Gomorra

27/03/2009 | Categoria: Críticas

Filme-mosaico de Matteo Garrone usa urgência documental para narrar cinco histórias paralelas que mostram a eficiência assustadoramente violenta da Camorra

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

Todo mundo que lia jornais ou via televisão na década de 1990 se lembra da Operação Mãos Limpas. A investigação, que uma força-tarefa de policiais, juízes e promotores levou a cabo na Itália, botou na cadeia mais de 300 empresários e figuras governamentais de alto escalão. A operação esvaziou o poder secular da Cosa Nostra, a temida organização mafiosa sediada na Sicília. O que pouca gente sabe – ou sabia, até o lançamento do livro-reportagem “Gomorra”, do jornalista Roberto Saviano, em 2006 – é que o vazio deixado pela romântica máfia siciliana foi preenchida, silenciosamente, por outra organização criminosa, muito mais cruel. A Camorra, cuja sede fica em Nápoles, tem igual quilate, mas opera de forma muito mais violenta e amoral. Esta é a principal lição deixada pelo longa-metragem ficcional de Matteo Garrone.

O trocadilho presente no título de “Gomorra” (Itália, 2008) dá uma boa idéia de como funciona a Camorra. A organização, cujos tentáculos parecem não ver limites, atua em quase todos os segmentos da sociedade organizada (e também da desorganizada, claro). Seus métodos são impessoais. Ela põe em prática, em proporções assustadoras, a máxima neoliberal da eficiência a todo custo – aumentar a margem de lucro é o único objetivo, que deve ser alcançado sem que se meça esforços. O resultado de uma vida sob essas condições é, evidentemente, de absoluta decadência física e moral, assim como deveria ser na cidade do Velho Testamento, destruída pela ira divina. A partir de uma estética rústica e documental, o filme de Matteo Garrone sugere que a Camorra cumpre, no território napolitano, o mesmo papel exercido pelo Deus bíblico: o vértice principal de uma destruição inexorável, que virá dos intestinos da própria civilização.

O longa-metragem de Garrone adota o formato narrativo do filme-mosaico, já utilizado em trabalhos como “Traffic”, de Steven Soderbegh, e “Syriana”, de Stephen Gagham. Todas essas obram narram histórias paralelas que se entrecruzam com o objetivo de oferecer ao espectador um panorama geral da complexa relação de forças estabelecida em torno de seu eixo temático (a Camorra, as drogas e o petróleo, respectivamente). “Gomorra” tem também uma pronunciada veia social, mantendo o tom urgente de denúncia que caracterizou sucessos cinematográficos como “Cidade de Deus”. O título italiano, porém, não flerta com o entretenimento e tampouco com o humor, como no caso brasileiro. Tampouco está muito interessado na dinâmica narrativa do roteiro (ou seja, não se esforça para estabelecer com clareza as ligações entre as cinco histórias narradas, algo evidente nas produções norte-americanas). A denúncia social está acima de todas as outras preocupações do diretor, sejam elas estéticas ou narrativas.

Esta característica, por outro lado, favorece o naturalismo documental perseguido pela equipe criativa. Afinal de contas, como Saviano esclarece no livro, nenhum integrante da Camorra, nem mesmo os chefões, tem consciência de todas as ramificações infiltradas pela organização. Deste modo, ninguém consegue compreender o mapa completo de ações que carregam a marca da organização, um ponto de vista desorientador que é compartilhado por todos os personagens. Todas as cinco histórias escolhidas pelo diretor, aliás, mesclam com perfeição elementos trágicos com a decadência social. Há o executivo que usa uma pedreira para esconder lixo tóxico (sem dar bola para os efeitos danosos que a ação terá para a população vizinha), o tesoureiro que se imagina fora da luta de gangues travada na periferia da cidade, o adolescente que deseja se tornar mafioso, o costureiro que dá aulas para rivais chineses para poder faturar uns trocados a mais.

A mais dramática das histórias, aquela que encapsula melhor a tragédia da Camorra, mostra dois jovens violentos que sonham, muito hollywoodianamente, com uma vida de crimes glamourosos típicos da Cosa Nostra, cujo tempo já passou. Não é à toa que o drama vivido por ambos encerra o longa-metragem com uma nota surda e lancinante de dor. O destino dos rapazes mostra bem como funciona o lado prático da nova máfia italiana: quem não adere à causa criminosa, seja pela própria vontade ou por mera resignação, é engolido por ela, seja no bom ou no mau sentido. Já através de personagens como o costureiro e o tesoureiro, ambos envolvidos em conflitos íntimos hercúleos, “Gomorra” consegue escapar ao rótulo limitador de “filme social” e roçar os melhores estudos de personagem. Trata-se de um filme bem completo.

Para filmar o conjunto de histórias trágicas, Matteo Garrone optou pela estética documental de tintas neo-realistas. A fotografia é suja, feia, com cenas freqüentemente iluminadas exclusivamente por luz natural, o que deixa as faces dos personagens às escuras. A câmera, operada manualmente, segue a ação sem se preocupar com enquadramento ou composição visual; o áudio é captado de forma direta, sem muitos retoques de estúdio, o que contribui para o clima geral de urgência e tensão. Garrone conseguiu, inclusive, filmar todo o longa-metragem na periferia de Nápoles, em locações reais, muitas vezes usando moradores da região como figurantes e deixando que os atores usem seus próprios nomes – a técnica neo-realista, também usada em “Cidade de Deus”, ajuda a amplificar a verossimilhança. O resultado, ganhador do grande prêmio do Júri em Cannes e indicado pela Itália ao Oscar de melhor filme estrangeiro de 2009, é um trabalho de inegável força político-social. Em cinema, isto é tão raro quanto bom.

O DVD de locação da Paris é simples, respeita o enquadramento original (widescreen) e traz áudio em seis canais (Dolby Digital 5.1), mas sem extras dignos de nota.

– Gomorra (Itália, 2008)
Direção: Matteo Garrone
Elenco: Salvatore Abruzzese, Simone Sacchettino, Salvatore Ruocco, Vincenzo Fabricino
Duração: 137 minutos

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