Half Nelson

07/02/2007 | Categoria: Críticas

Estudo sensível de amizade entre professor drogado e menina negra envolve o espectador na história

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

O que acontece quando se encontram um jovem professor de História viciado em crack e uma menina negra e pobre de 13 anos, cujos pais a largam sozinha durante a maior parte do dia? A resposta: nada do que você imagina lendo as linhas acima. O retrato vigoroso e simultaneamente delicado da amizade inusitada entre estes dois párias do american way of life é o cimento sobre o qual “Half Nelson” (EUA, 2006) constrói um estudo realista da vida na periferia (nos sentidos econômico e emocional) de uma megalópole. A estréia do diretor Ryan Fleck em longas-metragens de ficção funciona como um raro filme independente norte-americano que vai além da crítica diluída da vida no subúrbio. É um filme que cheira a suor, não a perfume barato.

À primeira vista, o enredo parece ser apenas uma variação de tantos outros filmes já realizados sobre professores idealistas dando duro em escolas públicas norte-americanas. Não é o caso. Ao mesmo tempo em que reserva tempo e paciência para compreender as nuances emocionais dos dois personagens principais, lançando-lhes um olhar profundamente humano e despido de verdades pré-concebidas, “Half Nelson” também exibe um saudável engajamento político de esquerda, praticamente ausente na filmografia contemporânea (inclusive de diretores reconhecidamente políticos, como Oliver Stone). O filme mostra como é possível construir uma história politicamente engajada sem ser panfletária, e tomando sempre o cuidado de preservar, como fio condutor da narrativa, a escala íntima dos personagens. Ou seja, sentimentos pessoais e ideologias políticas mescladas em uma única história.

Dan (Ryan Gosling) ensina História numa escola pública da parte mais carente do Brooklyn. Ele está na casa dos 30 anos e é um rapaz idealista. Se esforça para ensinar a disciplina não como uma série de fatos isolados, mas como uma cadeia de causas e conseqüências que resultam do choque de opostos – ou seja, a dialética de Marx é a fundação sobre a qual deseja erguer o conhecimento dos alunos. Ele despreza os currículos oficiais. Não quer que os alunos decorem datas, mas que compreendam as razões e efeitos sociais dos fatos históricos. É um cara que estimula o pensamento e a individualidade. Poderia ser um personagem talhado para o papel de mártir, se não fosse viciado em crack.

O filme não explica o vício porque esta parte da história – o passado de Dan – não interessa. O fato é que ele está a caminho da autodestruição completa. Nem mesmo tenta lutar contra a ressaca da droga, esfregando os olhos pesados e mascando um chiclete onipresente (viciados precisam sempre ter doce à mão), sem preocupação em esconder a imagem arrasada de alguém à beira de um precipício. O encontro que pode mudar sua vida acontece no banheiro do colégio, quando Drey (Shareeka Epps) o flagra fumando crack no vestiário, e o ajuda a não desmaiar. O tipo de relacionamento que surge desta imagem forte de vício não tem um pingo sequer de melodrama, e manda o filme por um caminho inesperado, proporcionando ao espectador uma história cheia de tristeza, mas profundamente humana e real.

Drey tem seus próprios problemas. É uma adolescente curiosa e inteligente, mas sofre com a ausência da mãe policial (Karen Chilton) que nunca consegue folgas, e de um pai desinteressado. O único adulto que olha para ela é Frank (Anthony Mackie), o traficante de drogas do bairro, responsável por mandar o irmão mais velho da menina para a cadeia. “Half Nelson” – o maravilhoso título do filme é o nome de um golpe de jiu jitsu, através do qual um lutador consegue imobilizar o oponente de maneira que ele não consegue mais se mover – documenta o encontro entre essas duas pessoas desamparadas e solitárias.

É uma história de amizade original e diferente, narrada com poucas palavras e muitas elipses, de forma que um monte de pequenas lacunas precisem ser preenchidas pelo raciocínio do espectador (por exemplo, o filme nunca esclarece o passado de Dan com a ex-namorada Rachel, mas podemos deduzir pelos fiapos de conversas que os dois afundaram juntos nas drogas, e ela foi resgatada por uma família calorosa, enquanto ele, filho de pais desatentos, continuou atolado). O artifício sempre funciona bem porque envolve emocionalmente a platéia na história, cria empatia extra entre espectadores e personagens, e estimula o espectador a raciocinar por si mesmo.

Como o auxílio de um excelente roteiro da esposa Anna Boden, o cineasta Ryan Fleck (que havia dirigido em 2004 uma versão em curta-metragem da mesma história) constrói um filme bonito e sensível, que em última instância oferece uma excelente oportunidade a seus atores. A estreante Shareeka Epps, que trabalhou com o diretor no curta-metragem original de 2004, atua de maneira minimalista, quase enigmática, com o rosto fechado e os gestos bruscos de alguém que tem medo de apanhar mais da vida. É o contraponto perfeito para Ryan Gosling, ator talentoso e cheio de energia, mergulhar de cabeça no papel. As atuações ajudam a colocar o filme no patamar superior que ele merece.

– Half Nelson (EUA, 2006)
Direção: Ryan Fleck
Elenco: Ryan Gosling, Shareeka Epps, Anthony Mackie, Monique Curnen
Duração: 106 minutos

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