Harry Potter e o Enigma do Príncipe

18/11/2009 | Categoria: Críticas

Sexta aventura do bruxo adolescente acerta na atmosfera cada vez mais sombria e valoriza os conflitos emocionais típicos da adolescência

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

O cineasta inglês David Yates estreou na tela grande comandando a quinta aventura cinematográfica do bruxo adolescente oriundo da literatura infanto-juvenil. Conseguiu a proeza de reduzir uma maçaroca de mais de 700 páginas para um longa-metragem enxuto de duas horas e meia, sem deixar de lado a fidelidade ao livro tão exigida pelos milhões de fãs. Por esta razão, foi mantido pelos produtores no comando de “Harry Potter e o Enigma do Príncipe” (Harry Potter and the Half-Blood Prince, Reino Unido/EUA, 2009), sexta aventura do herói no cinema. E se sai bem na tarefa, contando a história de maneira segura e extraindo da equipe de pós-produção os melhores efeitos especiais em CGI de toda a série.

O filme é tudo aquilo que os leitores da série, escrita pela inglesa J.K. Rowling, esperam. Traz de volta as três dúzias de personagens queridos da franquia literária (a maioria deles, como o gigante Hagrid e a professora Minerva, em participações minúsculas que consistem em recitar duas ou três frases) e abre generoso espaço para seqüências pomposamente ritualizadas, que revisitam famosos ambientes do castelo de Hogwarts vistos em filmes anteriores (como o salão de jantar). Mais importante: mantém a tradição de investir em duas linhas narrativas paralelas. A primeira envolve a maturidade física e emocional de Potter e colegas, com paqueras e crises de ciúme a torto e a direto; a outra diz respeito à investigação sobre o passado do bruxo Voldemort, cada vez mais ameaçador e poderoso.

Há várias maneiras de analisar “Harry Potter e o Enigma do Príncipe”; o filme se sai razoavelmente bem algumas, mas deixa a desejar em outras. Quando se analisam os aspectos do enredo, por exemplo, obtém-se um paradoxo curioso. Como filme isolado, “O Enigma do Príncipe” mostra-se desigual e de ritmo frouxo, dedicando tempo demais a intrigas adolescentes e acelerando o clímax de tal maneira que corremos o risco de se perder em meio às minúcias (especialmente aqueles de nós que não leram os livros, meu caso).

Já como parte integrante de uma série, o longa atinge resultado oposto, respondendo a uma série de perguntas que haviam ficado pendentes nas aventuras anteriores. Como e de que maneira Voldemort conseguiu ressuscitar, sem que os bruxos de bem percebessem a manobra? Qual a relação dele com o castelo de Hogwarts, que parece conhecer tão bem? E em que lado da guerra se encaixa o ambíguo professor Severo Snape (Alan Rickman), tão importante nos três primeiros filmes e tão sumido nos dois seguintes? “Harry Potter e o Enigma do Príncipe” encaixa perfeitamente essas peças no quebra-cabeça gigantesco que é a franquia inglesa.

Um grande destaque no filme de David Yates deve ser dado à concepção visual. Direção de arte e fotografia seguem fielmente o conceito geral estabelecido para a série, que consiste em tornar a atmosfera mais sombria e violenta a cada novo filme. “O Enigma do Príncipe” atinge o ápice dessa estratégia indo contra a lógica utilizada até “A Ordem da Fênix”; a tendência barroca de atulhar o castelo de Hogwarts de quartos e salões e intermináveis objetos decorativos foi acertadamente abandonada, em prol de um design de produção mais limpo, que prioriza espaços vazios e sombras, além de investir em uma paleta de cores restrita, com muito cinza, azul, chumbo e negro.

Seguindo outra tradição – fazer da série uma espécie de portfólio de grandes atores ingleses –, David Yates agrega ao elenco o versátil Jim Broadbent (no papel no novo professor de Porções). Com tanta gente talentosa à frente das câmeras, Yates se dá ao luxo de prescindir da presença de Ralph Fiennes (o intérprete de Voldemort não aparece) e utiliza em raras cenas atores qualificados do porte de Helena Bonham Carter e Timothy Spall – este último entra mudo e sai calado, aparecendo por meros dois segundos ao abrir uma porta.

Antes de lamentar essa decisão, contudo, é importante lembrar que “Harry Potter e o Enigma do Príncipe” é legítimo exemplar de uma série infanto-juvenil, cujo público alvo é formado por garotos entre 12 e 20 anos. Para que a magia funcione (sem trocadilhos), esse publico precisa ver os dramas, desejos e problemas do cotidiano devidamente representados na tela. Vem daí o interesse genuíno com que David Yates filma as desventuras amorosas de Potter e seus amigos, e provavelmente essa é a parte mais vívida e interessante do filme. Portanto, ao ver este filme, não adianta reclamar de falta de verossimilhança ou densidade emocional – se é isso que você deseja ver, vá à prateleira de drama da locadora mais próxima ou tente um filme com censura 18 anos. Para o que se propõe, “O Enigma do Príncipe” é bem divertido.

A Warner lançou o filme em DVD no Brasil em versões simples e dupla. A primeira traz apenas o filme, com enquadramento correto (widescreen anamórfico) e áudio em seis canais (Dolby Digital 5.1). A segunda agrega um segundo disco, contendo dois documentários (sobre o elenco e sobre a autora dos livros, J.K. Rowling), jogos infantis e trailers.

– Harry Potter e o Enigma do Príncipe (Harry Potter and the Half-Blood Prince, Reino Unido/EUA, 2009)
Direção: David Yates
Elenco: Daniel Radcliffe, Michael Gambon, Jim Broadbent, Emma Watson
Duração: 153 minutos

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