Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban

17/11/2010 | Categoria: Críticas

Cineasta Alfonso Cuarón usa os mesmos ingredientes, mas faz filme ainda mais gostoso do que os anteriores

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

Nas entrelinhas dos livros de Harry Potter, é perceptível uma dura estrutura de eventos, uma fórmula que a autora, a inglesa J.K. Rowling, obedece com muito rigor. O bruxo adolescente começa cada ano na casa dos tios trouxas, segue rumo à escola de Hogwarts depois de alguma confusão e encontra lá três coisas: um novo professor, pelo menos uma nova criatura fantástica e um mistério para resolver. Por isso, é muito bom perceber que o cineasta mexicano Alfonso Cuarón foi capaz de colocar alguma individualidade em cima dessa estrutura para criar o ótimo “Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban” (Harry Potter and The Prisoner of Azkaban, EUA, 2004).

Cuarón foi escolhido para a tarefa devido ao sucesso do pequeno road movie “E Sua Mãe Também”, que aborda com sensibilidade a temática da adolescência. O mundo dos hormônios em ebulição é um universo em que o diretor sempre soube se mover com desenvoltura, e por isso muita gente depositava nele a esperança de um grande longa-metragem. Claro, “Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban” não é um filme autoral e a assinatura do diretor não aparece tão evidente assim. Mesmo assim, ao traduzir para a telona a atmosfera mais sombria do terceiro livro da série, Cuarón se deu bem.

O diretor trabalhou basicamente com a mesma equipe dos dois primeiros filmes, incluindo o roteirista Steve Kloves e o trio de protagonistas (os atores Daniel Radcliffe, Emma Watson e Rupert Grint). Daí a coesão visual e temática deste filme com os dois anteriores, apesar da mudança de diretor. Cuarón, contudo, foi capaz de levar a direção de arte um passo além, retirando um pouco do ar solene das outras obras e dando aos adolescentes um figurino um pouco mais moderno.

Em termos cinematográficos, o diretor evitou os closes, preferindo captar imagens com a câmera mais distante dos personagens e usando lentes grande-angulares. Com essas escolhas, pôde mostrar os mesmos cenários dos filmes anteriores de uma maneira mais misteriosa e intimidante, enfatizando a grandiosidade dos ambientes a solidão do protagonista. Além disso, Cuarón caprichou na exibição de paisagens visuais góticas para exprimir o tom sombrio que o filme exige. Repare, por exemplo, que o Sol quase nunca brilha durante todo o filme; há uma grande quantidade de cenas que acontecem à noite, durante tempestades ou com o céu carregado de nuvens.

Dentro do pequeno espaço que tinha para mexer na estrutura do filme, o diretor conseguiu ótimos resultados. Cuarón reduziu bastante a duração da tradicional abertura na casa dos Dudley e fez a seqüência com muito pouco senso de humor, o que serve bem ao objetivo da cena. De uma vez só, ele economiza tempo para desenvolver a verdadeira trama na escola de Hogwarts e mostra como Potter cresceu e se tornou um adolescente irritado (duas palavras que são quase sinônimos, certo?). Por causa dessa decisão, o filme ganha ritmo mais ágil.

“Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban” segue o estilo quebra-cabeças. Na viagem à escola de magia, Potter conhece o novo professor de Defesa Contra as Artes das Trevas, Lupin (David Thewlis), e encontra pela primeira vez um Dementador. Essa raça de seres sobrenaturais, de índole má, está guardando os limites de Hogwarts da possível aparição de um bruxo do mal, Sirius Black (Gary Oldman). Eles são assustadores, mas pouco originais (visualmente, parecem demais com os Espectros do Anel, de outra trilogia que você deve conhecer). Sirius Black escapou da prisão mágica de Azkaban e há suspeitas de que ele possa estar tramando a morte de Potter, já que é seguidor do temível Lorde Voldemort.

Os elementos do quebra-cabeças incluem um mapa mágico, um animal lendário (o hipogrifo, metade cavalo e metade águia), um lobisomem e viagens no tempo. Parece um samba do crioulo doido, mas com a economia conseguida na cena de abertura, Cuarón tem tempo de desenvolver todos esses aspectos com tranqüilidade, explorando bem as cenas mais tensas (a partida de quadribol disputada sob raios e trovões e todo o longo epílogo com Harry e Hermione). Além disso, amarra todas as pontas soltas, construindo no final um filme mais coeso, mais inteligente e mais curto (pouco menos de 2h20) do que os dois antecessores.

Como trunfo, o diretor também usa bem os nomes mais experientes do elenco. Thewlis ganha mais destaque em cena, servindo de apoio para a pouca desenvoltura dramática de Daniel Radcliffe, mas é Gary Oldman quem rouba a cena como o loucão Sirius Black, mesmo aparecendo durante pouco tempo na tela. Michael Gambon dá conta direitinho do recado de substituir o saudoso Richard Harris como Dumbledore, o diretor da escola, e Emma Thompson aparece muito pouco como a professora Sibila Trelawney.

É interessante notar, também, como o crescimento afetou a interpretação das crianças. Outrora destaque do primeiro filme, Rupert Grint (o ruivo Rony Weasley) virou o elo mais fraco do elenco em “Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban”. Cuarón percebeu isso e o deixou de fora de boa parte das aventuras vividas por Harry. Isso acaba sendo duplamente favorável ao filme, pois Grint é o que na linguagem do cinema se chama de contraponto cômico: o personagem que faz a platéia rir. Como momentos engraçados praticamente não existem nesse filme, sua ausência é benéfica. Alfonso Cuarón fez uma aventura sombria, que pode ser assistida sem problemas por quem não viu os primeiros dois filmes da série. E isso é muito legal.

EM DVD, o longa-metragem pode ser visto em duas versões. Uma, simples, traz apenas o filme. A versão dupla tem um segundo disco, com documentário, jogos infantis e cenas excluídas, tudo devidamente legendado. A nota negativa fica por conta da imagem em formato 4×3, com cortes laterais no enquadramento original.

– Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban (Harry Potter and The Prisoner of Azkaban, EUA, 2004)
Direção: Alfonso Cuarón
Elenco: Daniel Radcliffe, Emma Watson, David Thewlis, Gary Oldman
Duração: 136 minutos

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