Harry Potter e a Ordem da Fênix

14/11/2007 | Categoria: Críticas

Surpreendentemente bom, quinto filme da série dá nuances emocionais ao personagem-título, transformando-o em figura trágica

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

Premiado por trabalhos na televisão inglesa, o diretor David Yates deu um passo ousado ao estrear no cinema assinando “Harry Potter e a Ordem da Fênix” (Harry Potter and the Order of the Phoenix, EUA/Inglaterra, 2007). Comandar um exemplar da franquia do bruxo adolescente não é nenhum doce de coco. O tamanho da produção, que envolve uma equipe técnica formada por algumas centenas de especialistas e pelo menos três dúzias de atores experientes, é capaz de intimidar até mesmo veteranos. Por causa disso, antes mesmo do lançamento, muitos fãs temiam pelo resultado do filme, cuja narrativa é a mais longa e intrincada da série de romances da inglesa J.K. Rowling.

O resultado final, porém, é surpreendentemente bom (especialmente para quem não leu os livros e não tem como fazer comparações desnecessárias). Apesar de amarrado pela necessidade de ser excessivamente fiel ao livro, sob pena de fazer o filme sucumbir ao peso das reclamações dos milhões de fãs irados que querem ver na tela cada detalhe da trama dos livros, Yates foi capaz de elevar as nuances emocionais do protagonista a um novo patamar. Mesmo com três dúzias de personagens, que emperram e enferrujam a narrativa, fazendo-a ranger como uma fechadura velha, o novo diretor teve sucesso na tarefa de humanizar o bruxo adolescente. O filme logra sucesso ao transformá-lo em uma figura trágica, atormentada, que finalmente empresta à serie, como um todo, uma dimensão apenas sugerida nos capítulos anteriores.

“Harry Potter e a Ordem da Fênix” não tem a inventividade visual, as elipses criativas ou o arrojo dramático de “O Prisioneiro de Azkaban”, terceiro filme da série, e primeiro em que o personagem ganhou multidimensionalidade. Também não possui as seqüências fogosas (a partida de quadribol, o confronto no labirinto) de “O Cálice de Fogo”, quarto exemplar da franquia. Estes dois são considerados por todos os melhores filmes com o personagem. Por outro lado, “A Ordem da Fênix” supera de longe o tom didático e infanto-juvenil dos dois primeiros títulos (“A Pedra Filosofal” e “A Câmara Secreta”). Um olhar mais atento, porém, dribla todas essas observações acima. A chave para apreciar o que há de melhor no quinto longa da franquia é analisá-lo como parte de um todo maior, e não como um filme que se basta em si mesmo. Este é o capítulo da história de Potter que se firma como peça fundamental na tarefa de dar unidade e peso dramático à série. É preciso, contudo, vê-la como uma história única dividida em sete capítulos.

O trabalho fundamental de Yates foi manter intacto o cerne dos últimos dois filmes – as aventuras, as intrigas, os namoricos, o primeiro beijo, tudo isso é poeira para os olhos. O que interessa está sob a superfície: a evolução dramática do protagonista, a sua transformação. O diretor acerta ao acrescentar novas camadas psicológicas ao desenvolvimento de Potter, tornando-o um personagem mais trágico e mais complexo. Nos dois primeiros filmes, o pequeno bruxo era só um fedelho assustado com certo talento para mágica. O mexicano Alfonso Cuarón e o inglês Mike Newell iniciaram a transformação do pirralho em adolescente com hormônios agitados. Yates vai mais longe, e completa a tarefa ao radiografar Potter como um líder inseguro e triste, um rapaz solitário para quem o talento nato para a magia é menos uma benção e mais uma maldição. “A Ordem da Fênix” antevê aspectos trágicos e sombrios que, nos dois capítulos finais da série, darão à jornada de Harry Potter um sentido completo de humanidade.

