Grande Truque, O

03/04/2007 | Categoria: Críticas

Christopher Nolan cria elegante mistura de suspense com drama de época, que funciona como estudo sobre obsessão e número de mágica

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

O paralelo entre cinema e mágica não é novidade. O cineasta, a seu modo, é de certa forma um prestidigitador, pois manipula os elementos do filme (som, música, cor, enquadramento, atores) de forma a conduzir os olhos do público para aquilo que deseja que a platéia veja. O maior mérito de “O Grande Truque” (The Prestige, EUA, 2006), ambiciosa mistura de suspense e drama de época dirigida pelo inglês Christopher Nolan (“Amnésia”, “Batman Begins”), é reafirmar que os diretores de talento também dominam perfeitamente a essência do sucesso de qualquer bom mágico: saber identificar o momento certo de desviar o olhar do público para longe daquilo que realmente interessa, para depois surpreendê-lo com surpresas e reviravoltas intrincadas. De quebra, Nolan ainda realiza um bom estudo de personagens.

Em uma análise inicial (mas não necessariamente superficial), o tema de “O Grande Truque” é a obsessão. Não é um tema novo para o diretor, que costuma construir seus protagonistas como homens que perseguem objetivos de forma sistemática e inabalável. Em pelo menos dois momentos importantes do longa-metragem, personagens mais velhos e experientes discorrem longamente sobre as virtudes e os perigos da obsessão, para os dois protagonistas. O ângulo pelo qual estes homens analisam o tema favorito do diretor é idêntico: quando controlada, a obsessão é capaz de impulsionar a vida de alguém a um novo patamar. Quando a pessoa perde o controle sobre este impulso, porém, a obsessão se torna negativa, pois capaz de destruir as vidas tanto do homem em questão quanto das pessoas que o rodeiam.

Os dois protagonistas de “O Grande Truque” conhecem bem tanto a arte da mágica quanto a tendência à obsessão. Rupert Angier (Hugh Jackman) e Alfred Borden (Christian Bale) são dois ambiciosos mágicos profissionais que, na virada do século XIX para o XX, em plena Inglaterra vitoriana, disputam a supremacia na profissão. Amigos no princípio, os dois logo se tornam adversários que, aos poucos, enveredam por uma obsessiva disputa pela mágica perfeita, com resultados trágicos para ambos. Nolan filma com destreza as duas jornadas paralelas, rumo à autodestruição, de homens que perderam o foco daquilo que os transformou em mágicos respeitados. Em certo momento, o que move os dois não é mais o amor pela profissão, a mágica em si, mas a necessidade esmagadora de derrotar o adversário.

Dentro deste cenário de tensão permanente, Christopher Nolan encontra espaço para o drama, ao desenvolver dois ótimos personagens. Angier e Borden são dois indivíduos de natureza bem distinta. Borden, de origem humilde, é mais talentoso e ambicioso, e tem a obsessão pela mágica entranhada no sangue. Ao observar um velho mágico chinês encantar o público de um teatro lotado com um truque envolvendo um peixinho dourado, ele se dá conta logo cedo que o sucesso profissional vai cobrar dele um alto preço na vida pessoal. Angier, de origem aristocrática, é levado à obsessão por outros caminhos. Inicialmente afável, ele se torna um homem amargo e vingativo após uma tragédia pessoal que atribui a Borden. Lentamente, os adversários – espelhos um do outro – se tornam inimigos, passando a viver em função da derrota do outro. No processo, sofrem perdas pessoais de tamanho considerável. Em resumo, renunciam às vidas pela obsessão.

Embora carregado de poderosas imagens simbólicas – o plano de abertura, que mais tarde vai se revelar muito importante na solução do mistério que sustenta a narrativa, mostra um bosque repleto de cartolas negras – o longa-metragem ilustra bem o estilo um diretor mais hábil na construção de uma narrativa intrincada do que de uma atmosfera de mistério e decadência moral. Culpa da trama complexa e não-linear, que vai e volta no tempo indistintamente, embaralhando presente, passado e futuro de maneira bastante hábil e fluida. O resultado é muito bom, embora possa fundir a cuca dos espectadores menos atentos, que poderão experimentar uma sensação interessante (incômoda para alguns, fascinante para outros) de não saber direito para onde o filme está indo.

A aparição do músico David Bowie, no papel de um cientista que realiza experiências com energia elétrica, quase põe tudo a perder, ao sinalizar uma guinada rumo a uma trama de ficção científica que mais parece pertencer a um filme B de horror do que a um elegante drama/thriller de época. Felizmente, “O Grande Truque” apenas flerta com esta vertente científica, já que o coração da história continua sendo a disputa – e as conseqüências cada vez mais trágicas – entre os dois personagens principais, interpretados com garra por dois dos atores jovens mais talentos da Hollywood contemporânea. Scarlett Johansson, como uma assistente e amante de ambos, decepciona, parecendo sem alma e desinteressada pelo papel.

O lance de gênio de Christopher Nolan, sinalizado com discrição durante todo o filme, é escancarado após uma série de reviravoltas surpreendentes durante o terceiro e último ato da história. Nesta parte final, fica evidente que o maior objetivo do diretor, mais até do que fazer um estudo sobre a obsessão, é realizar um filme sobre mágica que seja, em si mesmo, um grandioso número cinematográfico de prestidigitação. Quando a enigmática última tomada de “O Grande Truque” dá lugar aos créditos, mesmo o espectador mais atento terá dúvidas sobre o mecanismo utilizado por Nolan para a mágica dar certo. E ela dá. A esta altura, o filme já nos ensinou que os melhores truques não precisam de explicação. E “O Grande Truque” funciona. É o que interessa.

O DVD da Warner traz, como extras, dois featurettes sobre a produção. O filme em si aparece com boa qualidade de imagem (wide anamórfico) e áudio (Dolby Digital 5.1).

– O Grande Truque (The Prestige, EUA, 2006)
Direção: Christopher Nolan
Elenco: Christian Bale, Hugh Jackman, Michael Caine, Scarlett Johansson
Duração: 133 minutos

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