Hedwig – Rock, Amor e Traição

17/12/2004 | Categoria: Críticas

John Cameron Mitchell dirige, roteiriza e protagoniza musical diferente e imprevisível

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

A cultura MTV se infiltrou no cinema de modo tão forte que gerou um paradoxo esquisito. As técnicas de edição veloz, popularizadas pelos videoclipes, foram aplicadas ao cinema e geraram uma mudança progressiva no gosto do espectador médio. Uma das muitas conseqüências desse novo padrão estético foi a morte do musical clássico de Hollywood. Chega a ser irônico: uma TV dedica à música matou o musical. Mas foi isso o que aconteceu. Acostumada ao padrão MTV, a platéia passou a considerar o gênero como um elefante numa sala de estar: kitsch, exótico, lento, fantasioso e chato. Por causa desse preconceito, muita gente torce o nariz quando ouve dizer que “Hedwig – Rock, Amor e Traição” (Hedwig and the Angry Inch, EUA, 2000) é um musical. Que pena: estão perdendo um filme jovem, divertido, dinâmico e com música de qualidade.

“Hedwig” tem origem em uma peça de sucesso na Broadway. Nasceu, na verdade, como um musical para os palcos. Dois anos depois se montado pela primeira, um dos autores da peça decidiu escrever uma versão para o cinema. John Cameron Mitchell foi ousado na empreitada. Mesmo sem experiência na área cinematográfica, escrevei sozinho o roteiro do filme, assumiu a direção e atuou no papel principal. Uma missão suicida e que tinha tudo para dar errado, porque transformar teatro em cinema não é algo simples. Surpresa: Mitchell conseguiu sucesso três vezes. O filme tem direção segura, roteiro eficiente e um protagonista impagável.

A narrativa do longa-metragem combina duas ações em tempos diferentes. No presente, Hedwig (Cameron Mitchell) é um transexual originário da Alemanha Oriental que faz uma turnê musical por bares e restaurantes (!) dos Estados Unidos. Vestidos com roupas espalhafatosas de cores berrantes, Hedwig e banda perseguem a monstruosa turnê de Tommy Gnosis (Michael Pitt), uma estrala da música pop, a quem acusam de usar as canções compostas junto com a bicha alemã (no bom sentido) sem dar a ela o devido crédito.

As apresentações, invariavelmente, culminam com confusões, enquanto Hedwig desconta a frustração por não estar sendo reconhecido como artista de primeira grandeza no público abobalhado e conservador que os assiste. A seqüência em que a banda executa a canção que dá título ao filme (e que explica a existência da “polegada irada” da letra original) é um primor. A música conta uma história perfeitamente sincronizada com o enredo que está sendo narrado. As autobiográficas são o recuso utilizado pelo roteirista para encaixar várias músicas, no filme, que complementam e arrematam as histórias vistas em flashback sobre a trajetória de Hedwig, da Alemanha aos EUA, passando pela cirurgia mal-sucedida de mudança de sexo e pela confusa parceria amorosa/musical com o inocente rapazola filho de militar que viria a ser o famoso Gnosis.

Para começar, o figurino de “Hedwig” é um luxo, algo como desfile-da-Mangueira- encontra- show-do-Kiss. O roteiro também fez bonito, misturando cenas do presente (a turnê) e do passado (a história de Hedwig) com fluidez e confiança, e de quebra ainda encaixando várias canções de ótima qualidade. A trilha sonora é destaque absoluto. As músicas misturam a crueza do punk com a força melódica do glitter rock, soando como um New York Dolls mais moderno. “Wig In a Box” e a longa saga “The Origin of Love”, esta cantada em dois momentos bem diferentes poderiam tranqüilamente fazer parte do repertorio dos Dolls. Detalhe importante é que o ator Stephen Trask, co-autor da peça original, compôs todo o repertório, gravado com a ajuda do guitarrista Bob Mould, verdadeira lenda nos círculos do hardcore melódico por ter liderado o grupo Hüsker Dü.

Como se não fosse suficiente, Hedwig é um protagonista carismático e fascinante. John Cameron Mitchell simplesmente arrasa no papel, tanto nas cenas de shows (ele poderia ser um ótimo vocalista de rock) quanto nos momentos mais intimistas, à medida que o filme se aproxima do final. Todo o texto é de um frescor inigualável; quando Hedwig abre a boca, o filme se transforma em garantia de risadas. Em certo momento, quando faz um show para uma única pessoa, Hedwig consegue juntar filosofia alemã e Rolling Stones numa das piadas mais inteligentes e hilariantes dos últimos tempos. “Hedwig” é um filme para levantar o astral.

Infelizmente, o filme de John Cameron Mitchell não foi lançado no Brasil em DVD. Ele pode ser encontrado em VHS. A versão lançada nos EUA contém um grande documentário de bastidores (85 minutos) que é tão legal quanto o filme em si. É artigo de colecionadores.

– Hedwig – Rock, Amor e Traição (Hedwig and the Angry Inch, EUA, 2000)
Direção: John Cameron Mitchell
Elenco: John Cameron Mitchell, Michael Pitt, Stephen Trask, Miriam Shor
Duração: 95 minutos

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