Harry Potter e o Cálice de Fogo

17/11/2010 | Categoria: Críticas

Quarto filme da série enxuga excessos do livro e se concentra em dois temas: a chegada da adolescência e o retorno de Voldemort

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

A chegada da adolescência e o retorno do temido Voldemort. Esses são os temas básicos de “Harry Potter e o Cálice de Fogo” (Harry Potter and the Goblet of Fire, EUA/Inglaterra, 2005), quarta aventura do bruxinho inglês nos cinemas. Os assuntos representam, também, as duas linhas narrativas principais do longa-metragem, e o maior acerto dentre vários cometidos pelo diretor Mike Newell. Ao decidir eliminar várias histórias paralelas que aconteciam no livro e se concentrar em apenas dois temas, o primeiro cineasta inglês a dirigir um filme da franquia tomou uma decisão difícil, mas acertada. Mais enxuta, sombria e violenta, a trama de “O Cálice de Fogo” faz a película dar continuidade à qualidade ascendente que o mexicano Alfonso Cuarón agregou à série, a partir do título anterior.

Produtores e fãs da obra da escritora inglesa J.K. Rowling temiam pelo filme desde que a pré-produção começou. Eram vários os problemas. O principal estava no grande número de novos personagens, que por sua vez viviam uma quantidade de aventuras grande demais para caber em uma única película. Por isso, o roteirista da série, Steve Kloves, chegou a considerar dividir o livro em dois. Foi quando Mike Newell entrou no projeto e impôs a sua opinião: teria que haver vários cortes, mas o livro deveria render um só filme. Ele achava que a trama tinha um fio narrativo único, que era a chegada da adolescência. A abordagem desse tema já havia sido o maior acerto de Alfonso Cuarón em “O Prisioneiro de Azkaban”, e Mike Newell decidiu continuá-lo, focando o amadurecimento de Harry Potter.

A chegada da adolescência significava, obviamente, aumentar a voltagem de violência e de cenas sombrias. Isso é algo que pode ser observado em diversos momentos. As cenas de luta são mais fortes, o bruxo verte sangue em pelo menos um momento crucial, e a morte aparece finalmente entre os personagens importantes da aventura; nada disso havia acontecido nos três filmes anteriores. Esse tratamento mais realista repercutiu na censura obtida nos Estados Unidos: PG-13 (ou seja, menores de 13 anos só podem entrar nos cinemas acompanhados dois pais). Os três filmes anteriores haviam recebido a classificação “Livre”.

Newell era um nome temido pelos fãs. Diretor discreto, bastante versátil (é dele o sucesso “Quatro Casamentos e Um Funeral”) e pouco afeito aos efeitos especiais, ele entrou no projeto apenas porque Cuarón recusou o convite feito para dirigir o quarto exemplar cinematográfico de Harry Potter. Com o mundo do bruxinho já estabelecido, em termos visuais, ele pôde se dedicar com mais ênfase à adaptação do texto e à escalação de um elenco de reconhecida capacidade dramática. Trouxe três atores veteranos que são grandes destaques em “O Cálice de Fogo”: Brendan Gleeson (de “Gangues de Nova York”) como Olho-Tonto Moody, novo professor de Defesa contra as Artes das Trevas; Miranda Richardson (de “Spider”) como a repórter sensacionalista Rita Skeeter; e Ralph Fiennes (de “O Jardineiro Fiel”), como o temido Lorde Voldemort, em sua primeira aparição de corpo inteiro.

Alguns dos cortes propostos por Newell podem desagradar aos fãs mais radicais da série de livros. Uma das mudanças mais importantes é a ausência dos tios malvados com quem Harry Potter vive, os Dursley. A família tradicionalmente abre as aventuras do bruxinho, sempre tomando um novo pito pela arrogância desmedida. Em “O Cálice de Fogo”, porém, o filme inicia com um pesadelo do pequeno bruxo (se alguém pensou no sonho de Frodo que abre “As Duas Torres”, parte dois da trilogia “O Senhor dos Anéis”, pensou certo – a situação é idêntica). Potter, agora com 14 anos, sonha com Voldemort. Só que tem pouco tempo para refletir sobre o significado do pesadelo, pois a família Weasley o leva para a final da Copa do Mundo de Quadribol, a fim de assistir a uma partida eletrizante do esporte predileto dos feiticeiros.

