Guerra dos Mundos

15/11/2005 | Categoria: Críticas

Filme de Steven Spielberg é composto por bons momentos que, juntos, não formam um todo muito eficaz

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

A “Guerra dos Mundos” (War of the Worlds, EUA, 2005) de Steven Spielberg não é uma refilmagem. Na verdade, se aceitarmos a teoria de um importante personagem do longa-metragem de 116 minutos, nem mesmo é uma guerra. Harlan Ogilvy (Tim Robbins), o motorista de ambulância que dá abrigo ao herói em certo momento, compara a invasão alienígena narrada por Spielberg com uma luta entre homens e minhocas. “Guerra? Você diria que estamos em guerra com as minhocas? Nós somos minhocas para eles. É um extermínio”, reflete. É um dos melhores momentos de um filme composto por bons momentos que, juntos, não formam o todo impecável que sempre se espera de Spielberg.

“Guerra dos Mundos” tem todas as características recorrentes nos trabalhos do pai de “E.T.”. Os grandiosos e impecáveis efeitos especiais estão lá. O tema do divórcio devido a um pai ausente, que Spielberg repete desde os primeiros longas-metragens, também bate ponto. As cenas repletas de tensão, em que pessoas procuram se esconder de ameaças não-humanas (como as aranhas metálicas de “Minority Report” ou os dinossauros de “Jurassic Park”), sem sair do raio de visão dos perseguidores, são muitas. Em outras palavras, estamos diante de um legítimo “filho” de Spielberg, mas não um dos melhores.

Como todos sabem, a história original de “Guerra dos Mundos” data de 1898. Foi o pai da ficção científica moderna, H.G. Wells, quem escreveu o romance no qual marcianos lançam um ataque devastador à Terra. Mas a produção de 2005 faz referências bem mais evidentes à versão de 1953 do longa-metragem, criada por Ray Bradbury. A curta narração de Morgan Freeman, que abre o filme, é retirada de lá. “Guerra dos Mundos” na versão de 2005, porém, é uma história diferente. O cerne da narrativa é o mesmo: uma invasão extraterrestre de proporções planetárias. Spielberg, no entanto, prefere narrar o acontecimento do ponto de vista de um homem comum, o operador de guindastes Ray Ferrier (Tom Cruise).

Ray é a síntese do herói de Hollywood no século XXI: um homem cheio de defeitos. Auto-suficiente, egoísta, pai ausente – em resumo, um sujeito que merece uma boas palmadas. Aprendemos tudo isso quando a ex-esposa, Mary Ann (Miranda Otto), deixa com ele os dois filhos para um fim de semana, logo no princípio da ação. O adolescente Robbie (Justin Chatwin) e a criança Rachel (Dakota Fanning) são praticamente desconhecidos para Ray. E ele não está especialmente interessado em interagir. Manda os filhos pedirem comida por telefone e vai dormir. Acorda com uma bizarra tempestade eletromagnética, em que raios caem repetidas vezes no mesmo lugar e o vento sopra na direção dos tufões, e não ao contrário.

Tudo isso acontece antes dos 20 minutos de projeção, o que é muito bom. Spielberg não alonga demais a apresentação dos personagens, preferindo partir logo para a ação. Faz isso em um crescendo de loucura: primeiro a tempestade, depois os raios, em seguida defeitos em todos os carros (o personagem de Tom Cruise dá a dica do defeito a um mecânico da vizinhança, o que vai lhe garantir depois um veículo para a fuga). Então a Terra se abre, e dela saem monstros mecânicos de três pernas que desintegram os seres humanos com raios azulados. São máquinas de destruição perfeitas, com poder de fogo ilimitado e um escudo protetor invisível que é imune até mesmo a armas atômicas.

Na parte técnica, Spielberg rende justas homenagens aos clássicos do gênero da ficção científica B, ao qual pertence o filme original. A trilha sonora de John Williams evoca as melodias soturnas do período, o design dos tanques alienígenas é inspirado no “Guerra dos Mundos” original, e os raios desintegradores sempre foram uma das armas favoritas de diretores de ficção científica. Essa forma de matar pessoas permite que o filme tenha censura baixa (no Brasil, 12 anos), já que a eliminação dos seres humanos acontece sem que seja preciso mostrar cenas violentas, com sangue, desmembramentos e coisas parecidas.

O primeiro ataque alienígena em Nova York, onde vive Ray Ferrier, é o melhor momento do filme. Spielberg ilustra bem o comportamento humano durante a seqüência. Eles são tão curiosos que, a despeito de todas as indicações de que algo desagradável está para acontecer (os carros sem funcionar, os raios repetidos, a tempestade impossível, algo grande saindo da Terra), permanecem olhando tudo. Mesmo depois que o primeiro monstro mecânico sai do chão, as pessoas boquiabertas não arredam pé, até que os primeiros raios são disparados. Aí tudo vira um pandemônio de gritos, poeira, edifícios destroçados e peças de roupa voando, um balé de destruição que Spielberg filma com a perfeição habitual. As seqüências de desintegração, mostradas sem cortes, são um primor de efeitos especiais.

