encerrada, como “Os Dez Mandamentos” ou “Ben-Hur”. Foi, por isso, premiado com o Oscar.

O que se sucedeu foi, então, um período de obscuridade. Fora dos cinemas, a tribo dos cinéfilos condenou o longa-metragem de Ridley Scott como uma obra comercial, sem conteúdo; culpou-a por ter ganhado o maior prêmio do cinema. De repente, o paparicado Russell Crowe tornou-se um arroz-de-festa indesejado. Ele recebeu o troféu de melhor ator (merecido desde “O Informante”, de Michael Mann) e passou a ser considerado fraco pelos mesmos sujeitos que o idolatravam antes de receber a estatueta dourada. Coisas de marketing.

Pois bem: esqueça o marketing. Esqueça a pompa e circunstância que cercaram “Gladiador” durante a temporada nos cinemas. Esqueça também os narizes torcidos contra o filme que o receberam quando ele chegou às prateleiras das locadoras. “Gladiador” não é a oitava maravilha do mundo, nem um exemplar risível de filme comercial feito para faturar. É, sim, um exemplo contemporâneo da Hollywood clássica, uma película unidimensional, com herói e vilão claramente definidos e personagens que não ultrapassam nunca a estatura de personagens, mas regida com competência por um cineasta que talvez não seja exatamente um autor, mas certamente tem estilo e sabe contar uma história de forma visualmente bonita.

Não há dúvida de que os maiores méritos de “Gladiador” estão na combinação perfeita de computação gráfica, cenários e figurinos, utilizados para a recriação do período de glória da dominação romana. Nesse sentido, o roteiro de John Logan funciona muito bem. O filme inicia mostrando Maximus no auge. Mas acontece a traição, cometida por Commodus (Joaquin Phoenix), filho do imperador Marcus Aurelius (Richard Harris) e homem capaz de matar o próprio pai para realizar o sonho obstinado de comandar o império. É ele quem manda matar a família de Maximus e o condena à morte.

Maximus escapa, mas vira escravo – um quase-nada. Ele começa então o processo de planejar uma vingança quase impossível, que exige que ele se torne um gladiador do mais alto nível, capaz de lutar no Coliseu. E ele chega lá. Quando Maximus entra pela primeira vez no colossal estádio antigo, seus olhos são os nossos olhos – e ficamos, então, tão estupefatos quanto ele, diante da recriação quase perfeita do monumento histórico. As batalhas a que assistimos dentro do estádio são os melhores momentos do filme, coreografados com competência e com referências inteligentes a filmes como “Ben-Hur”, que “Gladiador” copia sem muita cerimônia.

Russell Crowe, ao contrário do que dizem, também está bem no papel. Pesado, olhar enraivecido e dentes trincados, ele é a imagem de uma fera acuada. Se a Roma retratada no filme é por vezes superficial, com personagens sem estofo e coadjuvantes que jamais ultrapassam a pecha de adereços de luxo, é culpa do sistema clássico de Hollywood que o filme adota. Mas o elenco de apoio, liderado por Phoenix e Harris, também oferece bons desempenhos. “Gladiador” é diversão de luxo. Não é mais do que isso, e nem menos. E foi, afinal, responsável direto pelo ressurgimento do épico histórico, que nos deu filmes de qualidade variável nos anos seguintes, de “O Senhor dos Anéis” a “Tróia”.

Existem duas versões do filme no mercado brasileiro de DVDs:

1. Filme original (2 CDs): o DVD é, desde 2000, referência para lançamentos dos grandes estúdios. O disco 1 contém o filme com imagem perfeita (em formato widescreen, original) e som muito bom (no Brasil, a trilha em Dolby Digital 5.1 foi mantida, mas perdemos a DTS), e comentário em áudio (com Scott, o diretor de fotografia John Mathison e o editor Pietro Scalia, legendado em português). O comentário é ótimo – é divertido ver Scott voltar as baterias contra os historiadores, que apontaram dezenas de pequenos erros na representação fictícia do que seria o Império Romano da época.

O disco 2 tem um documentário de bastidores produzido pela HBO (25 minutos), outro enfocando a verdadeira vida de gladiadores (50 minutos), um terceiro sobre a criação da trilha sonora (20 minutos), uma galeria de 11 cenas eliminadas que soma 25 minutos, e mais uma coleção de oito seqüências planejadas em storyboards – inclusive uma, não finalizada, em que Maximus enfrentaria um rinoceronte (!) em pleno Coliseu.

2. Filme estendido (3 CDs): o filme vem em versão ampliada, com 17 minutos de cenas a mais. O enquadramento é mantido no formato original (widescreen 2.35:1), e o som é poderoso (Dolby Digital 5.1). O primeiro CD ainda tem um comentário em áudio com Ridley Scott e Russell Crowe, diferente do comentário presente na edição do filme em dois CDs.

O disco 2 é preenchido por um mega-documentário de 200 minutos, dividido em sete partes e enfocando os bastidores do filme com riqueza de detalhes. A existência desse documentário é a razão de ser da edição especial. Já o disco 3 reúne storyboards, comparações entre desenhos e cenas finalizadas, algumas cenas abandonadas, trailers e 20 sports de TV, com duração total de 78 minutos. Biscoito fino para fãs.

– Gladiador (Gladiator, EUA, 2000)
Direção: Ridley Scott
Elenco: Russell Crowe, Joaquin Phoenix, Richard Harris, Connie Nielsen
Duração: 155 minutos

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