Happenstance

09/09/2005 | Categoria: Críticas

Simpático filme francês com Audrey Tatou faz retrato acurado da teoria do caos

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

No decorrer do ano de 2004, surgiu um rumor na Internet que dava conta do lançamento em DVD de uma continuação do grande sucesso francês “O Fabuloso Destino de Amèlie Poulain”. Era uma boato que não fazia sentido. Todo mundo sabia que o diretor e a atriz principal do filme haviam feito outro longa-metragem juntos, mas se chamava “Eterno Amor” e não tinha nada a ver com “Amèlie”. Uma boa pesquisada na Web resolveu o problema. A obra citada se chamava “Le Battement d’ailes du Papillon” (em português, “O Bater das Asas da Borboleta”) e havia sido mesmo lançada em DVD com o título de “Amèlie 2”, em Hong Kong.

Não é possível saber se o diretor Laurent Firode soube com antecedência de tal absurdo. Pois é, absurdo: o longa-metragem não tem nenhuma relação criativa com a obra de Jean-Pierre Jeunet. Na verdade, foi filmado e lançado, na França, vários meses antes. O bizarro título asiático apenas tentava pegar carona no sucesso de “Amèlie”, aproveitando o fato de que a atriz principal dos dois filmes era a mesma Audrey Tatou. O mais interessante é que “Le Battement d’ailes du Papillon” acabou sendo lançado nos EUA devido ao sucesso do outro filme, com o nome de “Happenstance”, e chamou a atenção, ainda que em termos modestos.

O filme é uma comédia romântica diferente, que segue uma abordagem mais próxima da obra-prima “Short Cuts”, de Robert Altman, do que do citado “O Fabuloso Destino de Amèlie Poulain”. É um filme sobre o destino, sobre coincidências, que traz no título original sua explicação. Na verdade, o diretor Laurent Firode, que também é roteirista, quis realizar sua própria tentativa de emular em um filme a teoria do caos. Fez uma obra de múltiplos personagens que vêm e vão, em uma complicada teia de encontros e desencontros, mostrada no tom cômico e suavemente melancólico de uma comédia romântica. O resultado é irregular, mas interessante.

Como se sabe, a teoria do caos prega que uma pequena alteração nas condições iniciais de um fenômeno gera uma diferença que vai se ampliando até criar um outro fenômeno, que seria completamente diferente sem a tal alteração. No ditado popular, diz-se que o aparecimento de uma borboleta em determinado cenário pode provocar um furacão no outro lado do mundo, e que esse furacão talvez não existisse se a borboleta não houvesse voado naquele dia. Firode retirou o título do seu filme desse ditado e fez um longa-metragem que funciona quase como uma experiência de laboratório para comprová-lo.

Há pelos menos duas dúzias de personagens importantes no filme: um homem (Eric Savin) envolvido num complicado triângulo amoroso, outro que é mentiroso compulsivo (Eric Feldman), um ladrão (Said Serrari) à procura de uma vítima para roubar, uma garota prestes a se encontrar com um antigo namorado (Irene Ismailoff), um rapaz sonhador (Faudel), uma senhora (Francoise Bertin) que tenta trocar uma cafeteira num supermercado. O que essas pessoas têm em comum? Nada. Mas a platéia vai poder acompanhar, em uma posição de onipresença, um dia na vida dessas pessoas.

A teia montada pelo diretor faz com que cada pequena ação cometida por um personagem (como atirar um sapato velho no meio da rua) vá reverberar, de alguma maneira, na vida de outra, e daí por diante, num perpétuo efeito dominó. Conduzida em um tom ingênuo que remete às comédias de Frank Capra, a história pode parecer confusa no início, quando a narrativa pula de um personagem para outro sem aviso prévio. Uma vez que a platéia se acostuma com os personagens e passa a acompanhar o drama particular de cada um, como um semi-deus que tem o dom da onipresença mas não pode interferir nos destinos, o longa-metragem ganha fôlego.

O maior trunfo do filme, além de boa presença coletiva do elenco, é exatamente o ponto de vista em que coloca a audiência, que é bem original. Em meio a tantas películas que têm trabalhado com a idéia da teoria do caos (o alemão “Corra Lola Corra” e o norte-americano “Efeito Borboleta” são alguns dos mais legais), é provável que “Happenstance” tenha o retrato mais acurado da teoria do caos já visto em um filme. De quebra, é uma comédia simpática e agradável.

O filme não foi lançado no Brasil nos cinemas e nem apareceu em DVD. Nos EUA, uma edição simples saiu em 2002, contendo apenas o filme, com imagem (widescreen 1.85:1) e som (Dolby Digital 2.0) razoáveis. Não há extras no disco da Região 1.

- Happenstance (Le Battement d’Ailes du Papillon, França, 2000)
Direção: Laurent Firode
Elenco: Audrey Tautou, Faudel, Eric Savin, Eric Feldman, Lysaine Méis
Duração: 90 minutos

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