A cena também funciona bem para delinear melhor a personalidade de Ray Ferrier. Quando começa a destruição, ele está a alguns quarteirões de casa, longe dos filhos, mas não pensa em protegê-los; corre para salvar a própria pele. Quando está em casa, finalmente, o único plano que consegue imaginar é fugir para Boston, onde está a ex-esposa. Boston, evidentemente, também está sob ataque, mas Ray segue sem hesitações. Por quê? Pois, como o rebelde Robbie observa, se conseguir largar os filhos com Mary Ann ele fica com liberdade de movimento, e ganha mais chance de encontrar um esconderijo que lhe permita sobreviver aos alienígenas.

Como se trata de um filme de Spielberg, é evidente que a jornada do pai ausente que cai em si e passa a se preocupar com os filhos acontece em paralelo com a fuga. Infelizmente, esse lado humano do enredo é superficial e cheio de clichês. Spielberg preferiu concentrar os esforços em cenas de ação, o que enfraquece o elemento humano do filme.

Como é de praxe, o diretor brinda a platéia com cenas tecnicamente irrepreensíveis. Há uma tomada sem cortes, ainda no início do filme, que se destaca pelo movimento inusitado de câmera. Trata-se da discussão familiar que Ray e os dois filhos travam, dentro de um carro em movimento. A câmera de Janusz Kaminski sai do veículo, dá um giro de 360 graus em torno dele, se afasta do automóvel, torna a entrar nele e repete o movimento algumas vezes, em aproximadamente dois minutos. Não há cortes.

O espectador atento vai se perguntar como tal malabarismo técnico é possível. A cena lembra muito uma seqüência semelhante, só que bem mais curta, do longa francês “Irreversível”. Naquele caso, porém, a ação se passava à noite, o que possibilitou que o diretor Gaspar Noé fizesse cortes imperceptíveis na ação, de forma a enganar a platéia. Em “Guerra dos Mundos”, tudo acontece à luz do dia. É uma proeza técnica invejável.

Uma ressalva que muitos podem fazer ao filme é que fazem falta, na tela, cenas que ilustrem a dimensão do terror que uma ação destruidora planetária provocaria. Em determinado momento, por exemplo, uma locomotiva em chamas cruza uma estação de trem repleta de humanos em fuga. A cena dura poucos segundos, e funciona como um relance desse terror. Ele também está presente em outra cena, em que a família Ferrier chega, de carro (o único funcionando nas redondezas), a uma estrada congestionada de pedestres que buscam fugir dos alienígenas. A população, em pânico, ataca a família para roubar o automóvel, e depois passa a brigar entre si pela posse do veículo. Os homens matam uns aos outros sem piedade. Mas a cena é curta. Spielberg tinha em mente um filme para todas as idades, e por isso não vai fundo como poderia ao mostrar a loucura, a violência e a destruição que um ataque alienígena provocaria no mundo real.

O fato é que realismo, de certa forma, não deve ser uma preocupação para o espectador de “Guerra dos Mundos”. A situação, em si, não é nada realista. Como acreditar, por exemplo, que enormes máquinas de guerra possam ter ficado enterradas sob as grandes cidades do mundo, durante milhares de anos, sem serem detectadas por geólogos? E como aceitar que um povo extraterrestre com domínio de tecnologias tão avançadas seja capaz de planejar tão mal uma ação de guerra, sem levar em consideração a ação de outros organismos vivos no conflito? Aliás, o final do filme, que acontece de forma apressada, possui lógica, mas não tem clímax e pode desagradar a muita gente que esperaria uma batalha épica no estilo de “Independence Day”.

A melhor comparação para o longa-metragem do diretor de “E.T.” não é com o filme-pipoca de Roland Emmerich, mas com o silencioso épico alienígena de M. Night Shyamalan, “Sinais”. As duas obras funcionam quase como se fossem o mesmo acontecimento, visto de dois ângulos diferentes. O diretor de “O Sexto Sentido” preferiu abordar a invasão alienígena sem mostrá-la, confinando uma família dentro de uma casa. Já Spielberg botou a sua família correndo de um lado a outro. Mas os dois filmes têm lógica tão parecida que até a derrota dos extraterrestres, nos dois casos, acontece devido a fatores semelhantes. Como Shyamalan, o diretor de “E.T.” também fez um final moralista e não teve coragem de sacrificar qualquer um dos personagens importantes para ilustrar a dor e a perda que um evento catastrófico fatalmente provocaria nas famílias. Uma pena.

O lançamento em DVD é da Paramount, e acontece em disco duplo bem semelhante aos outros filmes de Spielberg. O disco 1 traz o filme, com imagem (wide 1.85:1) e som (Dolby Digital 5.1 em inglês, e uma inédita faixa dublada do formato superior DTS) perfeitos. O disco 2 é dedicado aos extras, contendo quase três horas deles, todos legendados. Há um diário de produção em quatro partes, cinco documentários (sobre o livro de H.G. Wells, o sistema de pré-visualização, os personagens, o design de alienígenas e veículos de guerra, e a trilha sonora), galeria de fotos e trailer, além de mensagens de abertura e encerramento de Spielberg.

– Guerra dos Mundos (War of the World, EUA, 2005)
Direção: Steven Spielberg
Elenco: Tom Cruise, Dakota Fanning, Tim Robbins, Justin Chatwin
Duração: 116 minutos

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