Grande Garoto, Um

30/01/2004 | Categoria: Críticas

‘Todo homem é uma ilha’? Jon Bon Jovi vira filósofo na engraçada adaptação do melhor livro de Nick Hornby

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

O que você pensaria de um sujeito, à beira dos 40 anos, que carrega como epígrafe uma frase medíocre (“todo homem é uma ilha”) proferida pelo filósofo, artista e pensador contemporâneo Jon Bon Jovi? No mínimo, que o cara é vazio até a medula. O interessante, nesse caso, é que o sujeito em questão sabe disso e não está nem aí. O protagonista de “Um Grande Garoto” (About a Boy, EUA/Inglaterra, 2002) é um personagem literário que personifica muito bem a geração 90. Por isso, é gratificante poder vê-lo no cinema.

Will Freeman pode ser considerado uma espécie de síntese de toda a obra do cultuado escritor inglês Nick Hornby, autor de “Alta Fidelidade”. Ele personifica a “síndrome de Peter Pan”, que é o conceito básico por trás do pensamento do autor. Will (perceba o anagrama do sobrenome: Free + Man, ou ‘homem livre’, em inglês) é um sujeito razoavelmente inteligente, que vive em situação financeira confortável. Um cara comum. A diferença é que ele prefere cortar pela raiz todos os tipos de ligações humanas e permanecer numa espécie de infância simbólica. Basicamente, um adolescente crescido, ligado via cordão umbilical à cultura pop. Um perfeito retrato da geração masculina dos anos 90, algo que Hornby sabe fazer muito bem.

A vida de Will é dividida, segundo sua própria filosofia, em “unidades de tempo” que duram meia hora cada. Como nunca precisou trabalhar, já que vive dos direitos autorais de uma famosa canção natalina composta pelo pai, décadas antes, ele se esmera em gastar essas “unidades” não fazendo nada em alto estilo – vê TV, joga sinuca, compra toneladas de discos e revistas. E sai com garotas, claro. Nunca mais de três vezes com a mesma, já que ele de relacionamentos estáveis. Numa desses rolos, ele acaba levando um fora de uma mãe solteira. Aí, imagina que se passar a namorar somente mulheres com filhos pequenos pode se livrar de vez da culpa de sumir sempre depois da terceira saída, porque elas mesmas vão se encarregar de fazer isso.

O grande plano de Will se materializa quando ele passa a freqüentar um clube de mães solteiras. Para isso, ele precisa inventar um filho imaginário. No começo até dá certo – mas só até ele conhecer um certo Marcus (Nicholas Hoult). O guri é outro solitário. Tem doze anos, uma mãe hippie, vegetariana e depressiva, que, na ânsia de lhe manter afastado de modismos, acaba lhe criando como se ele fosse criança em 1970. Como conseqüência, os colegas de sua idade não cansam de ridicularizá-lo pelas roupas ridículas, pela mania de cantar canções antigas como “Killing Me Softly” – enfim, pelas maneiras excêntricas originadas de uma criação equivocada. E o sofrimento amadurece, como se sabe. Por causa disso, Marcus é muito mais adulto do que sua idade supõe.

Já imaginou a trama? Bem, Marcus vai com a cara de Will e gruda nele. Descobre a mentira do filho imaginário e usa a informação como chantagem para se manter sempre por perto. Aos poucos, mesmo contra a vontade do solteirão, uma espécie de amizade vai nascendo entre os dois. Nessa relação está o maior acerto do livro de Nick Hornby. Não é preciso mais do que algumas páginas para que o leitor perceba o truque do autor, ao contrapor um paradoxo interessante: o espírito maduro de Marcus, mesmo dentro de uma lógica dedutiva infantil, e a recusa de Will em crescer, apesar dos recursos lógicos sofisticados. Temos então um embate entre uma criança adulta e um adulto criança. Um retrato simbólico dos dias de hoje. “Um Grande Garoto”, diga-se, é o melhor livro de Hornby.

O grande charme do romance acaba um pouco diluído na trama. Ocorre que o roteiro demora demais a unir Will e Marcus – quando isso acontece, a trama apenas segue em frente, sem explorar as deliciosas contradições da simbólica relação. Em troca de explorar os meandros da situação, os diretores Paul e Chris Weitz preferem abrir espaço para piadas e situações engraçadas (como uma certa cena em que Will janta com uma amiga, num restaurante chique, e recebe uma nada gentil visita) que não acrescentam nada ao roteiro. Esse é o tipo de atitude que se espera nas comédias atuais: atenção exclusiva na trama e desleixo pelo desenvolvimento de personagens.

Por outro lado, os cineastas acertam a mão ao limar do enredo as dezenas de referências pop, que quase atrapalham a fluência narrativa da obra de Hornby. Isso interfere radicalmente na conclusão da história, que no livro envolve a morte de Kurt Cobain (no filme, não há sequer referências ao Nirvana). A decisão – que certamente vai desagradar fãs normais de Hornby – acaba se mostrando inteligente, pois retira o filme do gueto pop, que obriga os espectadores a conhecer um tipo de música que pouca gente – basicamente adolescentes e caras como Will – ouve.

Outro acerto é o afeto que os diretores demonstram em relação aos personagens. A dupla tira da manga uma sensibilidade insuspeita, pouco (ou nada) presente na obra anterior deles, a grotesca comédia “American Pie”. Eles também mostram firmeza na direção de atores, arrancando de Hugh Grant uma boa atuação (finalmente!) e confirmando que Toni Collette tem mais talento do que demonstrava em “O Sexto Sentido” (aliás, há uma private joke, uma piada escondida engraçadíssima, que envolve o pirralho-prodígio Haley Joel Osment, mas você precisa reconhecer Collette para achar o diálogo engraçado). Hoult, que faz Marcus, também se sai bem. Apesar do final decepcionantemente óbvio, temos uma comédia sensível, leve, que expõe problemas atualíssimos da sociedade contemporânea e, mesmo assim, consegue mostrar afeto por ela.

Quanto ao DVD nacional, possui alguns extras bem interessantes. Há sete cenas cortadas, totalizando 14 minutos de imagens inéditas, e um pequeno documentário de 11 minutos sobre as filmagens, além de clipes de Badly Drawn Boy (o elogiado autor da trilha sonora) e de uma entrevista com o próprio. Além disso, os diretores contribuem com um comentário em áudio.

– Um Grande Garoto (About a Boy, EUA/Inglaterra, 2002)
Direção: Paul e Chris Weitz
Elenco: Hugh Grant, Toni Collette, Rachel Weisz
Duração: 101 minutos

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