Guerreiros do Inferno

18/06/2005 | Categoria: Críticas

Terror dentro de uma trincheira mal-assombrada rende filme exagerado com algumas boas idéias

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★½☆☆

Primeira Guerra Mundial. Um pequeno pelotão de soldados ingleses pertencentes à chamada Companhia Y se perde em meio a uma infinidade de trincheiras no front europeu. Estamos em 1915, no momento mais brutal da batalha. A situação é inusitada, mas perfeita, para um filme de terror. “Guerreiros do Inferno” (Deathwatch, Inglaterra, 2002), de Michael Bassett, tem o mérito de ser a primeira produção que situa um enredo sobre forças sobrenaturais malignas agindo em um campo onde morte e violência fazem parte do cotidiano.

A idéia tem relação com o que o dinamarquês Lars Von Trier fez na minissérie para TV “O Reino”. A premissa de Von Trier imaginava que não havia melhor lugar para fantasmas se manifestarem do que um hospital, lugar onde dezenas de pessoas morrem todos os dias, algumas de maneira bem sangrenta. Bassett troca o hospital pelo cenário de uma das batalhas mais assassinas que a história da humanidade já registrou. Nas trincheiras escavadas entre França, Inglaterra e Alemanha, no noroeste europeu, em 1915, estima-se que mais de um milhão de soldados perderam a vida.

O diretor e roteirista imagina que não há lugar e oportunidade mais propícia para o surgimento de uma força sobrenatural inexplicável do que um gigantesco e fétido lamaçal em que centenas eram assassinados todos os dias. Nesse cenário, colocou um punhado de soldados ingleses aterrorizados e criou como protagonista um jovem recruta, chamado Charles Shakespeare (Jamie Bell, de “Billy Elliot”), assustado com o espetáculo de sangue e fogo que é obrigado a presenciar.

O pelotão está perdido no fogo cruzado entre as tropas inglesa e alemã, com o agravante de que não possui comunicação com o restante da Companhia, o que torna os soldados alvos em potencial tanto para um lado dos combatentes quanto para o outro. Dessa forma, o grupo decide parar numa trincheira alemã, matando quase todos os ocupantes (apenas um soldado é deixado vivo) e tentando restabelecer a comunicação com os comandantes do Exército britânico via rádio. Ocorre que acontecimentos estranhos começam a acontecer dentro da trincheira, o que leva os soldados a desconfiar que algum inimigo possa estar agindo contra o grupo.

“Guerreiros do Inferno” é, como o já citado “O Reino” ou o clássico kubrickiano “O Iluminado”, um filme de casa mal-assombrada; a mansão maldita, no caso, é substituída por uma trincheira lamacenta e repleta de corpos mutilados e em decomposição. O conceito é sedutor e poderia ter rendido um excelente filme, se não fosse a opção equivocada de explorar as sucessivas mortes com o máximo de detalhes gráficos possível. Para fazer isso, o diretor decidiu eliminar o poder da sugestão do enredo e deixar claro, para o espectador, que a origem dos acontecimentos inexplicável é mesmo sobrenatural.

Assim, quando os soldados ingleses começam a morrer, a platéia sabe que eles estão sendo atacados por uma entidade maligna invisível, pois testemunha possessões, objetos se movendo sozinhos e toda sorte de ocorrência impossíveis. Isso não é bom, pois não deixa um milímetro sequer de mistério para o espectador. Dessa forma, o filme jamais consegue criar uma atmosfera de suspense, que seria fundamental para que funcionasse melhor como produção de fundo sobrenatural.

Não dá para dizer, contudo, que “Guerreiros do Inferno” é totalmente ruim. A construção dos personagens demonstra algum acerto (há, por exemplo, o capitão que chefia o grupo e está lentamente enlouquecendo diante da violência da guerra), sobretudo com o protagonista, um rapaz assustado que não compreende o porquê de tanta matança, interpretado com correção por Jamie Bell. Preste atenção, ainda, à presença de Andy Serkis (o rosto por trás do Gollum de “O Senhor dos Anéis”) no elenco. Ele é submetido a uma das mortes mais explícitas, exageradas e cruéis da projeção.

O ponto de vista adotado pelo cineasta para narrar a aventura macabra é o do personagem principal, o que se revela uma boa escolha, já que Charlie Shakespeare é essencialmente uma pessoa boa, para quem tantas mortes não fazem sentido. Além disso, uma surpresa inesperada no final dá clareza incomum ao conceito que determinou a escolha desse personagem como narrador. Embora esteja longe da atmosfera assustadora de um “Desafio ao Além”, para citar uma das obras-primas do subgênero a que pertence este longa-metragem de terror, “Guerreiros do Inferno” tem algumas qualidade.

O lançamento brasileiro é típico da PlayArte e bastante descuidado. O enquadramento original tem mutilações laterais (ou seja, a imagem é fullscreen, na proporção 4×3). As duas trilhas de áudio são Dolby Digital 5.1 (inglês) e DD 2.0 (português). Como extras, curtas entrevistas com o elenco e cenas de bastidores, totalizando 16 minutos. O material é legendado em português, mas também é enfadonho.

– Guerreiros do Inferno (Deathwatch, Inglaterra, 2002)
Direção: Michael J. Bassett
Elenco: Jamie Bell, Ruaidhri Conroy, Laurence Fox, Andy Serkis
Duração: 94 minutos

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