Hannah e Suas Irmãs

08/06/2005 | Categoria: Críticas

Woddy Allen equilibra todos os seus grandes temas em drama cômico cheio de qualidades

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★★

“Hannah e Suas Irmãs” (Hannah and her Sisters, EUA, 1986) não é o filme mais engraçado de Woody Allen. Nem é uma comédia, na verdade; merece o rótulo de drama cômico. Talvez seja, no entanto, a produção em que o diretor, roteirista e ator conseguiu equilibrar melhor todos os grandes temas e obsessões que revisitou tantas vezes durante sua gloriosa carreira. Nova York, jazz, artistas em crise, religião, fé em Deus, vida judaica, conflitos de geração, homens de coração partido, mulheres que vagam perdidas pela vida procurando algo que não sabem definir: todos os temas caros a um dos maiores mestres do cinema da segunda metade do século XX estão aqui. O melhor é que, juntos, formam um todo coeso, filtrado através da visão espirituosa e positiva do diretor.

Na época da produção de “Hannah e Suas Irmãs”, Allen já tinha feito incursões no drama psicológico (o melancólico “Interiores”, dissonância radical das comédias que sempre o caracterizaram), mas sem conseguir alcançar os resultados pretendidos. Allen sempre foi fanático pela obra do diretor sueco Ingmar Bergman, mas foi somente com “Hannah e Suas Irmãs” que ele conseguiu fazer seu primeiro grande filme que abordava um dos temas prediletos de Bergman – a culpa – sem abandonar a visão de mundo sorridente dele mesmo. Para isso, contou até mesmo com um dos atores preferidos de Bergman, o sueco Max Von Sydow.

A galeria de personagens de “Hannah e Suas Irmãs” é longa e inesquecível. Hannah, a mulher do título, é o lastro de uma família em crise vivendo em Manhattan. Suas duas irmãs, Lee (Barbara Hershey) e Holly (Dianne Wiest), são aquilo que poderíamos chamar de perdedoras. Lee está casada com um pintor mais velho (Von Sydow) que lhe trata como uma adolescente mimada e incapaz de guiar a própria vida. Holly, recém-recuperada do vício em cocaína, procura desesperadamente alguém para namorar. Há ainda Mickey (Allen), roteirista de TV hipocondríaco que descobre a possibilidade de estar finalmente com uma doença realmente grave; Elliot (Michael Caine), contador e marido da Hannah que está perdidamente apaixonado por Lee; e alguns outros personagens-satélite.

A Hannah do título é uma espécie de Sol do universo do filme. Atriz consagrada, tranqüila, tom de voz confiante e baixo, ela não é a protagonista, mas funciona como referência para todo mundo, seja de modo consciente (as irmãs) ou inconsciente (o ex-marido). Há uma pequena seqüência que ilustra essa relação conflituosa quando, em discussão com Holly, ela é acusada de dar demais (amor, dinheiro) sem pedir nada em troca. Como se funcionar como esteio emocional de alguém – ou melhor, de todo um grupo de pessoas! – fosse um pecado, e não uma qualidade redentora.

O fato é que Hannah funciona como centro de gravidade, mas não age. O filme não tem um ponto de vista único; por vezes, Woody Allen adota o ponto de vista subjetivo e “entra” nos pensamentos e devaneios de vários personagens. O enredo cobre um período de dois anos nas vidas de cada um. Dar unidade a uma galeria tão grande de personagens e a um período tão largo de tempo é um desafio para qualquer roteirista, mas não para Woody Allen. Ele se incumbe da tarefa com a destreza de sempre e produz um texto vibrante, quase sempre engraçado (entre os muitos momentos memoráveis, preste atenção na interação de Mickey com um grupo de hare krishnas) e com alto teor de humanidade.

Mesmo os menores personagens têm vida própria longe da tela. Frederick, o pintor, é um sujeito inteligente e arrogante, mas quando sofre a ameaça de perder a mulher, mostra sua verdadeira face: imaturo, fechado como um autista, sem ligação com o mundo real, ele sabe que ver o próprio casamento arruinado é um derrota incrivelmente grande, e tenta evitar a tragédia apelando para chantagens emocionais dignas de crianças. Mas essas coisas existem, e nos ajudam a ver que aqueles personagens poderiam ser pessoas reais, de carne e osso. Poucos cineastas conseguem tal façanha.

Para completar a obra-prima, Woody Allen conduziu um elenco de sonho. Barbara Hershey e Dianne Wiest (a última premiada com um Oscar) estão brilhantes, vulneráveis como mulheres realmente “surradas” pela vida, enquanto Michael Caine (outro vencedor do Oscar pelo filme) mostra o ótimo ator que é como o atormentado Elliot, e até Max Von Sydow, que aparece pouco, oferece um grande desempenho. Mais uma vez, vale lembrar que Woody Allen rouba todas as cenas em que aparece. Ele ainda faturou o Oscar pelo fantástico roteiro, que coroou com chave de ouro um dos filmes mais consistentes que já fez.

O DVD, da Fox, é simples e direto: contém o filme com formato original (widescreen), som em inglês (Dolby Digital 2.0) e um trailer. Nada de extras.

– Hannah e Suas Irmãs (Hannah and her Sisters, EUA, 1986)
Direção: Woody Allen
Elenco: Mia Farrow, Michael Caine, Barbara Hershey, Dianne Wiest, Woody Allen
Duração: 104 minutos

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