Guardiões da Noite

18/04/2006 | Categoria: Críticas

Filme russo de fantasia mistura vampiros, alta tecnologia e animação para contar história clássica do Bem contra o Mal

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

O cinema de massa do século XXI é uma entidade abstrata que tem suas raízes narrativas e visuais ancoradas em um imaginário coletivo único, construído a partir de Hollywood. Claro que há fenômenos locais interessantes – o estilo passional e metafísico dos filmes do Irã, o cinema atmosférico dos adeptos do horror japonês – mas quando estamos falando de filmes-evento, dos chamados “blockbusters”, a iconografia é uma só. Um aficionado de teorias conspiratórias até poderia pensar que existe apenas uma escola de cinema para diretores de blockbusters em todo o planeta, uma espécie de Hogwarts dos filmes. O russo “Guardiões da Noite” (Nochnoi Dozor, Rússia, 2004) está aí para provar isso mais uma vez.

“Guardiões da Noite” se transformou, em 2004, no longa-metragem russo mais assistido em toda a história do país, mesmo não tendo um único plano/tomada de relação com a clássica e tradicional cinematografia russa de Sergei Eisenstein e Andrei Tarkovski. “Guardiões da Noite” seria o filme que Peter Jackson dirigiria, caso houvesse nascido na terra de Stalin. A comparação com “O Senhor dos Anéis” é tão inevitável que gente boa como Quentin Tarantino e Danny Boyle já a fez antes. Mas dá para ir mais longe: “Guardiões da Noite” é um coquetel de cultura pop que mistura cacos da trilogia de Tolkien com “Matrix” e “Anjos da Noite”, ilustrada por um visual explosivo e juvenil, recheado de efeitos digitais de excelente qualidade.

Explicar a trama do filme de Timur Bekmambetov, que pretende ser a primeira parte de uma trilogia sobre uma milenar luta entre forças do Bem e do Mal, é tarefa árdua. O próprio filme se enrola quando tenta fazê-lo. Basta dizer que a ação, que se passa nos dias atuais, em Moscou, precisa de dois prólogos para dar partida à história – um luxo e, em última instância, um defeito narrativo que a inexperiência do diretor não soube contornar. O primeiro prólogo retorna a mil anos atrás e explica como dois exércitos de forças ocultas, da Luz e das Trevas, entraram numa trégua destinada a ser eterna e baseada na mútua vigilância.

O segundo prólogo relata o nascimento de uma criança especial. Ela poderia ser o Enviado, um ser previsto em uma antiga profecia que teria poder suficiente para desequilibrar a luta entre os dois exércitos. O filme então avança 12 anos e passa a ser narrado do ponto de vista de um guerreiro da Luz, chamado Anton (Konstantin Khabensky). O sujeito provoca, sem querer, uma cisão na trégua entre os dois exércitos milenares, ao atacar um integrante do grupo das Trevas e matá-lo. Ah, falta dizer que a guerra é travada por seres sobre-humanos: vampiros, feiticeiros e transmorfos (ou seja, homens com poder de se transformar em animais).

O primeiro prólogo é puro “O Senhor dos Anéis”, inclusive com os mesmos movimentos amplos de câmera circulares que víamos nas cenas de batalha do filme de Peter Jackson. O segundo remete a “Matrix”, com direito a um oráculo russo que, da mesma forma que na trilogia dos Wachowski, é uma mulher velhinha amante dos prazeres da cozinha. E a trama geral, que emula mais uma vez a clássica luta entre o Bem e o Mal, lembra demais a aventura “Anjos da Noite”, também sobre um embate secular entre exércitos de seres de poder superior.

Agora, acrescente ao caldeirão uma série de conceitos jogados na trama de modo caótico: fenômenos naturais inexplicáveis, pessoas com poder de parar o tempo, realidade virtual. Há, neste primeiro capítulo, até mesmo uma trama paralela envolvendo a Virgem, mulher desconhecida (e prevista na mesma profecia) que devido a uma maldição pode abrir um mega-furacão, quase um buraco negro, sobre a cidade. Tudo isso aparece embalado em um visual dark, com montagem super-rápida no estilo de David Fincher (pense na seqüência inicial de “Clube da Luta”) e uma mistura alucinada de linguagens cinematográficas, o que inclui até mesmo cenas de animação no estilo do jogo “Mortal Kombat”.

Parece loucura? De certa forma, é. O projeto parece ter sido ambicioso demais para uma equipe tão inexperiente. “Guardiões da Noite” tem um grande defeito, que é a trama complicada e mal ajambrada. Timur Bekmambetov filmou tudo com grande cuidado visual, e certamente gastou a maior parte do orçamento de US$ 5 milhões (ridículo para os padrões norte-americanos, uma fortuna em Moscou) realizando seqüências sensacionais, poderosas, como aquela em que a câmera segue a trajetória de um parafuso que cai de um avião dentro do café de um personagem (a cena, vista dentro do contexto do enredo, também é uma pista importante para a solução do mistério de uma trama paralela).

Por outro lado, é evidente que o grande número de personagens, aliado às dezenas de detalhes e nuances que interferem na história, contribui bastante para deixar a trama quase incompreensível. Peter Jackson, na sua trilogia, enfrentou o mesmo problema e tratou de solucioná-lo da maneira mais simples: apresentando todos os personagens em uma longa abertura, que ocupou quase metade do primeiro filme, e só depois jogando-os na aventura. Bekmambetov, ao contrário, fez “Guardiões da Noite” começar em alta velocidade, atirando os personagens dentro da ação para só depois ir delineando razoavelmente a função de cada um.

Isso é muito ruim. Considerando que os rostos dos atores são desconhecidos para nós, pobres membros da platéia ocidental, o resultado é até previsível: temos muita dificuldade para descobrir a que exército pertence cada personagem, que papel é atribuído a cada um e de que maneira eles se relacionam entre si. É por isso que uma trama de fantasia simples, sem muita profundidade emocional e com apenas razoável substância intelectual, se transformou em uma narrativa empolada e de difícil compreensão.

Para compensar o vacilo, há muitos momentos visuais de alta criatividade e execução perfeita para um filme não-americano de orçamento tão minúsculo – o ataque do homem-onça, a já citada cena do parafuso, o combate final com o uso de uma coluna vertebral como espada e trechos de animação – para encher os olhos dos amantes de filmes de aventura. Como se não bastasse, o caos da economia russa ainda dá as caras em uma pequena e interessante sequência dentro de um supermercado. “Guardiões da Noite” não é clássico, mas vale a pena.

O DVD é da Fox. O filme está em boa qualidade, com enquadramento original preservado (wide 1.85:1) e som legal (Dolby Digital 5.1). Como extras, comentário em áudio do diretor e documentário de bastidores, legendados em português.

– Guardiões da Noite (Nochnoi Dozor, Rússia, 2004)
Direção: Timur Bekmambetov
Elenco: Konstantin Khabensky, Vladimir Menshov, Valeri Zolotukhin , Mariya Poroshina
Duração: 115 min

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