Golpe de Mestre

20/11/2008 | Categoria: Críticas

Impecável reconstituição de época e visual exuberante fazem um roteiro contagiante virar um belo longa-metragem de George Roy Hill

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★½

Diante do enorme sucesso alcançado pelo faroeste cômico “Butch Cassidy” em 1969, é natural que as pessoas pensem que o delicioso drama criminal “Golpe de Mestre” (The Sting, EUA, 1973) tenha sido concebido como um novo projeto de reunião do diretor George Roy Hill com os astros Robert Redford e Paul Newman. A história real, contudo, não é glamourosa. Uma conjunção de coincidências fez o trio se reunir pela segunda vez, para alcançar um resultado ainda mais retumbante. “Golpe de Mestre” faturou sete Oscar, inclusive de melhor filme e diretor. Prêmios merecidos para um longa-metragem divertido e bem feito, que contou com impecável reconstituição de época e visual exuberante para contar transformar em belas imagens um roteiro contagiante.

Para alcançar este resultado, os estúdios Universal contaram com a sorte. No ano anterior à produção, Robert Redford chegou a recusar o papel principal, e teve que ser convencido de que o roteiro era bom mesmo para voltar atrás. George Roy Hill sequer era cogitado para a direção, mas leu o roteiro durante audiências com os executivos da empresa e, sem cerimônia, pediu o emprego. Paul Newman chegou ao projeto de forma ainda mais despretensiosa. Amigo do cineasta, ele era normalmente consultado por ele sobre projetos futuros. O ator leu o roteiro para enviar algumas dicas, gostou do texto e pediu para interpretar o co-protagonista. Estava pronta a equipe criativa que produziria um dos filmes mais bacanas sobre a vida de trapaceiros simpáticos.

É verdade que Roy Hill contou com outros colaboradores preciosos para criar o colorido mundo fictício da história, uma versão pavoneada da Illinois de 1936. A maior figurinista da história de Hollywood, Edith Head, cuidou dos trajes e ganhou sua oitava estatueta dourada. Henry Bumstead, que trabalharia depois na maioria dos filmes de Clint Eastwood e se tornaria um dos grandes designers de produção dos anos 1980-90, foi responsável pela decisão crucial de construir toda uma cidade cenográfica dentro dos estúdios da Universal, de forma a alcançar um maior grau de verossimilhança, através de uma bem cuidada pesquisa histórica. Muitas dessas construções permanecem de pé até hoje (como curiosidade, saiba que a lanchonete onde o personagem de Redford toma café da manhã algumas vezes é a mesma onde o jovem Marty McFly encontra pela primeira vez o pai dele, em “De Volta Para o Futuro”).

De nada adiantaria tudo isso, porém, se o roteiro não fosse realmente criativo e inovador. Não era apenas uma questão de ter bons personagens ou uma história consistente; o filme precisaria ser o equivalente cinematográfico a um truque de prestidigitação, um lance de mágica, que deixasse a platéia boquiaberta no final, tendo sido enganada pelo cineasta sem perceber. Algo semelhante à cena de abertura, em que uma pequena trapaça aplicada contra um mafioso funciona como cena de apresentação de Hooker (Redford). Pois bem: o texto de David Ward funciona nesse nível e em outros. A produção é povoada por personagens carismáticos e tem um ritmo perfeitamente controlado, simultaneamente tranqüilo e dinâmico (em parte, auxiliado pela montagem cheia de fusões e transições rápidas), que valoriza os desempenhos dos atores.

O enredo é muito simples. A já citada trapaça, em que Hooker e mais dois comparsas esvaziam os bolsos do capanga de um chefão mafioso (Robert Shaw), termina em tragédia. Com a morte de seu mentor, Hooker segue um conselho recebido da própria vítima, pouco antes de morrer, e se alia a outro trapaceiro veterano (Paul Newman), com quem decide executar um plano complexo e cheio de detalhes para depenar o mesmo gângster que eliminou o velho parceiro. Se tudo der certo, eles não apenas conseguirão uma doce vingança, mas terminarão com os bolsos cheios. Quase todo o longa-metragem é dedicado à paciente execução do plano, que a platéia não conhece inteiramente.

George Roy Hill e David Ward também foram espertos o suficiente para incluir, na trama, pelo menos um elemento imprevisível, na pele do detetive enganado por Hooker que também está em busca de vingança. O sujeito violento é o grande enigma da equação, e precisa ser evitado a todo custo. Embora cada detalhe do plano possa estar dando certo, a partir do momento em que ele entra em cena tudo se equilibra sobre uma corda bamba. Na narrativa, porém, nada desanda, e o cineasta logra alcançar alto grau de alquimia entre tensão e bom-humor. Há uma penca de cenas antológicas, incluindo um jogo de pôquer cheio de suspense dentro de um trem, a hilariante “visita” dos trapaceiros a um escritório da Receita Federal norte-americana e, claro, o clímax impecável. “Golpe de Mestre” é do tempo em que diversão despretensiosa não significava tramas displicentes e uma tonelada de clichês narrativos. Belo filme.

O DVD nacional é simples e carrega o selo da Universal. O enquadramento original (widescreen 1.85:1 anamórfico) é preservado, e o áudio tem seis canais (Dolby Digital 5.1). O disco contém ainda um documentário enfocando os bastidores da produção.

– Golpe de Mestre (The Sting, EUA, 1973)
Direção: George Roy Hill
Elenco: Robert Redford, Paul Newman, Robert Shaw, Charles Durning
Duração: 129 minutos

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