Na tarefa de transpor os eventos mostrados no livro – uma maçaroca de 700 páginas – para a tela, Yates e o roteirista Michael Goldenberg mostram poder de síntese. É verdade que a trama sofre com os excessos de personagens e pequenas aventuras secundárias, mas a dupla sabia que não havia maneira de driblar este problema com cortes muito radicais na narrativa. Deste problema decorrem outros, como o grande número de diálogos expositivos (talvez um problema que Yates trouxe de seu passado televisivo, já que n TV estes diálogos são comuns). Um exemplo claro: numa confissão de grande carga emocional, em conversa com o padrinho e mentor Sirius Black (Gary Oldman), Potter diz estar sentindo raiva o tempo todo, e teme que isto seja um sinal de que pode estar se transformando em um novo Voldemort, o grande vilão da série. A resposta de Black é o melhor momento do filme, mas este diálogo não encontra amparo nas cenas que vieram antes – quantas vezes, neste filme, você tinha visto Harry Potter com raiva?

Entre os pontos negativos também estão, por incrível que pareça, alguns dos efeitos visuais. Embora as aventuras de Harry Potter integrem uma das franquias mais milionárias do cinema contemporâneo, com cada filme arrecadando cerca de US$ 1 bilhão nas bilheterias, a qualidade dos efeitos digitais não se compara aos melhores filmes (“King Kong”, “Homem-Aranha”) de Hollywood. Aqui, isto fica evidente a partir do design pobre, nada realista, da criatura de maior destaque na trama – o gigante Grope, meio-irmão de Hagrid (Rob Coltrane). Construído em CGI, com a mesma técnica utilizada para compor o magistral Gollum (de “O Senhor dos Anéis”, ainda a maior referência na área), o gigante debilóide tem evidente dificuldade em demonstrar sentimentos através das expressões faciais.

Por outro lado, a vibrante seqüência final – um duelo de mágicos empolgante, cheio de perigo e totalmente realista – mostra que o esforço para criar bons efeitos especiais foi empregado aonde realmente era necessário. Outro grande acerto é a clara evolução do ator Daniel Radcliffe, que interpreta Harry Potter. Até o terceiro filme, parecia que o menino carecia de talento dramático, mas “A Ordem da Fênix” confirma o crescimento dele como intérprete – tanto isso é verdade que Radcliffe engole todos os outros atores-mirins com quem contracena, estando quase à altura de pesos pesados como Michael Gambon (o sábio Dumbledore) e a magistral Imelda Staunton, que está espetacular na pele de Dolores Umbridge, a interventora casca-grossa da escola de Hogwarts cuja paixão por gatos e roupas cor-de-rosa esconde uma pessoa inflexível e sádica.

Um problema especialmente claro – mas não exatamente um defeito – é a grande quantidade de referências a personagens e eventos mostrados nos quatro filmes anteriores da série. Até o quarto longa, os novatos poderiam mergulhar no universo mágico de J.K. Rowling sem seguir a série cronologicamente, mas isto não ocorre desta vez. De qualquer forma, este dado confirma a maior virtude de David Yates: ver “Harry Potter e a Ordem da Fênix” não como uma aventura isolada, mas como filme de transição da franquia, uma ponte que prepara o protagonista para visitar uma dimensão emocional que os filmes anteriores apenas insinuavam. Em outras palavras, pode ser que este longa-metragem não seja percebido no futuro como a melhor aventura do bruxo adolescente no cinema, mas certamente será visto como aquele que transformou um rapazinho promissor em um personagem sólido.

O DVD da Warner no Brasil é simples para as locadoras e duplo para os fãs que comprarem o disco. Como os demais filmes da série, tem um problema grave: a imagem tem enquadramento cortado nas laterais (formato 1.33:1, em tela cheia). O som, por outro lado, é ótimo (Dolby Digital 5.1, com trilha dublada). O disco 2 tem três featurettes sobre aspectos das filmagens, cenas cortadas e jogos interativos. Tudo com legendas em português.

– Harry Potter e a Ordem da Fênix (Harry Potter and the Order of the Phoenix, EUA/Inglaterra, 2007)
Direção: David Yates
Elenco: Daniel Radcliffe, Imelda Staunton, Michael Gambon, Gary Oldman
Duração: 138 minutos

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