Hellboy 2 – O Exército Dourado

20/03/2009 | Categoria: Críticas

Mais ambicioso e bem realizado do que o primeiro, filme de Guillermo Del Toro só peca pela excessiva semelhança com ‘O Labirinto do Fauno’

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

Guillermo Del Toro começou a escrever o roteiro final de “Hellboy 2 – O Exército Dourado” (Hellboy 2 – The Golden Army, EUA/Alemanha, 2008) durante as filmagens do seu longa-metragem anterior, o premiado “O Labirinto do Fauno” (2006). O fato acabou se mostrando decisivo para uma alteração fundamental na atmosfera da franquia. O que era antes uma mistura de visual de filme B barato com trama cartunesca de quadrinhos deu lugar a uma fábula macabra de humor negro, com toques fantásticos, drama e emoção. Claramente mais ambicioso (e mais caro) do que o filme de 2004, “Hellboy 2” atinge um patamar superior de excelência, especialmente na parte visual, embora não chegue a ser um grande filme, status que a obra mais autoral de Del Toro alcança com sobras.

De certa forma, a própria influência de “O Labirinto do Fauno” acaba se mostrando ambivalente, agregando tanto pontos positivos quanto negativos ao longa de 2008. O lado bom surge quando se coloca os dois exemplares da franquia lado a lado, já que “O Exército Dourado” supera o antecessor em quase todos os quesitos: humor mais irreverente, tragédias que parecem doer de verdade, visual mais bem elaborado e sofisticado. Até mesmo os efeitos especiais são melhor desenvolvidos, como provam as cenas em que Liz (Selma Blair), a namorada pirocinética de Hellboy (Ron Pearlman), se inflama. Este aspecto deve ser considerado conseqüência direta do orçamento mais generoso, obtido depois de “O Labirinto do Fauno” ir bem no Oscar.

O filme só empalidece mesmo no quesito roteiro, principalmente quando se observa a excessiva semelhança com o longa premiado. A semelhança vai além do visual onírico-macabro, já que “Hellboy 2” praticamente repete a mesma estrutura narrativa fabular, contando com um prólogo idêntico, que narra uma lenda em flashback, para depois mostrar o mito colidindo com a realidade. A história, que versa sobre o perigo iminente de uma guerra entre seres humanos e mitológicos, é um dos pontos fracos da produção. A trama gira em torno de um artefato fantástico: uma coroa de ouro que dá o comando de um exército invencível de máquinas gigantescas a qualquer integrante da realeza dos elfos. Irritado com a progressiva destruição das florestas, um príncipe imortal (Luke Goss) rebela-se contra o pai e a irmã (Anna Walton) e decide tomar posse da coroa, lançando o exército dourado do título contra a humanidade.

Para fazê-lo, porém, o altivo guerreiro elfo precisa reunir os três pedaços da coroa, desmembrada séculos antes pelo próprio pai dele. Cabe a Hellboy, Liz (Selma Blair) e ao homem-peixe Abe (Doug Jones), auxiliados por um colega alemão feito de pura energia (James Dodd), proteger o terceiro e último pedaço da coroa, que está em poder da irmã gêmea do vilão – a moça fugiu da morada dos elfos por discordar das idéias bélicas do parente. Desta forma, Hellboy mais uma vez precisa usar de força bruta para evitar que os homens sejam destruídos. No meio disso tudo, há ainda uma subtrama romântica envolvendo o diabo do bem – e olha que, apesar de parecer absurda, a idéia até que funciona, abrindo espaço para o desenvolvimento emocional de Liz, até então a mais insossa das personagens da franquia.

Observadores atentos irão notar que a trama é uma variação mal-disfarçada do enredo da trilogia “O Senhor dos Anéis”. Troque os pedaços da coroa pelos anéis de poder, por exemplo, e a semelhança fica ainda mais evidente; o prólogo fantástico, que conta a história da forja da tal coroa, aproxima perigosamente o longa da trilogia de Peter Jackson, apesar da beleza visual do trabalho com marionetes. Guillermo Del Toro supera isso demonstrando maturidade como diretor, equilibrando muito melhor a ação física (há boas seqüências acrobáticas de artes marciais) com a exposição necessária para que a ação dramática avance.

O roteiro também explora bem as rusgas do relacionamento entre Hellboy e Liz, namoro que parecia bem mais imaturo e adolescente no filme anterior. Além disso, abre-se espaço generoso para que Del Toro exercite sua imaginação ousada no plano visual. Os cenários são espetaculares, e existem toneladas de personagens secundários macabros e fascinantes, como o Anjo da Morte, um exército de pequenas fadas comedoras de cálcio e o Porteiro do reino elfo do submundo, cuja entrada secreta fica situada embaixo da Ponte do Brooklin (grande sacada!).

O equilíbrio entre o mundo real dos homens e o universo fantástico das criaturas mitológicas, embora lembre bastante a estrutura narrativa de “O Labirinto do Fauno”, funciona muito bem. A cena em que Hellboy e seus asseclas entram pela primeira vez no reino dos elfos, repleta de tomadas panorâmicas apinhadas de seres fantásticos de aparências diversas, tem o encantamento e a ousadia visual dos melhores momentos da saga original de “Guerra nas Estrelas” (quem lembrar da primeira visita de Harry Potter ao Beco Diagonal também terá uma boa idéia do tom da seqüência). Há um ou outro pequeno furo no terceiro ato, mas considerando que a história tem menos importância do que a atmosfera, fica evidente que “O Exército Dourado” atinge o resultado a que se propõe.

O DVD de locação da Universal, simples, traz comentário em áudio do diretor, featurette mostrando os sets de filmagem e anotações de Del Toro. A qualidade de imagem (widescreen anamórfica) e áudio (Dolby Digital 5.1) está acima da média. A edição para venda direta é um presente para fãs de bastidores de bons filmes, pois agrega um segundo disco, contendo um excelente documentário (155 minutos), cenas excluídas e storyboards detalhados do prólogo.

– Hellboy 2 – O Exército Dourado (Hellboy 2 – The Golden Army, EUA/Alemanha, 2008)
Direção: Guillermo Del Toro
Elenco: Ron Pearlman, Selma Blair, Doug Jones, James Dodd
Duração: 120 minutos

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