Durante o evento, um grupo de seguidores radicais de Voldemort, chamados de Comensais da Morte, reaparece. O surgimento nos céus da Marca Negra do Lorde das Trevas indica que o espectro de Voldemort está planejando seu retorno ao mundo dos vivos. Mas Potter não tem tempo de investigar a relação entre a aparição dos seguidores do mago e o seu pesadelo. Quando chega na escola de magia de Hogwarts, é misteriosamente escolhido pelo Cálice de Fogo do título, um artefato mágico, para representar a instituição no famoso Torneio Tribruxo. Por ter idade insuficiente para competir e não ter indicado o próprio nome, Potter não poderia ser sido escolhido. Isso significa que alguém pôs o nome dele no Cálice. Quem seria o traidor?

Vale lembrar que Hogwarts está sediando a competição. Por isso, recebe os alunos de outros dois colégios (um búlgaro, de rapazes, e o outro francês, de garotas) como hóspedes, durante todo o ano. Com tantos rapazes e moças convivendo juntos, na idade dos hormônios em ebulição, o cenário está armado para um filme que reúne todos os sinais clássicos da chegada da adolescência. Toda a primeira metade de “O Cálice de Fogo” se dedica a esse tema, sem que falte nada: uma briga de Potter com o melhor amigo por ciúme pueril, um baile de inverno em que os garotos precisam convidar as garotas para dançar (o que, obviamente, a maioria deles tem tremenda dificuldade em fazer), e paquera rolando solta.O longa-metragem se dá até ao luxo de armar situações que só serão desenvolvidas em filmes seguintes, como a constatação de que Ron e Hermione (Emma Watson) se gostam, apesar de ainda não terem percebido isso.

Embora a decisão de usar a chegada da adolescência como fio narrativo seja correta, “O Cálice de Fogo” comete alguns deslizes no processo de entrelaçar esse tema com a ameaça de Voldemort. A rigor, o mistério principal que Potter precisa resolver no filme diz respeito ao retorno iminente do arqui-vilão, mas esse assunto fica na sombra pela maior parte do tempo. Às voltas com o Torneio Tribruxo e com as paqueras, o bruxo adolescente quase não pensa no inimigo. Ou seja, o roteiro deixa os dois temas principais do filme bem compartimentados: Voldemort na abertura e no encerramento, e a adolescência no meio disso.

Não se pode dizer, também, que Mike Newell foi inteiramente bem sucedido na tarefa de trabalhar todas as dezenas de personagens da franquia de filmes. Apesar dos 157 minutos de duração, parte dos coadjuvantes dos três primeiros filmes não encontra espaço em cena. Severo Snape (Alan Rickman), Hagrid (Robbie Coltrane) e a professora Minerva (Maggie Smith) só possuem uma cena curta, cada um. Sirius Black (Gary Oldman) nem aparece fisicamente, tendo um único diálogo com o pequeno bruxo. Por outro lado, o diretor Alvo Dumbledore (Michael Gambon) ganha bastante espaço, até mais do que nas aventuras anteriores.

Um problema menor, mas que incomoda, é a utilização excessiva de estereótipos, clichês oriundos de outros filmes da indústria cinematográfica. Isso pode ser visto, por exemplo, na caracterização das escolas adversárias (os búlgaros, durões e mal-encarados, estudam em uma escola militar de inspiração nazi-fascista; as francesas são meninas que se vestem como Coco Chanel, refinadas e dóceis) e também na maneira pouco ética como se comporta a jornalista Rita Skeeter, sempre pronta a mentir para conseguir uma entrevista. A caracterização de repórteres como abutres antiéticos é norma comum em Hollywood desde os anos 1930.

