Grito, O

04/04/2005 | Categoria: Críticas

Diretor japonês dirige pela segunda vez a mesma história, privilegia sustos e esquece enredo

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★☆☆☆☆

O sucesso de “O Chamado” acendeu uma lâmpada de idéias nas cabecinhas dos executivos de Hollywood. Eles devem ter pensado que havia todo um novo mundo de idéias, no mercado de cinema japonês, a ser importado, filtrado através da lógica de mercado norte-americana e reembalado para as platéias ocidentais. Daí a enxurrada de produções dos EUA baseadas em longas-metragens de terror asiático. “O Grito” (The Grudge, EUA, 2004) é a terceira ou quarta obra que segue o esquema em menos de dois anos. E é uma das mais fracas.

Para começar, “O Grito” foi produzido no Japão com o olho grande no mercado internacional. Dessa forma, o diretor e roteirista do filme original, Takashi Shimizu, acabou sendo escolhido para pilotar a refilmagem antes mesmo que o original tivesse sido testado e aprovado pelas platéias asiáticas. E aí veio a primeira aberração: apesar de manter o diretor no comando, a Sony Pictures decidiu contratar o roteirista Stephen Susco para polir (leia-se ocidentalizar) a narrativa, de modo a torná-la mais palatável para o público dos EUA.

O processo terminou por enterrar um projeto que poderia ser interessante. Como se sabe, os cineastas japoneses que se dedicam ao gênero sobrenatural privilegiam a construção meticulosa de uma atmosfera sombria e aterrorizante, em detrimento de enredos complexos. No caso de “O Grito”, Susco optou pela solução mais convencional e lamentável que Hollywood gosta de utilizar: eliminou todas as passagens coerentes, que tentavam explicar e sustentar a trama, preenchendo os buracos com sustos e mais sustos. Ou seja, Susco banaliza o susto pela overdose e ignora algo chamado coerência narrativa, preenchendo o filme com disparates e deixando a história sem a mínima solidez.

O longa-metragem começa com uma cena que dá o tom da narrativa: um homem (Bill Pullman) pulando da varanda do apartamento em que mora, na frente da namorada. Quem é ele? Não se sabe. Por que pulou? Menos ainda. A seqüência só funciona para dar o primeiro susto na platéia. Pelo menos, situa a ação no Japão, uma maneira pouco inspirada de encher a trama com atores dos EUA e fazer com que a língua falada no filme seja o inglês. Mas, mesmo com essa licença poética, há momentos em que o diretor parece esquecer que está no Japão. Em certo momento, por exemplo, a polícia asiática usa a tradicional faixa amarela para isolar o cenário de um crime. A fita tem inscrições em japonês, mas também exige o tradicional “keep out”, Em inglês. Pergunta: porque cargas d´água o uso de inglês no Japão. Trata-se, logicamente, de um objeto cênico falso.

Voltemos à introdução do filme. Há um corte para a segunda cena, e a narrativa passa a acompanhar uma enfermeira japonesa chegando à casa de Emma (Grace Zabrisckie), uma senhora norte-americana doente. A garota arruma algumas coisas, ouve um barulho estranho no sótão, sobe para investigar e… bem, você sabe o que acontece a seguir. A narrativa então salta pela segunda vez, para Karen (Sarah Michelle Gellar), uma outra turista americana, acordando. Karen está na cidade num programa de intercâmbio, embora seja claramente velha demais para isso. Três núcleos de personagens distintos, todos envolvendo turistas, e nenhuma explicação sobre as relações entre eles.

Se o filme construísse essas relações devagar, mas com clareza, não haveria problema. Mas isso não ocorre. Somente no terceiro ato da película, mais de uma hora à frente e já perto do fim, o personagem de Bill Pullman retorna à narrativa. Aí, a platéia descobre que os fatos envolvendo o professor Peter Kirk ocorreram anos antes dos incidentes que envolvem Karen. Em resumo, “O Grito” é narrado no presente, mas faz flashbacks freqüentes sem fornecer ao espectador nenhuma informação a respeito do motivo para que isso aconteça; muitas vezes a gente nem percebe que se trata de um flashback.

Esses retornos ao passado são os momentos mais sem lógica de “O Grito”. Dispensáveis, chatos e inexplicáveis, eles simplesmente não possuem nenhuma função narrativa. Devem estar no longa apenas para dar mais sustos na platéia. Mas o cúmulo mesmo acontece no clímax, quando Karen realiza uma espécie de bizarra viagem no tempo, sem nenhuma explicação e nenhum motivo. Será que a assombração tem o poder de manipular o tempo? O filme não explica. Não sabemos o quão poderoso é o fantasma que assombra Karen. Na verdade, não existe nenhum mistério sobre a origem dos eventos sobrenaturais mostrados em “O Grito”; eles apenas existem, e pronto.

Pode-se argumentar, a favor do filme, que a imagem impactante do fantasma – uma menina com grandes buracos negros no lugar dos olhos e cabelos longos – rende bons sustos. Seria verdade, se essa mesma imagem não fosse roubada de “O Chamado”, onde é utilizada com muito mais economia e eficiência. Uma das cenas, por sinal, deveria ser motivo de processo por plágio. É quando uma câmera de vídeo captura a aparição. O fantasma caminha devagar na direção da câmera, enquanto a imagem treme, some e retorna algumas vezes. É uma cópia sem escrúpulos da cena idêntica de “O Chamado”. Se nesse último a cena assustava, em “O Grito” só dá tédio, porque o espectador já sabe como ela vai terminar. Não há suspense.

Em “O Grito”, o diretor nem sequer alimenta a dúvida sobre a existencia de uma assombração, algo que a maior parte dos filmes de terror faz. O fantasma aparece logo nos primeiros cinco minutos, e continua retornando praticamente a cada período idêntico. Tantas tentativas de dar choques a platéia acabam produzindo exatamente o efeito contrário: esvaziam os sustos, e expõem de maneira evidente a fragilidade do roteiro. Só para completar, o elenco encabeçado por Gellar é fraco e sem inspiração. Bill Pullman, o único ator decente, mal abre a boca.

Como explicar, com todos esses problemas, que o longa-metragem tenha faturado US$ 39 milhões em um final de semana, nos EUA? Tanto sucesso garantiu que uma continuação esteja a caminho. Estaria aí o verdadeiro mistério por trás de “O Grito”? Na verdade, tenho uma teoria sobre o sucessos dessas filmes estúpidos: eles atraem um público muito jovem, que ainda não teve a chance de ver os verdadeiros filmes de terror, aqueles que deixam a gente com medo de apagar a luz, ou de ir no banheiro sozinho. Em resumo, “O Grito” é o tipo de trabalho que tem tudo para ser hit de adolescentes. Mas só funciona para eles.

A Europa Filmes lançou o DVD do filme no Brasil seguindo o rumo natural da distribuidora: formato de tela cheia (com cortes laterais), áudio Dolby Digital 5.1, galeria de entrevistas e cenas de bastidores. Nada especial.

– O Grito (The Grudge, EUA, 2004)
Direção: Takashi Shimizu
Elenco: Sarah Michelle Gellar, Jason Behr, William Mapother, Clea DuVall
Duração: 96 minutos

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