Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte 1

19/11/2010 | Categoria: Críticas

Direção eficiente e esforço no roteiro não conseguem esconder a ausência do terceiro ato, causada pela decisão de dividir o filme final da franquia em duas partes

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

Será que é realmente justo avaliar um filme após assistir apenas a metade dele? A pergunta salta à mente logo após a breve tomada estilo “cenas do próximo capítulo” que encerra o longa-metragem “Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte 1” (Harry Potter and the Deathly Hallows: Part 1, EUA/Reino Unido, 2010), sétima parte da franquia cinematográfica baseada nos livros de J.K. Rowling. Afinal de contas, essa é a natureza do enredo do filme, que cobre pouco mais da metade do romance em que ele foi baseado. E não adianta tapar o sol com a peneira. A decisão de dividir a obra em duas partes foi tomada por razões financeiras, por mais que o estúdio responsável – a Warner – diga o contrário.

Em si, essa decisão não é intrinsecamente má. A própria Warner fez circular na mídia, por meses a fio antes da estréia, que a razão concreta para a decisão teria sido a grande quantidade de eventos contidos na trama, e que a divisão ajudaria a preservar a maior parte deles, evitando assim desagradar aos fãs mais radicais. No entanto, por mais que o esforço do diretor David Yates e do roteirista Steve Kloves para dar à estrutura narrativa do longa a aparência de um enredo em três atos, o final insosso e decepcionante escancara o fato de que o público acabou de assistir a apenas dois atos de uma peça dramatúrgica que contém três.

Antes que qualquer coisa seja dita sobre o filme em si, é de fundamental importância observar que “Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte 1” só faz sentido para as pessoas que acompanham a série e, de preferência, leram os livros (ou ao menos tenham na memória os eventos mostrados nos filmes anteriores). Há tantos personagens, objetos, feitiços, lugares e criaturas (muitos mostrados, outros apenas mencionados de passagem) que até mesmo os fãs menos atentos correm o risco de se perder em meio a tanta informação, que o roteirista Steve Kloves costura habilmente no meio dos diálogos. Essa habilidade, contudo, não impede que aqueles pouco versados no universo do bruxo adolescente – me incluo nesse grupo – sintam-se mais perdidos do que um índio tupinambá no meio da Avenida Paulista.

Para contrabalançar esse problema, o fio condutor da narrativa é um fiapo de trama. Harry Potter (Daniel Radcliffe), auxiliado pelos amigos Rony (Rupert Grint) e Hermione (Emma Watson), precisa procurar os sete horcruxes – objetos que, reunidos, formam a alma de seu maior inimigo – para destruir o maligno Voldemort (Ralph Fiennes), enquanto foge da perseguição orquestrada pelos seguidores deste. Um monte de atores ingleses de gabarito (Helena Bonham Carter, John Hurt, Bill Nighy, Imelda Staunton) lutam dos dois lados da guerra, filmada de maneira impecável pelo diretor David Yates. Além de manter a fotografia escura e dessaturada durante todo o filme, reforçando a atmosfera soturna e depressiva com locações enormes, góticas, ameaçadoras e constantemente vazias, ele também enxerta no filme todo um subtexto político a respeito de regimes autoritários.

A Londres habitada por Potter é, agora, uma espécie de versão sobrenatural da Berlim de Hitler, com bruxos no lugar dos nazistas. A aparentemente desimportante seqüência em que dois simpatizantes dos bruxos atacam uma lanchonete onde Harry Potter come junto com os amigos espelha maliciosamente os ataques do IRA, o que ajuda o filme a crescer bastante para os olhos adultos. Já os adolescentes são premiados com algumas imagens dignas de bons filmes de horror – a abertura, com uma serpente gigantesca devorando um ser humano, e a brilhante animação que conta a história do encontro de três irmãos com a Morte, são ótimos exemplos – e com uma subtrama bastante vívida que lida com ciúmes, amizade e amor possessivo. Isso é o que de melhor “Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte 1” tem a oferecer.

Por outro lado, o clima de segundo ato sobressai durante todo o filme, em que Potter e seus amigos saltitam de um lado a outro do território inglês, sempre habitando terras desoladas, na tentativa de se esconder dos bruxos que os perseguem e ao mesmo tempo encontrar as horcruxes, praticamente elimina da trama todos os resquícios de ação física em seu terço final, que supostamente deveria ser o momento mais emocionante do filme. Se o gancho da cena final deixa o espectador salivando para assistir ao próximo filme, ao mesmo tempo em que homenageia os grandes seriados de aventura dos anos 1930, apenas varre para baixo do tapete o problema de estrutura que o roteiro não conseguiu resolver: “Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte 1” simplesmente não tem um final. Ou seja, o negócio é esperar pela Parte 2.

– Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte 1 (Harry Potter and the Deathly Hallows: Part 1, EUA/Reino Unido, 2010)
Direção: David Yates
Elenco: Daniel Radcliffe, Rupert Grint, Emma Watson, Bill Nighy
Duração: 146 minutos

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