Halloween – O Início

20/09/2009 | Categoria: Críticas

Principal curiosidade deste remake/prequel do filme cult de 1978 de John Carpenter é o ponto de vista narrativo, que segue o assassino do começo ao fim

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★½☆☆

Nenhum amante de rock’n’roll que se preze pode considerar inteiramente ruim um filme cuja seqüência de abertura acontece ao som diegético do clássico “God of Thunder” (Kiss), em sua gloriosa e aterrorizante versão original, recheada com sinistras vozes infantis e ruídos inesperados. “Halloween – O Início” (EUA, 2007), porém, acende o sinal de alerta. O terceiro longa-metragem de Rob Zombie, dublê de vocalista de banda de heavy metal e diretor de cinema especializado em filmes de horror B de baixo orçamento, investe em toda sorte de clichês dos chamados “slasher movies” para obter algum tipo de resposta emocional da platéia.

Para quem não sabe, os “slasher moviers” compõem uma vertente do horror direcionada a adolescentes, cujos filmes consistem essencialmente de tramas horizontais em que um psicopata assassino persegue um bando de rapazes e moças sedentos de sexo e álcool (drogas ilícitas às vezes entram na equação), matando-os um a um, até ser eliminado por – adivinhe! – o mais pudico e certinho de todos os jovens personagens, quase sempre uma menina. Freddie Kruger (“A Hora do Pesadelo”) e Jason Vorhees (“Sexta-feira 13”) são os “heróis” mais conhecidos desse tipo de filme, muito popular nos anos 1980.

Michael Myers, porém, carrega o privilégio de ter sido o primeiro dessa espécie. O protagonista do filme original, dirigido por John Carpenter em 1978, já levava consigo todos os códigos formais que gerariam outros maníacos assassinos – uma máscara apavorante, o lento caminhar estilo zumbi em direção às vítimas, a aura de indestrutibilidade (experimente dar apenas alguns tiros na cabeça de um desses personagens, e notará que isso nunca é suficiente para matá-lo) e uma leve sugestão de elemento sobrenatural como creme do bolo.

“Halloween – O Início” é, em teoria, uma refilmagem do longa-metragem original. Na prática, está mais para prequel. O diretor, que também assina o roteiro, expande consideravelmente a primeira parte da história original, nos mostrando o contexto no qual floresceu Michael Myers. Ele é uma criança de 10 anos fruto de um lar disfuncional. Sua mãe é dançarina de strip tease, o padrasto não passa de um aleijado veterano de guerra que vive bêbado, cuspindo imbecilidades pela casa, e a irmã só pensa na próxima cena de sexo com o namorado.

Rob Zombie preenche essa parte do filme com o tipo de psicologia de botequim que se espera de uma produção B: como consta de todo manual de comportamento de um assassino em série, Myers tortura pequenos animais, vive calado pelos cantos – não tem vida social, sendo constantemente espancado na escola – e ostenta uma camiseta esfarrapada do Kiss. No lance mais inteligente da escalação do elenco, Malcolm McDowell (o eterno Alex de “Laranja Mecânica”) interpreta o psiquiatra que cuida de Myers durante os 15 anos seguintes, depois que o menino aparentemente inofensivo chacina todo mundo dentro de casa.

Espectadores desavisados que não viram o filme de 1978 poderão passar boa parte do tempo imaginando que insanidade intrínseca aos olhos violentamente azuis de McDowell sugerem uma ligação afetiva (sexual não, por favor) entre ele e o assassino, o que ajuda um bocado a amortecer a encenação de segunda categoria bolada por Rob Zombie. Todas as cenas, até mesmo as mais rápidas e simples, são coalhadas de efeitos sonoros não-naturais, como se DJ especialista em percussão eletrônica estivesse acompanhando o filme em tempo real. A prática dilui todos os possíveis sustos que o filme poderia oferecer.

Zombie trata de preencher a trama com todo tipo de clichê de gênero possível, de forma que a simples visão de um casal fazendo sexo (não importa quem) já os credencia automaticamente a virar carne moída nas mãos de Michael Myers. O filme tampouco deixa claro quem é a heroína (e principal candidata a aniquiladora do monstro, cuja aura sobrenatural foi extraída a golpes de porrete). Bem, se você prestar atenção direitinho, tem uma garota ali no meio daquele bando de taradas juvenis que não possui namorado e nem está doida para ter um, ou seja… sim, você entendeu.

Se há um elemento de interesse em “Halloween – O Início”, é o ponto de vista narrativo adotado pelo diretor e roteirista: o ponto de vista do assassino. Em quase todos os slasher movies, o espectador acompanha as vítimas, de modo que cada aparição do matador prega um susto na platéia. Rob Zombie, ao contrário, acompanha Michel Myers do começo ao final; justifica seus atos de violência (com a já citada psicologia de botequim), e demonstra um carinho insuspeito pelo personagem, dando ao personagem de McDowell a função narrativa de expressar esse carinho/compreensão dentro do filme. Este ponto de vista, por mais duvidoso que posssa parecer, é o único elemento que separa “Halloween – O Início” das dezenas de longas-metragens similares produzidos todos os anos.

Em tempo: a versão lançada (melhor seria usar a expressão arremessada) nos cinemas brasileiros tem 24 minutos a menos do que a edição mostrada nos cinemas dos EUA, em que boa parte das cenas de violência gráfica (que são muitas, sempre cheias de sangue) e nudez feminina frontal (uma, bastante generosa) foram retiradas. Pior ainda é que, em DVD importado, há uma terceira versão contendo 12 minutos a mais do que o filme mostrado nos cinemas de lá. Bizarro, para dizer o mínimo.

No DVD nacional PlayArte, que não teme extras e preserva imagem (wdiescreen anamórfica) e áudio (Dolby Digital 5.1) originais, a versão presente é mesma exibida nos cinemas dos EUA.

– Halloween – O Início (EUA, 2007)
Direção: Rob Zombie
Elenco: Malcolm McDowell, Scout Taylor-Compton, Daeg Faerch, Tyler Mane
Duração: 109 minutos (versão normal e em DVD nacional), 121 minutos (versão do diretor), 85 minutos (nos cinemas brasileiros)

| Mais
Tags:


Assine os feeds dos comentários deste texto


13 comentários
Comente! »