Grande Lebowski, O

05/12/2006 | Categoria: Críticas

Comédia noir cheia de irreverência e trama surpreendente é grande exercício de cinema

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★½

A crítica internacional parece ter uma tremenda dificuldade em analisar, classificar e rotular a obra dos irmãos Joel e Ethan Coen. É fato concreto e unânime que os dois estão entre os autores mais criativos e pessoais do cinema norte-americano, mas eles fazem filmes tão diferentes, tão oníricos, tão irreverentes que muita gente não consegue captar a essência dessas obras. Daí as apressadas classificações de “filme menor” que são atadas a comédias brilhantes como “O Grande Lebowski” (The Big Lebowski, EUA, 1998), um dos filmes mais engraçados e surpreendentes dos Coen.

Quando alinhado à obra prévia dos Coen, “O Grande Lebowski” demonstra uma coerência temática admirável. O filme, como quase todos os dirigidos por Joel (e produzidos por Ethan, e roteirizados por ambos), traz um protagonista inicialmente envolvido em uma pequena confusão que, ao tentar resolvê-la, termina por disparar uma sucessão inacreditável de situações irreversíveis que levam o caso a extremos completamente originais e surpreendentes. “Fargo” era assim, “O Homem Que Não Estava Lá” também, e até “Barton Fink”, que não aborda diretamente a idéia de um crime ter sido, ou estar sendo, cometido, como nos outros casos.

Jeff Lebowski (Jeff Bridges) é o protagonista. Ele é um hippie barrigudo, cabeludo e quarentão cuja vida se resume a meia dúzia de pequenos prazeres: fumar maconha, tomar cerveja, jogar boliche com os amigos. Ele faz bicos para sobreviver e mora em um pequeno apartamento à beira-mar, sem ligar para prestações atrasadas. É o tipo de sujeito que horroriza qualquer um que use gravata para trabalhar, mas que secretamente invejamos pela postura blasé diante da sociedade. O tipo de cara para quem os grandes problemas do dia-a-dia de gente comum, como eu e você (pagar o aluguel, trocar o carro, consertar o ar-condicionado), não significa nada. “The Dude” (ou “O Cara”), como é conhecido pelos amigos, é um cara largadão, que vive de chinelos e bermudas, e não está nem aí para o que pensam dele.

O acontecimento que dispara o “efeito dominó” sobre a vida do nosso herói é a invasão do apartamento dele por dois ladrões. Os sujeitos o confundem com um homônimo multimilionário morador da praia de Pasadena, entram no apê, bagunçam tudo e, crime dos crimes, urinam no tapete da sala. Aí já é demais para Jeff: roubar tudo bem, mas estragar o tapete que é parte essencial da decoração da sua casa não dá. Ele decide arrumar dinheiro para comprar outro tapete, e acha que talvez o “grande Lebowski”, verdadeiro alvo dos criminosos, possa pagar por isso. Terá a ajuda de dois amigos íntimos, o veterano de guerra Walter (John Goodman, excepcional e hilariante) e o meio idiota Donnie (Steve Buscemi).

A jornada para conseguir um novo tapete tem tudo o que um amante de bom cinema deseja: lances desconcertantes, cenas hilariantes de comédia refinada (ou não) e até delírios da mente cheia de fumaça de “The Dude”, delírios que geralmente envolvem boliche e o uso de câmera lenta. Joel e Ethan Coen afirmam que “O Grande Lebowski” é uma tentativa de criar uma comédia noir (quem conhece a obra dos dois sabe que eles têm obsessão pelo estilo) ambientada nos dias de hoje. Eles conseguem. O filme é engraçadíssimo, tem uma trilha sonora de primeira qualidade e delírios visuais impagáveis, além de interpretações uniformemente boas, que ficam no limite entre a paródia e a comédia pastelão.

“O Grande Lebowski” é um trabalho de quem possui controle absoluto sobre sua criação. Autores com menos habilidade ou confiança no que estão fazendo jamais conseguiriam desenvolver roteiros tão seguros, que jamais derrapam para a obviedade. Você chamaria de refinado um texto que contém nada menos do que 281 vezes a palavra “fuck”? Não? Pois acredite: “O Grande Lebowski” é, sim, um dos roteiros mais refinados dos irmãos Coen, porque trabalha uma coleção de personagens improváveis, e reúne uma grande quantidade de cenas aparentemente impossíveis de serem ligadas, em um todo fluído que é comédia da mais alta qualidade.

O longa-metragem é um lançamento da Universal. O filme mantém a proporção original de de imagem (widescreen 1.85:1 anamórfico) e trilha de áudio em formato Dolby Digital 5.1. Os extras são uma introdução narrada por um personagem fictício (5 minutos), uma galeria de fotos tirada pelo ator Jeff Bridges (4 minutos) e um documentário de bastidores (24 minutos).

– O Grande Lebowski (The Big Lebowski, EUA, 1998)
Direção: Joel Coen
Elenco: Jeff Bridges, John Goodman, Steve Buscemi, Julianne Moore
Duração: 117 minutos

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