Hancock

20/03/2009 | Categoria: Críticas

Comédia que brinca com clichês de filmes de super-heróis parte de idéia original e ótimo primeiro ato, mas perde o rumo e desperdiça potencial cômico

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★½☆☆

Há dois filmes distintos dentro de “Hancock” (EUA, 2008). O primeiro é uma comédia inteligente e espirituosa, que explora um lado original e curioso do universo dos super-heróis (os enormes prejuízos materiais que seriam causados por seres de força ilimitada, se eles existissem de verdade) e aproveita para tecer uma crítica sutil a respeito da obsessão contemporânea pela preocupação com a imagem pessoal. O outro, infelizmente, deixa a lógica e os toques originais de lado para mergulhar de cabeça em uma trama romântica forçada e inverossímil. O resultado é um longa-metragem desequilibrado, que começa bem e desperdiça uma ótima idéia.

É curioso que “Hancock” tenha demorado mais de uma década para ser realizado. O roteiro original, escrito por Vincent Ngo e Vince Gilligan, circulou por muitos estúdios antes de ganhar sinal verde da Sony. Na verdade, a produção só andou mesmo depois que dois nomes influentes na indústria cinematográfica (o roteirista Akiva Goldsman e o diretor Michael Mann) se dispuseram a produzi-lo – os dois fazem ponta em uma cena que envolve uma reunião de executivos. A entrada do astro Will Smith no projeto aumentou bastante a escala da produção, e acabou por forçar alterações no argumento original, gerando a contratação de uma atriz famosa, a linda Charlize Theron. Foram exatamente estes acontecimentos que acabaram por estragar uma comédia promissora.

Na trama, John Hancock (Smith) é um herói que possui os mesmos poderes do Super-Homem. Ele voa, tem força ilimitada e corpo à prova de ferimentos. Ao contrário do escoteiro de Krypton, porém, Hancock é alcoólatra e mau-humorado. Vive como um mendigo, dormindo em bancos de praça, cheira permanentemente a cachaça e não preza pelo cuidado quando entra em ação, deixando prejuízos de milhões de dólares a cada ação desastrada e discutindo até mesmo com crianças. Depois de salvar um marqueteiro (Jason Bateman) de ser atropelado por um trem, ele acaba aceitando a oferta do sujeito e o contrata como consultor de imagem, determinado a mudar a percepção negativa que as pessoas têm dele.

A idéia em si é muito boa, e o hilariante primeiro ato do filme a aproveita integralmente. Se os efeitos especiais não chegam a ter a mesma qualidade do “Superman” de Bryan Singer (2006), também não comprometem – a seqüência em que o super-herói salva uma baleia encalhada, atirando-a no meio do oceano e destruindo um veleiro no processo, é de rolar de rir. Os problemas começam, na verdade, a partir da entrada em cena de Charlize Theron, que interpreta a dedicada e lacônica esposa do consultor de imagem. A partir deste momento, a história envereda por um caminho completamente imprevisível, e disparatado. Abandona a abordagem original do mundo dos super-heróis para investir em um tom romântico absolutamente inadequado e, pior, repleto de clichês.

O elenco, infelizmente, não está muito inspirado. Smith se dá bem nos momentos mais engraçados, mas erra ao construir uma expressão corporal artificial para o herói – a cara de quem chupou limão não parece a de um bêbado com ressaca, mas apenas a de um ator que tenta, sem sucesso, reproduzir o comportamento de alguém embriagado. Charlize Theron não tem muita chance de brilhar, até porque o personagem dela é a principal razão de o filme perder o rumo. E Jason Bateman, melhor elo do trio principal, acaba prejudicado por interpretar um personagem que jamais é tratado pelos roteiristas como um ser humano, já que não passa de uma ferramenta, de um artifício dramatúrgico, para provocar determinadas situações essenciais para o desenrolar da história. Ele não tem desejos, traumas ou sonhos. É apenas um boneco de carne.

Os mais atentos vão parecer alguma semelhança de “Hancock” com um filme de safra anterior, a comédia romântica “Minha Super Ex-Namorada”. O longa-metragem de 2007 também explorava a idéia de relacionamentos entre pessoas comuns e super-heróis, e tinha outra loura escultural e talentosa no elenco (Uma Thurman). Apesar de ligeiramente superior, “Hancock” termina por provocar um desapontamento ainda maior no espectador, pois não cumpre grande parte daquilo que promete, enquanto “Minha Super Ex-Namorada” o faz. De qualquer modo, graças ao bom primeiro ato, “Hancock” não chega a ser um desperdício completo de tempo.

O DVD de locação da Sony é simples e contém o filme com boa qualidade de imagem (widescreen anamórfica) e áudio (Dolby Digital 5.1). Não há extras. Já o disco para venda direta tem uma versão mais longa do filme, making of e três featurettes sobre aspectos específicos da produção.

– Hancock (EUA, 2008)
Direção: Peter Berg
Elenco: Will Smith, Jason Bateman, Charlize Theron, Jae Head
Duração: 92 minutos

| Mais


Deixar comentário