Grande Golpe, O

20/03/2006 | Categoria: Críticas

Segundo longa-metragem de Stanley Kubrick é filme de roubo antológico

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

O segundo longa-metragem da carreira de Stanley Kubrick é, de forma quase unânime, considerado o primeiro grande filme que dirigiu. A produção B de US$ 320 mil, mesmo tendo sofrido com a interferência da Universal e tendo sido desprezado pelo estúdio depois de pronto, com um lançamento obscuro, chamou a atenção dos grandes estúdios de Hollywood e pôs o nome de Kubrick no mapa, transformando-o no homem que todos os bons produtores queriam ter trabalhando consigo. É fácil entender por que: “O Grande Golpe” (The Killing, EUA, 1956) é um trabalho ágil e inteligente, verdadeiro precursor do subgênero dos filmes de roubo, que fariam a fama de diretores como David Mamet e Quentin Tarantino.

De fato, não é preciso muito esforço para perceber o quanto o filme de Kubrick exerceu de influência da estréia de Tarantino, “Cães de Aluguel” (1992). Além de enfocar o antes, o durante e o depois de um roubo, o futuro diretor de “Laranja Mecânica” se esmerou em contar essa história com a cronologia embaralhada, indo e voltando no tempo. A princípio complicada, mas sempre sedutora e intrigante, a trama vai aos poucos se tornando mais clara, como um quebra-cabeça que vai sendo completado sem pressa, e acaba revelando um plano engenhoso, onde cada elemento tem sua função no todo, que não pode prescindir de nada para funcionar.

O mentor do plano criminoso é o ex-presidiário Johnny Clay (Sterling Hayden). Após uma temporada de cinco anos na prisão de Alcatraz (San Francisco), o sujeito está convencido de que, se é para roubar e se arriscar a ser preso, é melhor mirar alto e tomar cuidado. Por isso, bola uma operação intrincada para roubar o dinheiro apurado em um dia de gala no Hipódromo, quando as apostas nos cavalos podem render uma bolada de mais de US$ 2 milhões. O único senão é que o plano exige a participação de seis ladrões, além de dois criminosos “terceirizados”, contratados para desempenhar tarefas específicas.

Acompanhar o plano de desenrolando é puro deleite cinéfilo. É um prazer, de fato, observar como cada peça vai se encaixando no quebra-cabeça. Kubrick ainda reservou para o espectador um elemento extra, a cereja no topo do bolo, advinda dos filmes noir tão em voga na época da produção do filme: a participação de uma mulher fatal (Marie Windsor), companheira de um dos ladrões envolvidos, que pode jogar tudo por água abaixo por ambição. Ela é o elemento não previsto no plano, aquele detalhe inesperado que pode jogar toda a estratégia minuciosa por água abaixo. Cada bandido funciona como uma peça na engrenagem de um relógio, e uma peça a mais ou fora do lugar – como a dama fatal – pode estragar todo o resto.

Desse modo, Kubrick nos brinda com detalhes antológicos, como a máscara utilizada por Johnny para esconder a verdadeira identidade, que seria copiada por dezenas de filmes posteriores, a exemplo de “Caçadores de Emoção” (1991), e a ferradura que, despretensiosamente, acaba desempenhando um papel pequeno, mas importante, no plano. Como se não bastasse, o final é uma pérola de humor negro. A lamentar apenas a narração em off (cuja voz não pertence a nenhum personagem e, por isso, soa deslocada), introduzida por exigência do estúdio após a montagem final, e renegada por Kubrick.

O DVD brasileiro é da Fox. O disco é simples e contém apenas um trailer como extra, mas compensa isso trazendo o filme com o enquadramento original (1.33:1, em tela cheia) e som de boa qualidade (Dolby Digital 1.0).

– O Grande Golpe (The Killing, EUA, 1956)
Direção: Stanley Kubrick
Elenco: Sterling Hayden, Marie Windsor, Elisha Cook, Marvin Unger
Duração: 85 minutos

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