Para os mais atentos, o filme possui um grave erro de roteiro que envolve o olho mecânico do professor Moody. Durante toda a trama, ele utiliza o efeito de zoom do aparelho para vigiar Harry, graças a um pedido do professor Dumbledore. Essas cenas são mostradas do ponto de vista subjetivo, como se a platéia de repente estivesse espiando através do olho do mago. Uma importante revelação acerca do personagem, no final do filme, porém, põe a utilização desse equipamento sob suspeita. Isso invalidaria os planos subjetivos que mostram o olho funcionando.

Diante da magnitude dos acertos, contudo, esses problemas ficam em segundo plano. A exuberância visual da série continua impressionante, como demonstra o visual sensacional do enorme estádio de quadribol, no início do filme, em que a platéia fica acomodada em inúmeros andares. O caráter gótico da série é ressaltado ainda mais pela opção de Newell em dar continuidade ao que Cuarón havia feito em “O Prisioneiro de Azkaban”: usar muitas cenas em interiores e jamais mostrar o sol brilhando. O céu sempre nublado, o frio e a neve são detalhes visuais que sublinham o caráter sombrio da aventura.

Na parte dos efeitos especiais, a série também dá conta do recado, embora a interação entre os atores e as criaturas digitais nem sempre seja perfeita (observe, por exemplo, a cena em que os competidores sorteiam miniaturas dos dragões com quem lutarão, numa cena meio artificial). De todo modo, o design desses seres fantásticos é muito bom, com um toque cartunesco bem vindo, algo que pode ser conferido na seqüência que envolve as sereias e também no vitral animado que parece homenagem a “O Enigma da Pirâmide”, de Barry Levinson.

As cenas de ação, por sua vez, são eletrizantes, com destaque para o combate entre Harry e o dragão. Amarrando tudo isso com brilhantismo, a atuação magnética de Ralph Fiennes transforma o Lorde Voldemort na figura ameaçadora que a série, até aqui, ainda não havia conseguido materializar. O maligno Lorde das Trevas garante o clímax mais poderoso dos quatro filmes iniciais da franquia; é quando a morte dá as caras em Hogswart e, pela primeira vez nos filmes de Potter, a platéia sente que os personagens principais são vulneráveis e podem morrer a qualquer momento.

Com tudo isso, “O Cálice de Fogo” dá seqüência à jornada de Potter de maneira cada vez mais sombria, ilustrando muito bem seu processo de amadurecimento. Talvez Mike Newell não tenha a sutileza do mexicano Cuarón para cenas mais íntimas, como as desajeitadas tentativas de Harry Potter em arrumar uma companhia feminina para o baile de inverno, mas é certo que ele soube captar a essência da série e desenvolvê-la com qualidade. Se levarmos em conta que o público-alvo dos filmes cresce na mesma proporção do protagonista, todas as peças estão no lugar certo.

O DVD da Warner no Brasil é simples para as locadoras. Há versões dupla e tripla para os fãs que comprarem o disco. Somente a edição de três discos tem imagem no formato original (wide anamórfico). O som, por outro lado, é ótimo (Dolby Digital 5.1, com trilha dublada). O disco 2 tem documentários sobre as seqüências mais interessantes (o baile, a luta com o dragão), entrevistas com o elenco, cenas cortadas e quatro jogos interativos, em que o usuário pode tentar conquistar uma versão virtual do Torneio Tribruxo. O terceiro disco traz um documentário, centrado nas músicas e na edição de som da franquia.

– Harry Potter e o Cálice de Fogo (Harry Potter and the Goblet of Fire, EUA/Inglaterra, 2005)
Direção: Mike Newell
Elenco: Daniel Radcliffe, Emma Watson, Rupert Grint, Ralph Fiennes, Brendan Gleeson
Duração: 157 minutos

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