Grande Família, A

12/11/2007 | Categoria: Críticas

Roteiristas parecem não saber como terminar o filme, mas há humor e boas atuações

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★½☆☆

A aparição de um longa-metragem com os personagens do seriado televisivo “A Grande Família” levanta, mais uma vez, um dos temas prediletos da crítica nacional: as diferenças e aproximações entre as linguagens do cinema e da TV. A questão é pertinente, sem dúvida, mas um tanto anacrônica, e permanece à margem do objetivo primordial da maior parte do público freqüentadores de cinemas (e locadoras): diversão descerebrada. Pois bem: “A Grande Família – O Filme” (Brasil, 2007) pratica exatamente o mesmo tipo de humor que o programa exibe na televisão, acrescido de uma produção mais sofisticada e de uma narrativa não-cronológica. Se isto é algo bom ou ruim, fica a cargo do público decidir.

Obviamente, o filme só funciona para quem curte o programa de TV (um público estimado em 30 milhões de pessoas, e portando enorme). Os personagens são os mesmos, e o enredo não vai muito além de um episódio espichado do programa. Uma das poucas diferenças está no cuidado com a produção, e isto inclui muitas cenas filmadas em locações externas – pela primeira vez, por exemplo, o espectador vai poder ver uma tomada mostrando, inteirinha, a rua (uma ladeira meio curva, típica dos bairros de classe média de São Paulo) onde fica a casa dos personagens principais. Há efeitos especiais e gruas que fazem movimentos de câmera nunca vistos na TV. Mas esse é o tipo de coisa que somente cinéfilos e críticos de cinema vão perceber.

A inovação mais radical aparece na trama, que segue uma narrativa não-cronológica através de uma influência da teoria do caos, algo capaz de soar um tanto exótico para os fãs do programa. A história é centrada sobre Lineu (Marco Nanini), que se sente mal durante o velório de um colega de trabalho e procura um médico para alguns exames. Os primeiros resultados detectam uma mancha num dos pulmões, mas o funcionário público fica com medo e impede o médico de abrir o envelope que dará o diagnóstico preciso. Sentindo-se à beira da cova, ele tenta mudar a forma de se relacionar com Nenê (Marieta Severo), que por sua vez acaba de reencontrar uma paixão de juventude, Carlos (Paulo Betti), agora gerente de um supermercado.

Curiosamente, o diretor Maurício Farias preferiu abandonar a segurança de uma narrativa simples e em ordem cronológica, em favor de uma narrativa não-linear, que retrocede no tempo várias vezes para criar três versões diferentes do que acontece com Lineu após a descoberta do possível tumor no pulmão. Embora esta opção narrativa, mais ousada e incomum, tenha exigido coragem, ela resulta um tanto confusa, sem que exista qualquer tentativa de explicar qual o fenômeno paranormal que permite a Lineu voltar no tempo (seria mera licença poética?). Além disso, percebe-se claramente que os roteiristas Cláudio Paiva e Guel Arraes parecem não saber como terminar o filme, alongando em excesso o segundo ato e tornando o clímax apressado demais.

Um dos motivos para a longa duração é o grande número de personagens. Embora a linha principal da história seja sobre Lineu, todos os membros da família ganham desdobramentos dramáticos secundários: Bebel (Guta Stresser) e Agustinho (Pedro Cardoso) tentam engravidar e brigam de monte, Tuco (Lúcio Mauro Filho) vive o drama da falta de emprego, e Nenê se envolve em triângulo amoroso incomum com o paquera Carlos e a amiga Marilda (Andréa Beltrão). De todos os personagens tradicionais do seriado, apenas Beiçola (Marcos Oliveira) aparece pouco. O tipo de humor é exatamente o mesmo da TV: uma crônica leve da vida no subúrbio, que milita no politicamente correto e jamais tenta tecer qualquer tipo de comentário político ou social sobre a periferia.

De resto, apesar dos problemas, a impressão final é positiva, especialmente porque o elenco, afinadíssimo após anos de atuação em conjunto na TV, dá um show coletivo. Auxiliados pelos diálogos leves e espontâneos, os atores dão a impressão de estarem brincando de interpretar no quintal de casa, e se divertem mais do que a platéia. Embora todos estejam muito bem (a exceção é Pedro Cardoso, meio tom acima do que o necessário), o destaque óbvio vai para Marco Nanini, que compõe um personagem completamente diferente do trabalho cinematográfico anterior (“Irma Vap”), muito mais contido, e mais uma vez se sai excepcionalmente bem. Pense da seguinte maneira: “A Grande Família” não tem nenhuma outra intenção que não seja fazer o público desopilar durante duas horas, e cumpre bem este objetivo. Só isso.

O DVD de locação da Europa traz o filme com boa qualidade de imagem (widescreen letterboxed) e áudio (Dolby Digital 5.1), mas sem extras. Já a edição especial é dupla, com um DVD só de extras. Há making of, entrevistas com diretor e elenco e cenas cortadas, além de uma versão em mp4, para tocadores em miniatura, como o iPod.

– A Grande Família (Brasil, 2007)
Direção: Maurício Farias
Elenco: Marco Nanini, Marieta Severo, Pedro Cardoso, Andréa Beltrão
Duração: 104 minutos

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