Gran Torino

14/07/2009 | Categoria: Críticas

Melodrama bem parecido com “Menina de Ouro” é legítimo exemplar do cinema simples, honesto e emocionante com que Eastwood tem brindado o público cinéfilo em 40 anos de cinema

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

O título do filme sugere algum tipo de longa-metragem baseado em games eletrônicos de corridas de automóvel. Quem imagina isso, aliás, não está totalmente errado, já que “Gran Torino” (EUA, 2008) é mesmo um lendário modelo de carango envenenado, da Ford, que fez muito sucesso na década de 1970 e continua sendo venerado por colecionadores de carros antigos. Mas a função narrativa do veículo, dentro do melodrama de Clint Eastwood, não tem nada a ver com estradas. Ele funciona como dupla metáfora visual. Dentro do mundo ficcional, é o objeto que define a personalidade de Walt Kowalski (Eastwood), veterano ranzinza que odeia o mundo e protagoniza a história. Na vida real, reúne atributos que personificam a própria carreira do astro e diretor – clássico, eficiente, robusto e dinâmico, apesar da idade – e definem muito bem o filme em si.

Vale a pena relembrar, mais uma vez, a surpreendente trajetória de Eastwood, um ator mediano de faroestes e policiais violentos que migrou para a direção, nos anos 1970, e construiu uma obra sólida e diversificada como poucos artistas de sua geração. Há pelo menos duas décadas, Clint vem filmando com uma rapidez impressionante (às vezes até dois títulos por ano, como aconteceu em 2008, quando o astro completou 78 anos de idade), quase sempre filmes de qualidade superior à média, alguns deles verdadeiras obras-primas. Além disso, nenhum outro cineasta reexaminou criticamente a própria carreira – e a própria vida, por que não? – com a mesma serenidade esboçada por ele. “Gran Torino” é um legítimo exemplar do cinema simples, honesto e emocionante com que Eastwood tem brindado o público cinéfilo em 40 anos de cinema.

“Gran Torino” apresenta vários dos temas centrais da obra tardia de Clint Eastwood. Espectadores mais atentos irão perceber grande semelhança com o premiado “Menina de Ouro” (2004). Os dois filmes têm como eixo central uma relação inusitada de amizade (como uma paternidade não-sanguínea) entre um homem velho e desiludido, interpretado pelo próprio diretor, e um jovem incompreendido pelos familiares. Em “Gran Torino”, contudo, há uma inversão de papéis. Aqui, o protagonista é o idoso, e não o jovem, como aconteceu no longa-metragem vencedor do Oscar de melhor filme em 2005. O personagem de Eastwood é basicamente uma variação do treinador de boxe de “Menina de Ouro”: um sujeito antiquado, solitário, misantropo, que ergueu uma barreira entre si e o mundo – uma barreira derrubada pelo mais improvável dos personagens (no caso, um descendente de asiáticos), com quem acaba por construir uma relação genuína de pai e filho, que ele usa como acerto de contas com os traumas do passado.

Mais uma vez, trata-se de um melodrama. Boa parte da assombrosa rapidez com que Eastwood trabalha tem a ver com a repetição sistemática dos membros da equipe criativa (isso economiza tempo nos sets, já que todos se conhecem), mas reflete sobretudo a maneira clássica, simples e despojada como o cineasta filma: câmera de movimentos sóbrios e elegantes, planos gerais, tomadas longas, cortes secos que valorizam a idéia de continuidade. Os personagens coadjuvantes, como em todo bom melodrama, quase sempre são rascunhados sem muito cuidado, de forma que a narrativa não perca muito tempo com detalhes sem importância, e se concentre na dinâmica da relação central entre o Seu Lunga do meio-oeste americano e o rapaz de ascendência coreana (Bee Vang) que, sob pressão da família, não sabe direito o que fazer da vida.

Dê uma boa olhada na maneira como Eastwood usa o primeiro ato para construir a personalidade de seu protagonista: através de ações, não de palavras, e com a ajuda valiosa da direção de arte. Walt Kowalski é um veterano da guerra da Coréia, um típico habitante da região mais conservadora dos EUA. Tem uma casa com garagem ampla e recheada de ferramentas, bandeiras americanas espalhadas por todos os cômodos e um carro vintage que quase nunca sai da toca, é tratado como bebê e vira objeto de cobiça de toda a vizinhança. Misógeno de carteirinha, Walt não se dá bem com os filhos, e nem se importa muito com isso. Seu programa favorito é sentar na varanda com uma caixa de cervejas e ficar bêbado, enquanto grunhe para qualquer um que passe perto do gramado bem aparado.

O carro é o elemento que o aproxima da família de imigrantes asiáticos que vive na casa ao lado (o fato de Kowalski ter lutado na Guerra da Coréia, claro, não é coincidência). O cineasta introduz um lamento certeiro sobre a falta de rumo da juventude contemporânea, expia mais uma vez os desacertos familiares que marcaram sua própria história (prestou atenção como os pais, em filmes dele, nunca se dão bem com os filhos interesseiros?) e abre espaço generoso para que os atores se destaquem, com desempenhos sempre naturais e interessantes – e não falo apenas de Bee Vang e Ahney Her, que faz a irmã do garoto, mas também de coadjuvantes como Christopher Carley (o jovem padre) e John Carroll Lynch (o barbeiro, sempre ótimo). O final não chega a ser dos melhores, já que dá para antecipar com certa facilidade o que vai ocorrer a partir do início do terceiro ato, e a semelhança excessiva com “Menina de Ouro” impede o longa de se tornar mais uma obra-prima na carreira de Eastwood. Apesar disso, o trabalho possui o selo legítimo de qualidade que tem marcado a carreira improvável e espetacular deste monumento do cinema norte-americano.

O DVD nacional leva o selo da Warner. Traz o filme com enquadramento correto (widescreen anamórfico), áudio em seis canais (Dolby Digital 5.1) e dois featurettes como extras.

– Gran Torino (EUA, 2008)
Direção: Clint Eastwood
Elenco: Clint Eastwood, Bee Vang, Ahney Her, Christopher Carley
Duração: 116 minutos

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