Grindhouse

31/05/2007 | Categoria: Críticas

Experiência de ver o projeto completo, com trailers falsos e dois longas consecutivos, é sensacional

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

A melhor maneira de entender “Grindhouse” (EUA, 2007) não é encarando o projeto de Robert Rodriguez e Quentin Tarantino como um filme, mas sim como brincadeira multimídia que tenta simular a experiência cinematográfica singular, e já extinta, de passar um dia numa dessas salas de projeção que levam o mesmo título. Este texto não busca oferecer uma crítica detalhada dos dois longas-metragens que constituem a principal parte do projeto. O objetivo é comentar a experiência completa. Para ler as críticas de “Planeta Terror” e “Prova de Morte”, clique nos respectivos links disponíveis no final da página.

As chamadas grindhouses (em português, algo como “casas de pegação”) eram teatros vagabundos que proliferaram, durante os anos 1970, em bairros de periferia, nas grandes metrópoles dos EUA. A especialidade dessas salas, ou às vezes drive-ins onde os casais estacionavam os carros para ver filmes e namorar, era oferecer ao espectador uma programação completa, que ocupasse uma tarde (ou noite) inteira. Isso incluía dois ou três filmes de longa-metragem, intercalados por trailers e comerciais. O público entrava e não tinha hora para sair. Era possível fumar, beber, passear pela sala, comprar lanches, tirar sarro com a namorada ou o namorado, até mesmo procurar quem estivesse a fim de uma transa rápida no escuro.

Os filmes exibidos nesses lugares não vinham de grandes estúdios. Eram obras produzidas de forma independente, com baixíssimo orçamento e qualidade artística duvidosa. Tinham muito sangue, perseguições de carro, lutas de caratê, tiroteios, palavrões, gírias, sexo quase explícito e mulheres peladas. Muitos cinéfilos que entraram no século XXI na casa dos 30 ou 40 anos – caso tanto de Rodriguez quanto Tarantino – foram iniciados na cinefilia freqüentando esses lugares. Fica fácil entender, portanto, o real interesse dos dois cineastas famosos: simular o tipo de experiência que despertou neles o amor pelo cinema, e no processo acordar, ainda que por alguns instantes, a criança adormecida dentro de deles (e dos membros da platéia).

Ao contrário do que se pensa, porém, o fenômeno das grindhouses não é algo exclusivo dos Estados Unidos. Naquela mesma época, no Brasil, os cinemas de bairro ofereciam experiências bem semelhantes. Era possível, em muitos lugares, comprar uma entrada e passar o dia inteiro dentro do cinema, assistindo a diversas sessões em seqüência. O tipo de filme exibido também se parecia. Naquela época, convém lembrar, a produção brasileira de pornochanchadas – espécies de pornôs softcore, com muitos seios e bundas à mostra – era abundante, bem como comédias populares e aventuras infanto-juvenis. Filmes estrangeiros de kung fu também tinham espaço nessas salas.

Um exemplo pessoal? Naquela época, com seis ou oito anos (nasci em 1972), eu morava no bairro da Boa Vista (Recife, Pernambuco) e ia direto num cinema ao final da avenida onde morava. O lugar depois virou supermercado. A empregada lá de casa namorava o porteiro do lugar, e ele me deixava passar o dia todo lá dentro, sem pagar. Vi um monte de filmes dos Trapalhões e de Mazzaropi naquele lugar, alguns assistidos duas ou três vezes seguidas. Fazia isso, claro, depois de voltar do colégio, no começo da tarde. À noite, a programação abria espaço para as chanchadas e os meninos davam vez à turma adulta. Minha empregada, por exemplo, ia namorar lá dentro. Naquele tempo, o Recife tinha até mesmo um drive-in, no bairro de Joana Bezerra, onde se podia ver os filmes dentro do carro. Uma viaduto foi inaugurado lá e o drive-in fechou.

É inevitável: todo mundo que foi criado freqüentando esse tipo de cinema cria uma empatia imediata por “Grindhouse”. Além disso, o esmero de Rodriguez e Tarantino em recriar a experiência foi enorme, e revela o carinho dos dois pelo projeto. Eles convidaram cineastas amigos para filmar trailers falsos, incluíram um comercial de lanchonete (também falso), submeteram os dois longas-metragens a um tratamento digital para simular o efeito das projeções toscas – cópias arranhadas, riscadas, com som chiando e às vezes sem sincronia labial. Os dois longas têm trechos faltando, como se o projecionista desleixado tivesse dado uma saidinha, montando o filme com uma parte faltando.

Os trailers, em particular, merecem um comentário à parte. São quatro, todos dirigidos por cineastas de renome: Rodriguez fez um, e os outros foram feitos por Eli Roth (“O Albergue”), Rob Zombie “(Renegados pelo Diabo”) e Edgar Wright (“Todo Mundo Quase Morto”). Em alguns cinemas dos EUA e do Canadá, as cópias ganharam a adição de um quinto trailer, feito por um fã que ganhou um concurso local. Todos os trailers são hilariantes, com aquelas interpretações afetadas e vinhetas sonoras características dos anos 1970. O melhor de todos, “Thanksgiving”, traz as imagens mais bizarras: uma mulher fazendo sexo oral no namorado decapitado pelo serial killer, e uma cheerleader saltando numa cama elástica e aterrisando diretamente em cima de um facão. Tudo bem grosseiro, no espírito podreira que o projeto se propõe a recriar.

“Grindhouse” é passível de críticas? Com certeza. Há detalhes insignificantes que podem incomodar alguns, como a edição estroboscópica do trailer “Don’t”, que jamais teria saído daquele jeito em 1977 ou 78, antes do surgimento da MTV. Ou os movimentos elegantes da câmera de Robert Rodriguez em “Planeta Terror”. Por outro lado, é inegável que os dois cineastas responsáveis pelo projeto captaram perfeitamente a idéia como um todo. Nem Rodriguez e nem Tarantino fugiram dos respectivos estilos, o que acabaria por gerar produtos falsos, de plástico, material destoante dentro das filmografias de ambos. Não é o caso; ambos filmaram histórias autorais, tratando-as dentro dos limites dos gêneros exibidos nas grindhouses. É por isso que a experiência de assistir a tudo de uma tacada só é tão singular e tão deliciosa. Como no Brasil o combo foi desmembrado nos cinemas, só dá para repetir a experiência em casa. Quer uma dica? Reúna uns amigos, compre cerveja e batata frita e faça uma tremenda farra. Só não vale parar a projeção para ir ao banheiro. Numa grindhouse de verdade isso não podia.

- Grindhouse (EUA, 2007)
Direção: Robert Rodriguez e Quentin Tarantino
Elenco: Rose McGowan, Freddy Rodriguez, Kurt Russell, Zoe Bell
Duração: 192 minutos

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